quarta-feira, junho 30, 2010

A Terceira Depressão






Estamos nos estados iniciais de uma terceira depressão, que deverá ser como a Longa Depressão e o reflexo do fracasso das medidas tomadas. Os custos para a economia mundial serão enormes

As recessões são vulgares, as depressões são raras. Tanto quanto sei, houve só dois períodos na história económica a que, na altura, se chamou "depressão": os anos de deflação e instabilidade que se seguiram ao pânico de 1873 e os anos de desemprego generalizado que ocorreram na esteira da crise financeira de 1929-31.


Nem a Longa Depressão do século xix nem a Grande Depressão do século xx foram épocas de declínio imparável. Pelo contrário, ambas tiveram períodos em que a economia cresceu. Mas esses episódios de melhoria nunca foram suficientes para desfazer os danos da crise inicial e foram seguidos de recaídas. Estamos agora, quer-me parecer, nos estádios iniciais de uma terceira depressão. Esta vai parecer-se provavelmente muito mais com a Longa Depressão do que com a outra, muito mais séria, a Grande Depressão. Porém, os custos para a economia mundial e sobretudo para os milhões de vidas arruinadas pela falta de empregos não deixarão de ser enormes.


Esta terceira depressão será fundamentalmente um reflexo do fracasso das medidas tomadas. Em todo o mundo, como foi manifesto na reunião profundamente desencorajadora do G20, os governos estão obcecados com a inflação, num momento em que o verdadeiro perigo está na deflação; advogam a necessidade de apertar o cinto quando o verdadeiro problema está na falta de despesa pública.


Em 2008 e 2009 parecia que tínhamos aprendido qualquer coisa com a história: ao contrário dos seus antecessores, que aumentaram as taxas de juro em face de uma crise financeira, os actuais dirigentes da Reserva Federal e do Banco Central Europeu baixaram as taxas e tomaram medidas de apoio ao mercado do crédito. Ao contrário dos governos de antanho, que tentaram equilibrar os orçamentos numa situação de economia em queda livre, os governos actuais deixaram que os défices aumentassem. E essas medidas, melhores, evitaram que o mundo entrasse num colapso completo: a recessão desencadeada pela crise financeira acabou, pode dizer-se, no Verão passado.


Contudo, os historiadores do futuro dirão que isso não foi o fim da terceira depressão, tal como a revitalização dos negócios iniciada em 1933 não representou o fim da Grande Depressão. Afinal o desemprego, sobretudo o de longo prazo, permanece a níveis que, não há muito tempo, seriam considerados catastróficos, não mostrando sinais de baixar nos tempos mais próximos. Tanto os Estados Unidos como a Europa estão a caminho de cair em armadilhas deflacionárias ao estilo japonês.

Perante este cenário desanimador, seria de esperar que os legisladores percebessem que não fizeram o suficiente para promover a recuperação. Mas não: ao longo dos últimos meses assistiu-se, espantosamente, ao ressurgimento de uma postura ortodoxa de dinheiro forte e orçamentos equilibrados.


Em termos de retórica, o renascer da antiga religião é mais evidente na Europa, onde os responsáveis parecem querer ganhar pontos com colectâneas de discursos de Herbert Hoover, chegando ao ponto de afirmar que aumentar os impostos e cortar na despesa vai fazer crescer a economia por aumentar a confiança no mundo empresarial. Todavia, em termos práticos, os Estados Unidos estão a fazer as coisas muito mais a fundo. A Reserva Federal parece ciente dos riscos de deflação. Contudo o que se propõe fazer para prevenir tais riscos é... nada. A administração Obama compreende os perigos da austeridade fiscal prematura, mas, como os republicanos e os democratas conservadores com assento no Congresso não autorizariam mais ajudas aos governos estaduais, essa austeridade está aí ao virar da esquina, sob forma de cortes orçamentais a nível estadual e municipal.


Porquê a opção errada nas medidas a tomar? Os adeptos da linha dura invocam muitas vezes as dificuldades da Grécia e de outros países da periferia da Europa como justificação das suas acções. E é verdade que quem investe em títulos de dívida não gosta de governos com défices incontroláveis. Mas nada aponta para que a austeridade fiscal de curto prazo numa situação de depressão económica tranquilize os investidores. Pelo contrário: a Grécia concordou instituir rigorosas medidas de austeridade e viu os seus spreads de risco crescerem ainda mais. A Irlanda impôs cortes violentos na despesa pública e acabou por ser tratada pelos mercados como um risco pior que Espanha, país que se tem revelado muito mais avesso a engolir a receita da linha dura. É quase como se os mercados financeiros percebessem o que os decisores políticos parecem não entender: que embora a responsabilidade fiscal a longo prazo seja importante, o facto de se cortar na despesa em plena depressão (o que agrava essa depressão e abre caminho à deflação) é, na realidade, um tiro no pé. Por isso não acho que isto tenha que ver com a Grécia, nem sequer com alguma análise realista da dicotomia défice-emprego. É, sim, a vitória de uma postura ortodoxa, que tem pouco que ver com uma análise racional, cujo dogma central é que a imposição de sofrimento aos outros é a maneira certa de mostrar capacidade de liderança em tempos difíceis.


E quem vai pagar o preço deste triunfo da ortodoxia? Dezenas de milhões de trabalhadores desempregados. Destes, muitos ficarão sem emprego durante anos: os restantes nunca mais voltarão a trabalhar.

Paul Krugman
2010-06-29 10:44

Aposentação

Tenho nesta altura, à semelhança de muitos portugueses, um familiar que acaba de se aposentar da função pública.

Décadas de serviço público, anos de experiência e de dedicação à comunidade.

Nesta altura de crise, de redução de efectivos, de algumas tentações de perseguição aos funcionários públicos temo que:

1- Não saibamos estimar e promover a dedicação e o bom exemplo,
2- Não sejamos capazes de reconhecer quem merece,
3- Sejamos incapazes de aprender com quem agora se reforma,
4- Sejamos incapazes de renovar a função pública pelo critério da excelência.

Por mim, reconheço e agradeço publicamente o seu alto exemplo!

Numa altura em que os grandes alunos concorriam e acediam, por mérito, à função pública, foi essa a sua opção.
Mãe de seis filhos, foi essa a sua graça. Funcionária exemplar que chegou ao topo da carreira e que ainda teve, concomitantemente, forças e tempo para apoiar o seu sindicato e, assim, os seus Colegas. Pessoa de dizer sempre aquilo que devia, doesse a quem doesse, incorruptível e dedicada, que grande exemplo de vida!

Faço votos para que todos quantos vão encerrar as suas funções públicas, nestes últimos tempos são milhares, aproveitem essa fase nova e que continuem, por muitos e bons anos a irradiar vida, a derramar saber e amor, a todos quantos os rodeiam.


Como já hoje li:
-"Longo e penoso é o caminho através de normas e leis, curto e eficaz é através do exemplo.", Séneca.

PT - os votos, os vetos e os betos


Artigo 63° do Tratado sobre o funcionamento da União Europeia

1. No âmbito das disposições do presente capítulo, são proibidas todas as restrições aos movimentos de capitais entre Estados-Membros e entre Estados-Membros e países terceiros.

O que se passou esta manhã na Assembleia Geral da Portugal Telecom é uma vergonha a vários títulos.

Em primeiro lugar, porque é uma ilegalidade flagrante face ao direito da União. Dentro de uma semana a República Portuguesa será condenada no Tribunal de Luxemburgo por manter uma golden-share na PT.

É uma vergonha pois é um sinal negativo que se envia a qualquer investidor internacional no momento em que mais precisamos deles: o país fica com a imagem de uma espécie de Congo que pertence a uns certos nomes e em que é preciso ir ao beija-mão. O D. Basílio bem pode fazer os seus números a promover azeites e fechaduras, mas o dinheiro vivo vai passar a tratá-lo ainda com mais desprezo.

É uma vergonha porque é uma mentira: os mercados vão penalizar não só a PT mas todas as empresas nacionais que doravante precisem de ir buscar fundos ao exterior. Dizer que o veto do Estado o foi em defesa dos interesses estratégicos nacionais é de uma miopia económica e política invulgar. E quem vai pagar a factura vai ser o consumidor.

Mais valia que o Estado decidisse nacionalizar a PT. Na verdade, esse veto corresponde a uma nacionalização, com a agravante de que o accionista não é compensado. É portanto pior que uma nacionalização. E é sobretudo um logro e uma fraude cometida pelos que sempre falam em desenvolvimento e na iniciativa privada para afinal impedirem o mercado de funcionar. Já assim tinham procedido aquando da OPA da Sonae e agora repetem-no com a Telefónica de uma forma ainda mais brutal, o que não deixará de trazer consequências seriíssimas para todo o nosso tecido económico.

Hoje assistimos a um remake foleiro do que havia de mais ressequido no pior do salazarismo provinciano, para benefício apenas de uns tantos senhores instalados em poltronas que partilham com gente da laia dos Rui Soares e Varas.

E é uma vergonha que haja pessoas que deviam ser competentes e afinal são coniventes e cúmplices de uma fraude: o Sr. Menezes Cordeiro (na foto), presidente da Assembleia Geral (deve ser campeão em Assembleias Gerais, vide BCP), ou é um ignorante ou está de má fé quando declara que a condenação de Portugal no Tribunal da União Europeia só será eficaz para o futuro: sê-lo-á desde o fim dos dois meses que se seguiram ao envio de há anos do parecer fundamentado.

Enfim, é uma vergonha para a oposição política que tem assento na Assembleia da República: não conheço nenhuma voz que ali se levante a desmascarar este Estado de opereta e estes truques de mercearia. Julgam-se modernos e afinal não passam todos de uns lacaios.

Ontem perdemos por 1-0. Hoje perdeu-se a honra. Besuntem-se na brilhantina.

terça-feira, junho 29, 2010

Barrar a barragem, afundar o Fundo



Que a EDP, de braço dado com a Iberdrola e os empreiteiros do regime, ande pelo norte do país a destruir os nossos rios e os nossos vales, a nossa biodiversidade, o nosso turismo e a nossa paisagem, a pretexto de nos vender uma das mais caras energias da Europa, é coisa lá desses majestáticos centralistas que acham que podem vir cá trocar um espelho por um diamante e ainda ficarem a rir-se dos Gungunhanas que estão para cima do Douro.

O Sócrates-Mexia vai ter surpresas graúdas se julga que pode continuar a trilhar esses caminhos e mais avisado seria se conversasse com o Sócrates-Mendonça, quando este voltar de Moçambique, para saber que isto não vai a chip e que não lhes vai ficar nada 'cheap'.

Entretanto é de saudar a recusa de 9 organizações não-governamentais de participarem nesse cínico fundo da EDP para a biodiversidade que supostamente lhe compraria uma boa consciência. Até porque o fundo é curto: 2,5 milhões não chega para demolir sequer a barragem mais pequena.

Postal de Barcelona (Carta aberta aos grandes chefes


Caro Zé,

Caro Aníbal,

o meu nome é Ana e nasci em Lisboa, mas vivi no Porto quase toda a minha vida. Foi lá que cresci, junto ao rio e ao mar; foi lá que estudei e aprendi tudo o que sei; foi a Norte que passei todas as minhas férias e foi também lá que me ensinaram os valores que hoje me regem.

Foi a Norte que me ensinaram que não se cruza os braços perante a adversidade; foi a Norte que me mostraram que, quando o ser-humano deixa que as mordaças da hipocrisia lhe calem a voz, perde terreno importante para as trevas da exploração; foi a Norte que percebi que a Honra tem muito mais a ver com a forma e a força com que arregaçamos os braços para trabalhar e ajudar o próximo, do que com a gravata que escolhemos para receber um cargo com o qual, afinal de contas, não sabemos bem o que fazer; foi lá em cima que sempre ouvi que não podemos deixar de lutar contra aqueles que nos pisam, que nos oprimem, que nos limitam, que nos reduzem a pouco quando somos muito. Tudo isto aprendi pela boca de pessoas várias, unidas em torno de valores comuns e de uma herança de combatividade (não apenas pela região, mas principalmente pelo próprio país); pessoas de diferentes cores políticas, profissões, estratos e condições sociais; pessoas que às vezes nem sabiam a importância do que me estavam a transmitir; pessoas que falam com o coração na boca e que, se tivessem o país nas mãos, fariam de nós algo ainda maior do que o que agora somos. Só porque sim – só porque os seus antepassados o fizeram sempre.

Tal como disse no início desta carta, foi no Norte que estudei. Mas não foi no Norte que arranjei emprego. Não é no Norte que estou a conseguir desenvolver-me e criar riqueza para o meu país. Não é a terra onde nasci que Norteia as minhas escolhas, nem é lá (ainda) que posso contribuir com as minhas capacidades, explorar o meu potencial ou rentabilizar a minha energia.

É que a Norte não há emprego. A Norte há poucas possibilidades de receber um bom salário. A Norte somos constantemente alvo dos caprichos da capital e acabamos sempre a pagar as favas dos amuos da vossa gente quando sente os bolsos mais leves. A Norte somos pior servidos de transportes e na prática acabamos por pagá-los mais caros. A Norte temos que fazer duplo-esforço para lutar contra o isolamento cultural e artístico e estóicamente ultrapassar violentos ataques e barreiras ao renascimento e desenvolvimento das indústrias que, um dia, alimentaram o país – isto é hoje tão evidente, que só não o vê quem, como os senhores, pura e simplesmente não quer.

Eu não me estou a queixar. Eu tenho dois braços, duas pernas, uma voz potente e três ou quatro capacidades que, certamente, me proverão o sustento mais tarde ou mais cedo. A Norte, pois claro. (Se tiver que ser a Sul, pois que seja, de fome não morrerei – mas o meu coração continuará no Norte e jamais me venderei como tantos dos vossos colegas de mexerico político). Basta os senhores olharem à história e terão diversas provas de que aqui em cima sempre estivemos bem acordados. Repito, não me estou a queixar, porque sei que mais dia, menos dia, esta situação terá um fim. O Norte será Norte e continuará a ser Portugal, mas um Portugal que não baixa a cabeça ao poder central e nem se governa pelo desgoverno que vem da Capital. Só mais uma vez, para que fique bem claro: eu não me estou a queixar – estou apenas a avisar. Junto a minha voz às de tantos outros que têm vindo a fazer avisos semelhantes, por motivos que, entre outros, se prendem com a subsistência e dignidade de uma Juventude que se recusa a apodrecer calada.

Estarão agora os senhores a pensar: “Bolas, a miúda está revoltada!”. Estou sim, meus senhores. Estou eu e os meus irmãos; o meu namorado; os meus vizinhos; os meus amigos; os amigos do meu namorado e os amigos dos meus amigos; os meus colegas de curso; os meus colegas de trabalho (temporário, claro); os meus companheiros de autocarro e de metro; os meus tios, primos e avós; todos os amigos e colegas deles; os meus pais e os seus amigos…somos muitos. E seremos cada vez mais.

Só para acabar, uma última ressalva: os senhores lembrem-se de que não estão a brincar com tostões. Estão a brincar com a vida de pessoas unidas pelo orgulho de, historicamente, sempre terem aceite de peito aberto a luta pela dignidade. Repito: de peito aberto; coração na boca; e o Mundo nas mãos.

Não roubo mais do vosso precioso tempo. Fá-lo-ei, certamente, com o próximo boletim de voto que me chegue às mãos.

Aquele abraço de fair-play,

Anita*

domingo, junho 27, 2010

Scut, chips e mais trapalhadas socratinas

O dia 1 de Julho é já na quinta feira. E segundo o que corre era a partir dessa data que iriamos começar a pagar em algumas das scuts. Via chips ou vão lá montar umas banquinhas com uns simpáticos lotes de desempregados? Mas a trapalhada é tão grande que estou sem perceber, mas o que me safa mesmo é que amanhã tenho que depositar a minha carta no governo civil. Fiquei finalmente a perceber para que servem os governos civis; fiéis depositários de cartas de condução. Mas voltando às Scuts e aos Chips como ficamos? pagamos, partimos as coisas à pedrada ou deixamos de trabalhar?

Aniversário do Nortadas

O Nortadas faz sete anos. Não que estivesse esquecido, mas contava ter um porto para oferecer a todos os que aqui vêm ler os nossos escritos e também para todos aqueles que resolveram fazer parte desta casa. Mas recebi este alerta e bem merece que o nosso aniversáro seja anunciado. São 7 anos. A idade da primeira crise nos casamentos, que espero não tenha aqui aplicação. Que venham mais 7.

Ainda o Mundial

Não sendo um fã de Carlos Queiroz, tenho que reconhecer que ele tem encarado cada jogo de forma séria e de forma muito preparada. Contra a Costa do Marfim como era o primeiro não convinha perder. Assim aconteceu. O segundo, com a Coreia, era preciso vencer e assim aconteceu se bem que por números que não deviam estar nos seus melhores prognósticos. Depois o Brasil serviu para rodar Pepe, experimentar Duda numa nova função e dar jogo a Ricardo Costa. E claro não perder pois o que interessava era atingir o primeiro objectivo: passar a fase de grupos.

Agora vem aí a Espanha e um novo desafio. Que será encarado certamente com outra postura e certamente com uma equipa posicionada com cuidados defensivos, mas de pendor ofensivo quando de posse da bola. Aguardemos então.

Os árbitros do Mundial

No Mundial de futebol está o supra-sumo não só das equipas de futebol mas também das equipas de arbitragem. Temos visto frangos de guarda-redes, golos escandalosamente falhados e erros grosseiros dos árbitros. Hoje, só hoje, é o golo invalidado a Lampard e o golo validado a Tevez. Inglaterra foi para a casa e o México deve seguir o mesmo caminho. Mas o futebol é isto mesmo ou poderiamos melhorá-lo?

sábado, junho 26, 2010

Porque hoje é Sábado

Óleo de Thomas Eakins "O Pensador - retrato de Louis Kenton" 1900

Scut's


Olhai os delírios do Campos (1)

(1) Com um abraço para o Pedro Guerreiro, a quem roubei a chalaça

quarta-feira, junho 23, 2010

O pânico dos centralistas

Quer ler um chorrilho de disparates a propósito da Regionalização ?
Consegue digerir uma resma de preconceitos embrulhados em arrogância e presporrência ?
Aguenta saltos de lógica, passes de mágica e argumentos de feirante ?
Eu aviso : tome primeiro um Alka-Selzer e só depois espreite ali

http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/3770325.html#cutid1

terça-feira, junho 22, 2010

Recebido por mail (2)

O IAPMEI injectou dois milhões de euros na Facontrofa, a empresa que produzia vestuário da marca Cheyenne. Com a operação, o Estado português (o IAPMEI é um instituto público) ficou com 40% do capital da empresa. Duas semanas depois, a Facontrofa deixou de produzir.

SCUT's e chips II

A situação é de pré-revolta, como se pode ler aqui.

Vale a pena, também, ler o editorial do Pedro Guerreiro, no Jornal de Negócios.

A situação do país é muito grave, e estamos todos dispostos a sacrifícios. O que não é possível é que haja uns que tomam os outros por patetas. E é sério o risco de que a coisa acabe por correr mal.

As scuts nunca foram um instrumento de coesão social. As scuts foram sempre um truque de desorçamentação.

SCUTs e chips

Ninguém de boa-fé e com o mínimo de bom-senso, seja de que região for, pode defender que a imposição de portagens nas Scuts do norte é uma medida justa e não-discriminatória.

Os partidos centralistas, do CDS ao Bloco, passando pelo PS e PSD, não falam nesta discriminação e tampouco lembram que, aquando do aumento do Imposto sobre os combustíveis (ISP) no início de Sócrates 1, se justificou tal aumento com a necessidade de fazer face aos encargos das Scuts.

O silêncio ensurdecedor desses partidos, não obstante uma ou outra voz desgarrada, deu agora lugar a uma outra encenação caricata: a discussão sobre os chips nas viaturas para que seja possível um controlo electrónico da utilização desses troços rodoviários. Brada aos céus o cinismo e a traição do PSD, que quer deslocar o debate para um nível técnico, tentando assim esvaziar a justíssima revolta nortenha por mais uma arbitrariedade governamental.

O embaraço envergonhado e cobarde do líder parlamentar dessa bancada, o Sr. Miguel Macedo, mais as declarações recentes do Sr. Jorge Costa, outro deputado laranja (ver aqui) são bem reveladoras do que o Norte pode esperar dessa maltinha centralista: o mais arrogante desprezo.
.

Logo joga a França, mas com condições

segunda-feira, junho 21, 2010

O estado do crime (1)

O estado do crime (2)

O estado do crime (3)

O estado do crime (4)

Navegadores

Já tinha comentado, num post do FVF, que gostava desta selecção.

Acho que o Queirós os tem todos "muito afinadinhos" para o objectivo principal. Nesta fase, passar aos oitavos de final.

Basta ouvir as respostas que foram dando sobre "ganhar a titularidade" ou o merecimento da nomeação do Tiago para homem do jogo.

Agora é não perder com o Brasil e depois, no mata-mata, tudo pode acontecer...

Eu não gosto do Saramago

Nesta nacional porreirice em que vamos vivendo, a imprensa pátria passou o fim de semana a confundir o autor José Saramago, com o cidadão Saramago.

O primeiro é um grande escritor, está vivo nas suas obras e foi premiado com o Nobel pela grandeza da sua obra. Eu gosto. Mas sobretudo agradeço-lhe o contributo para a divulgação da nossa língua, cultura e história. Apreciava-lhe a capacidade de escrever claro com um uso muito pouco vulgar da pontuação; e a imaginação. Este autor merecia e devia ter tido a homenagem do Presidente da República.

O homem Saramago, era um crápula. Não foi nunca um herói da liberdade, como a nossa imprensa apregoa, ainda que possa ter sido um combatente do antigo regime fascisto-porreirista. Hipócrita, foi casmurro nas convicções políticas de juventude, não tendo vergonha de defender o indefensável. Persistiu na sua casmurrice até à morte, ainda para mais arrogando-se uma autoridade libertária que não tinha e em que não acreditava. Era de esquerda porque queria lá por a gente dele, mais nada. Usava os argumentos caridosos da esquerda, porque é sempre mais fácil falar do dinheiro dos outros do que do próprio. Felizmente, o povo nunca deu aos comunistas a hipótese de nos governarem, porque senão teria sido desmistificante ouvir Saramago a defender as asneiras deles...

Esta distinção entre o autor-romancista-escritor, aliás de profunda espiritualidade ainda que anti-católico e anti-crente, e o cidadão de extrema esquerda precisava de ter sido feita por alguém com autoridade. Nem que fosse apenas a autoridade do Estado. Poderia ter sido um Presidente da República de direita. Se houvesse.

Progresso da Foz - Nova sede

Fotografia de Francisco Bernardo (2007)

Inauguração da nova sede de

O Progresso da Foz
Dia 24 de Junho, dia de S. João, às 19 horas
(será oferecido um Porto pela Casa Ramos Pinto)

Monte da Luz, 5*
Foz do Douro

No edifício da antiga Estação Semafórica (existente desde início do séc. XIX),
propriedade da Associação Comercial do Porto e por esta cedida ao nosso grupo cultural.

O edifício, renovado, situa-se no ponto mais alto do Porto Ocidental, onde se encontraram gravuras rupestres pré-históricas, e onde anteriormente existiu uma Capela em honra de Nossa Senhora da Luz (registada já em 1680) e um farol que foi desactivado em meados do século passado.

Passa a ser sede desde grupo cultural, ponto de encontro de intervenção cívica e de visita cultural.


* Acesso pelo topo da Rua do Farol (entre esta, a Rua do Teatro, a Praça de Liège, a Rua do Monte da Luz e a Rua do Túnel).
Monte da Luz, 5 4150-059 PORTO
Portugal
o
progressodafoz@gmail.com
www.oprogressodafoz.com

Postal de Barcelona (6)


A grande maioria dos prédios de Barcelona, sobretudo nas zonas mais centrais (e mais antigas), têm saguão. Alguns prédios, mais recentes, maiores, em zonas mais nobres têm um saguão interior, amplo, luminoso, que desemboca no próprio hall do prédio. Esses prédios, ao contrário do meu, normalmente têm elevador e porteira.

O prédio onde moro, além de não ter elevador, tem não um, mas dois saguões, um deles fechado para o exterior com uma espécie de telhado de plástico. Imagino que o objectivo desta “tampa” seja preparar os pobres habitantes (pobres) deste edifício para a devastação do aquecimento global, porque subir os 5 andares do prédio a pé sob um calor concentrado quase transformado em vapor é uma experiência verdadeiramente apocalíptica. O outro saguão, mais estreito (muito estreito, como podem ver pela imagem), não está fechado para o exterior, e por isso agradeço ao espírito caridoso que iluminou a mente da minha senhoria…é que é nesse que se cruzam as janelas das cozinhas e das casas de banho de todos os vizinhos.

Este pormenor arquitectónico já foi, e continua a ser, responsável por momentos hilariantes que marcarão para sempre a minha estadia nesta cidade e a convivência entre os companys deste piso. O Anselmo, cujo quarto tem janela para o grande saguão, tem que conciliar as suas horas de sono com as do vizinho, sob pena de não conseguir adormecer devido ao seu generoso ronco. O Gonçalo, que estuda em horas coincidentes com o horário espanhol das refeições, tem que usar duas ventoinhas para poder manter a janela do quarto fechada – a vizinha da frente gosta de fritos e empesta-lhe o ar com o cheiro (consta que já foram até encontrados salpicos de óleo nos seus cadernos…).

A seguir ao jantar, torna-se imperativo fechar a janela da casa de banho, pois o já cronometrado biorritmo do vizinho do lado é uma arma química que ataca qualquer digestão mais sensível. No outro dia o Tiago evitou por pouco um incêndio na casa ao lado – a vizinha estava a queimar as torradas e nós achámos por bem ir bater à porta dela a avisar. E eu, que inocentemente apanhava a roupa no terraço, ao virar a cabeça num ângulo de 45º, tive o (des)prazer de quase presenciar o momento em que o filho da vizinha compenetradamente mandava o seu fax matinal.
(continua ali)
Ana

Saramago

Eu não interrompi as minhas actividades profissionais e Cavaco as férias. Estivemos bem os dois.

sábado, junho 19, 2010

As mulheres que eu ouço (6)

E amanhã?



Falar em déficits, orçamentos, política fiscal, recessão, spreads e ratings é abordar assuntos que a maioria julga entediantes, próprios de especialistas, e a verdade é que qualquer ministro das Finanças passa por ser uma inteligência que felizmente nos poupa a maçada de raciocinarmos sobre essas contas e essas implicâncias.

Depois de um período em que os Estados acorreram com biliões para alegadamente salvarem o sistema financeiro e com este a economia, passámos num piscar de olhos para um assalto ao utente, ao contribuinte, em nome da redescoberta de uma ortodoxia orçamental cuja ausência não incomodara pelos vistos ninguém durante largos anos.

Se um cidadão comum se atreve a fazer algumas perguntas, pedem-lhe de imediato credenciais e títulos, para afinal o calarem e dar apenas voz aos encartados de ontem e de hoje, que são os mesmíssimos que nos trouxeram, na sua infinita sabedoria, para este beco onde nos roubam a carteira.

Sou dos que pensam que se deve rejeitar liminarmente o simplismo demagógico de que não se pode ter mais despesa do que receita e que o déficit zero seria o padrão quase moral a respeitar. Mas partilho a ideia de que um Estado que não seja capaz de pôr critérios justos na despesa não tem autoridade política para cobrar mais receita dos seus cidadãos.

Começo a desconfiar desta mania luterana de exigir um puritanismo redentor como expiação de pecados passados. É irmã gémea da sua contra-face, ou seja, desse deixa-andar irresponsável e post-moderno de que a riqueza futura há-de tapar os buracos deixados pelas pontes e pelos comboios de luxo, ao mesmo tempo que se vai esmifrando o empregado, o funcionário e todo o tecido social que está fora do centro.

O país precisa de uma estratégia e de uma política. Não as tem.
Há uns ditos PECs que vão e vêem, e em cada réguada aumentam os trabalhos de casa que acabam sempre na cozinha do remediado, pois os grandes e entendidos acham que a melhor maneira é a de delegar as dores pela escala social abaixo, ao lavarem as suas consciências com uma ou outra cosmética avulsa que nos faça crer que também metem do seu.

Isto assim há-de acabar mal.

Sugestão de fim de semana

Este é um dos grandes textos de Saramago. É o discurso perante a Real Academia Sueca, e em que Saramago faz a história da sua vida e dos seus livros.

Vale a pena ler até ao fim.

Sugestão de fim de semana

O notável artigo publicado ontem no Público pelo Jorge Monteiro "Patriotismo e Regionalismo".

Porque hoje é Sábado

Óleo de Asher Durand "The Beeches" - 1845

sexta-feira, junho 18, 2010

Sugestão para o fim de semana

clique para aumentar
Aqui fica uma sugestão trazida pelo DE, num belo texto.
É também um local com boas memórias políticas.

UM MENINO DA FOZ

Convite

para o lançamento do livro

Um Menino da Foz
de
José Rosas Nicolau de Almeida

Um retrato de uma juventude tumultuosa, entre o desporto e a música, o trabalho com o pai no fabrico do vinho Barca Velha e o Douro, a guerra de Angola pela frente, emigrando em seguida para França, exprimindo a cada passo fortemente as suas dúvidas pessoais, interiores e sociais. No cenário da Foz, do Porto, de Portugal e da Europa, um relato sincero, comovente e cheio de humor de um filho da "alta", como o autor se diz, que "foi à vida" por si só e que triunfa naquilo que é - deveria ser - o elemento de procura essencial do Homem: a felicidade… "não deixando de ser quem é".

Sábado, 26 de Junho de 2010, pelas 18,30 horas

no


Hotel da Boa Vista
Esplanada do Castelo, 58, Foz do Douro 4150-196 Porto
Tel. (+351) 22 532 00 20 / fax (+351) 22 617 38 18
www.hotelboavista.comreserva@hotelboavista.com info@hotelboavista.com

GRAU ZERO

Estão, meu caro Douro, bem um para o outro.
Para Passos Coelho, portanto, Sócrates não mentiu.
Está demonstrado que Sócrates sabia que estava em curso o negócio da compra da TVI pela PT, disse o contrário no Parlamento, mas não convém que a mentira seja verdade.
Esta mascarada não é passível de qualquer interpretação ou explicação indulgente. O pior é que eles têm perfeitamente noção da figura que fazem, tomam-nos por imbecis e mesmo assim acham que se safam.

NOTAS

1- Ontem (17/06/2010) conferência no Palácio da Bolsa promovida pela Missão do Douro à volta do tema das vantagens económicas e do turismo no Douro património mundial.
Fiz intervenção à volta da questão das Barragens do Sabor e do Tua. Deu para agitar as águas antes do debate que o Nortadas vai promover.
Entidades oficiais e politicos do "status quo" claramente incomodados com o tema. Naturalmente que não responderam às questões.
Embaixador da Unesco faz intervenção chamando a atenção para a necessidade de se preservar o Douro tal como está e dá exemplo de uma recente decisão de desclassificação na Alemanha (em Dresden) pelo simples facto das entidades oficiais terem feito uma ponte e uma estrada.
EDP presente e após simpática e breve conversa em principio estará disponivel para o nosso confronto de ideias.
No intervalo fiquei surpreso com a reacção das pessoas, muito positiva e interessadas no assunto, a darem os parabéns pela intevenção e com vontade de estarem presentes no debate.

2- Reunião com o Museu do Douro. Correu francamente bem.
A coisa promete.
Segunda feira reunião final de preparação.
Tudo aponta para dia 17 de Julho de 2010.
Francisco compra o bilhete que também tens lugar no pulpito.

3- À noite conferência promovida pelo Conselho Distrital do Porto da Ordem dos Advogado com o Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas Carlos Moreno.
Conferência interessantissima. Fiquei impressionado com o pessimo estado das coisas. Ainda pior do que eu imaginava.
O conferencista disse tudo o que havia a dizer e sem papas na língua. Só faltou dizer - façam uma revolução que isto de outra maneira não vai lá.
As ideias mais importantes a reter:
-A divida pública é superior a 235% tendo em conta que ninguém sabe bem os valores que estão nas sociedades anónimas de capitais exclusivamente público nem nas empresas municipais.
-O Tribunal de Contas sendo independente está verdadeiramente maneatado na sua actuação pelo poder politico.
- Por isso é impossível sancionar os maus gestores dos dinheiros públicos.
- O Presidente do TC é nomeado pelo poder politico, portanto, quem controla é nomeado pelo controlado.
- As leis financeiras públicas são feitas pelo Governo ou AR e nenhuma delas se preopcupa em permitir ao Tribunal de Contas punir os maus gestores públicos.
- Uma promiscuidade muito grande entre os politicos e os lobys de influencia.
- Veja-se a quantidade de Ministros das Obras Públicas que passado uns anos de entregarem obras de grande valor vão para grandes lugares nas empresas beneficiadas (ex. Lusoponto, Mota-engil)
Segundo o conferencista é preciso que a geração dos 30/35 anos de idade tome conta disto porque a geração dos politico que por aí andam já não muda e está prevertida e comprometida com o sistema.

a bem da Nação!!!

Noves fora, nada

Há uns tempos, um dos candidatos à liderança do PSD, dizia para quem o queria ouvir que se a Comissão de Inquérito concluísse que o Primeiro-Ministro tinha mentido no caso TVI , então o "engenheiro" teria de ir embora.

Passadas umas semanas, a mesma pessoa, mas agora já eleita líder do seu partido, reformulava a frase, substituindo o "concluísse" por "provasse".

Daqui a uns dias, vamos provavelmente ouvi-lo a pedir desculpas ou a agarrar-se ao "provasse", qual bóia de salvação para não se estatelar definitivamente no chão.Mas como tudo isto já bateu no fundo, o mais certo é não acontecer nem uma coisa nem outra, pois o descaramento está em venda livre

quinta-feira, junho 17, 2010

A crise e os tanguistas


A crise é um raio-x muito eficaz.
Cada chapa revela o vazio que se esconde por detrás das palavras dos responsáveis políticos.

A primeira e óbvia lição da crise, e que já era evidente mesmo antes de qualquer passagem pelo scanner, é a de que não temos Governo: anda lá um "sapatilhas" rodeado de umas baratas tontas, mas nem percebo porque é que os polícias ainda lhes batem a pala.

A dita oposição parlamentar, a começar no PSD do Sr. Coelho, é a sombra de um não-Governo, ou seja, nem sombra é: andam lá umas gravatas com ar de quem se ocupa em alguma coisa, mas até nisso são patéticos. Hoje, ao ler a coluna do Tiago Fernandes, percebi que a proposta deles quanto às portagens das Scuts se resume a dizer às pessoas para irem viver mais perto do seu emprego, que as freguesias deviam estar melhor apetrechadas para explorarem a beldroega e, enfim, que a Regionalização é melhor não. Lindo tango!

O Presidente da República olha desesperado para este deserto, sacudindo a água do capote o melhor que pode e perguntando-se a quem entregar esta choldra. Em seu torno volteiam umas inteligências a sussurrarem que seria melhor um regime presidencialista, desde que não fosse sidonista.

O novo Governador do Banco de Portugal deve estar ainda a ler os tais esboços do seu antecessor e, entretanto, vai-nos dizendo que com aquele ministro das Finanças estamos bem entregues. Por este lado, também ficamos conversados.

Os banqueiros fazem discursos e abusam da brilhantina enquanto suplicam por detrás das cortinas financiamentos para ver se conseguem ir gerindo o estamine que lhes mantém lucros chorudos.

As empresas públicas prosseguem a gestão majestática de um país que julgam pertencer-lhes, destroem (caso da EDP no vale do Sabor) sem vergonha e deixam apodrecer (caso da REFER nas linhas do norte) o que era suposto servir as populações.

Quanto à Europa, é melhor nem falar disso, pois é possível dizer tudo e não ficar nada. Hoje reúnem-se mais uma vez para se ralharem uns aos outros e não tarda nada que o repasto se transforme numa rixa de ciganos (perdoem-me os meus amigos Rom).

Não há nada de bom a esperar desta gente.
A principal conclusão a tirar deste estado de coisas é de que somos agora nós, os cidadãos comuns, quem tem de se chegar à frente e, partindo do concreto e do terreno, estabelecer as suas metas, definir as suas recusas e lutar pelos seus interesses, os interesses da sua Região e de Portugal.

O mundial das surpresas

Depois do empate de ontem da nossa selecção nada melhor para nos alegrar do que a derrota da Espanha. Não necessariamente pelo mal alheio, se bem que os espanhois a perder nos dê sempre alguma alegria, mas porque veio demonstrar que este mundial vai ser fértil em surpresas. Itália, França e Inglaterra também não foram além de empates e até o brasil e argentina não esmagaram como se pensava. Claro que poderiamos acusar a bola, até as vuvuzelas, mas acredito mais no cansaço acumulado por jogadores com muitos jogos nas pernas. Mas aguardemos para ver o que se passa na nova ronda. Pode ser que venha ao de cima os valores individuais. Mas a procissão ainda vai no adro.

quarta-feira, junho 16, 2010

O "Norte" de Miguel Esteves Cardoso‏, de novo

O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.

Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas.

Mais verdades.
No Norte a comida é melhor.
O vinho é melhor.
O serviço é melhor.
Os preços são mais baixos.
Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia
Estas são as verdades do Norte de Portugal

Mas há uma verdade maior.
É que só o Norte existe. O Sul não existe.
As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et cetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.

Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.
No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista?
No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país

Não haja enganos.
Não falam do Norte para separá-lo de Portugal.
Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal.

Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal.
Mas o Norte é onde Portugal começa.
Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.

Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte.

Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa.
Mais ou menos peninsular, ou insular.

É esta a verdade.

Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa.

O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.

O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.

Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.

O Norte é feminino.

O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos.
Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.

São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente.

Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial.

Só descomposturas, e mimos, e carinhos.

O Norte é a nossa verdade.

Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.
Depois percebi.

Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte".

Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.

No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita.
O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os- Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.

O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm e dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?

Bana

Que grande evento que o Miguel Anacoreta Correia, irmão do nosso JAC, organizou!

Justa homenagem a Bana esse grande cantor caboverdiano !


http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article53708&ak=1

Outras vontades

Óleo de Egon Schiele "A minha mulher" - 1918

Mudam-se os tempos???!!!...

Tive um bisavô ligado às músicas. Foi músico, compositor e maestro. Como pessoa activa que era fundou ainda no Porto uma casa comercial de instrumentos, acessórios e pautas musicais (o cd estava então ainda por inventar).
Nesta sucedeu-lhe seu filho, e meu avô, ao que parece bastante menos activo que seu pai e, seguramente, sem grande queda para gerir um negócio, pelo que aquela casa musical acabou por sucumbir.

Foi-se, assim, o ganha-pão de meu avô, mas, e bem pior que isso, pelo caminho haviam ficado também alguns credores. Como resolver o problema? A falência resolveu naturalmente a questão legal, mas não lhe solucionou a da honra.
Pois bem, sua mulher, minha avó, que então já leccionava no velho colégio von Hafe (de algum modo precursor do actual colégio alemão no Porto), multiplicou-se em aulas extra particulares.
Foram aulas de francês e de inglês, foram aulas de alemão e de piano, foram horas e horas de aulas, mas todos os credores se viram pagos na íntegra.

Veio-me esta história hoje à memória por, enquanto tomava o café matinal, ter ouvido alguém que contava, a outro alguém, como tinha deixado os parvos dos credores a arder, explicando as movimentações, naturalmente legais, que imprimira ao seu rabo para lhe evitar a seringa.
Porém, ao invés de o confidenciar de modo envergonhado, fazia-o em tão claramente audível nas mesas circundantes e até no balcão onde eu tomava o meu café, como se tal façanha, para o seu ego-chico-espertista, fosse mesmo uma questão de honra!
E o outro alguém ainda ouvia tais feitos com a vénia devida a tamanha esperteza...

terça-feira, junho 15, 2010

estes navegadores

Estes navegadores não vão dobrar o cabo da boa esperança!A falta de qualidade do jogo de hoje contra a Costa do Marfim e o osso duro de roer que a Coreia promete vir a ser

e ou muito me engano ou estes navegadores vou naufragar logo à saida da barra de leixões.

a bem da Nação!!!

QUASE SAUDADES

Estamos mesmo em crise e, como sempre, a culpa é nossa e não do mundo. Nunca pensei que ia ver um jogo em que ia ter (quase) saudades de Scolari.

segunda-feira, junho 14, 2010

A caminho do Sabor (cont.)....



a bem da nação!!!

A CAMINHO DO SABOR...

As eleições belgas


Bart de Wever é um homem inteligente.
Dirige o NV-A, o partido da nova aliança flamenga, o mais votado nas eleições de ontem na Bélgica.

Dez anos atrás, era um grupo, hoje é uma força. Chamam-nos de separatistas porque querem fazer evoluir a Bélgica para um Estado Confederação, cansados que se sentem de pagar os desvarios de uma Valónia gastadora, encostada ao Orçamento e atascada em múltiplos casos de corrupção socialista.

O NV-A ultrapassou todos os partidos clássicos, da esquerda à direita, ridicularizando de passagem o partido racista e xenófobo de extrema-direita.
O NV-A é um partido democrático que soube inspirar o eleitorado da Flandres e que muito provavelmente fará parte do próximo governo belga, apesar de Bart de Wever já ter declarado que pessoalmente recusa o posto de primeiro-ministro.
Interessante.

domingo, junho 13, 2010

CDS - Distrital de LISBOA

Aqui há dias avisei quanto às eleições CDS Lisboa.

Como escrevia no cachimbo ( http://cachimbodemagritte.blogspot.com/2010/06/ha-cada-vez-mais-pessoas-pensar-como.html), PPB:
- "Há cada vez mais gente a pensar como nós"!

E não mentia, claro está que não basta ter razão, há que ter votos.

PPB, com o seu interessante e refrescante programa, com a sua equipa, recolheu mais de 300!


Com um inédito o n.º de votantes a lista B teve cerca de 33% de votos.

Soma e segue!

Vuvuzela


A ideia parecia divertida mas resultou num verdadeiro inferno. Não consigo ver um único jogo de futebol com som ligado. Lá se foram os cantigos de apoio dos ingleses, as músicas do Gana e outros que tais, para além claro de não conseguir ouvir um único dos comentadores a explicar o que se vai passando dentro do campo.

Por isso agora tenho a televisão ligada e vou ouvindo o meu ipod. Será que não há ninguém que ponha um fim a esta paranóia colectiva?

Diocese do Porto

Já aqui tenho escrito sobre D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, e procurado comentar o seu trabalho

http://www.diocese-porto.pt

Não resisto, já que parece ter passado despercebido em muitos media, a dar conta que há dias, mais concretamente no dia 31 de Maio, muitos milhares de pessoas participaram na maior procissão de Velas jamais vista no Porto.

A" Luz na Cidade da Virgem" entre a Igreja de Nossa Senhora da Lapa e a Sé.

A Virgem não está apenas no brasão do Porto, está nos corações dos Portuenses!

O centro do Porto, o Porto no centro

Este fim de semana "vivi" no centro do Porto. Na sexta à noite depois de um animado jantar com amigos o destino foi os bares da Galeria de Paris e Cândido dos Reis. Não estavam a abarrotar, sinal da crise ou talvez não mas sim de uma cidade que se mudou por uns dias para outras paragens. Percebe-se que os bares que ali abriram criaram públicos novos, uma nova centralidade da "movida" portuense e claro está dinamizaram a zona. Mais acima o Piolho, com um público mais jovem, com uma esplanada toda "catita" continua a marcar pontos. Outrora local de encontro diurno, hoje quase deve funcionar 24 horas.

No sábado, depois de uma noite bem dormida e uns guronsans pela manhã, o centro da cidade voltou a ser o meu destino. Feira do livro e mercado Porto Bello. A Avenida dos Aliados apresenta boas condições para receber um evento como este. Tem bons acessos, existem muitos cafés de apoio ao certame e mesmo a leve inclinação da avenida não é um problema. E desta vez não chovia, pois é tradição da feira e minha nem se fala. Muita gente e a comprar, o que noticias deste fim de semana acabaram por comprovar ao anunciarem vendas recorde. Passei pelos bares que umas horas antes tinha visitado agora com esplanadas mais sossegadas, e cheguei a Porto Belo. Aqui descobri caras amigas e peças que me fizeram fazer uma viagem no tempo. Discos em vinil, máquinas fotográficas antigas mas a funcionar e uma faca de mato a recordar-me os tempos de escuteiro.

Esta breve descrição da minha vida, mais não é do que a prova da existência de uma cidade que mexe, de uma cidade que se encontra no seu dia a dia, com esforço é certo, mas que vai fazendo o seu caminho. E apenas precisa que a CMP vá cumprindo o seu papel de zelador e regulador, sem ser interventivo.

Basta recordar que no fim de semana passado a animação da cidade começava em Serralves, passava pela Casa da Música e estendia-se a Miguel Bombarda.

O centro do Porto mexe e o Porto pode ser o centro de mexidas. Basta querer e deixar de viver espartilhado em queixumes.

Que traz o Partido Norte no seu ventre?

Uma resposta, ali

Negritudes (2)


(continuação)
« …………….
O dos « negros » na universidade xa sabemos que existe, e que lexións de bolseiros e axudantes repiten mil e unha veces próbas e medicións, lecturas e mostraxes para maior gloria e loor do funcionario xefe de departamento, para que viaxe a ben lonxe presentar eses datos nun congreso ou para que persista na súa cátedra malia a súa ausencia de tempo para producir traballos científicos. ( Detéñome aquí para non botar sal nas feridas.)

O dos « negros » na literatura ou noutras artes é algo que todos sabemos que existe, pero que ninguén se atreve a dar nomes e apelidos. Algúns porque non os sabemos, e outros - os que os saben- porque afortunadamente aínda é considerado un desprestixio que alguén escriba unha novela para que o famoso poña a firma e consiga así unha ganancia millonaria. Mais non hai que se enganar, se non lle poñemos un remedio ético a sociedade avanzará – avanza xa – cara a esa mentira total. »

In « Cartas Marcadas » de Xavier Queipo (Editorial Galaxia 2010)

As mulheres que eu ouço (5)

sexta-feira, junho 11, 2010

Postal de Tóquio (10)

Na semana passada circulou uma nota verbal do MNE japonês a informar que a partir de 1 de Junho os seus funcionários estariam autorizados a andar em mangas de camisa, sem gravatas e com os colarinhos desapertados e podiam inclusivamente receber membros do corpo diplomático acreditado em Tóquio naqueles preparos.

Tinha lido, no ano passado, que o Japão tinha adoptado esta política como forma de poupar no ar condicionado e simultaneamente proteger o ambiente. Admiro, mas no Japão é apenas natural, o cuidado em avisar o corpo diplomático, não vá alguém sentir-se ofendido.

Num Verão tão horrível como o que dizem ser o do Japão, faz sentido que assim seja. Nunca compreendi bem por que diabo uma pessoa precisa de andar desconfortável para ser melhor profissional. No meu caso só me distrai do meu trabalho... e tenho a sorte de ser mulher, o que no Verão dá imenso jeito.
Portugal bem que podia seguir o exemplo.

Joana

Esconde isso

Artigo 123.o
(do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia)

1. É proibida a concessão de créditos sob a forma de descobertos ou sob qualquer outra forma
pelo Banco Central Europeu ou pelos bancos centrais nacionais dos Estados-Membros, adiante
designados por «bancos centrais nacionais», em benefício de instituições, órgãos ou organismos da União, governos centrais, autoridades regionais, locais, ou outras autoridades públicas, outros
organismos do sector público ou empresas públicas dos Estados-Membros, bem como a compra
directa de títulos de dívida a essas entidades, pelo Banco Central Europeu ou pelos bancos centrais nacionais.

quinta-feira, junho 10, 2010

Dia de Portugal


No 10 de Junho, dia de Portugal, distribuem-se medalhas e comendas.
Acho bem.

Hoje fiquei a conhecer alguns dos agraciados, cujo mérito e obra merecem seguramente ser conhecidos e emulados. A minha ignorância faz-me por vezes partidas marotas e há casos em que me pergunto se o principal mérito não terá sido apenas o de durar.

Noutros casos confesso a minha perplexidade: o Sr. Sala é com certeza uma pessoa estimável, tem excelente voz radiofónica e um bigode de truz, mas duvido que Camões aceitasse ser seu parceiro de bisca. A medalha com que a D. Isabel Pires de Lima vai passar a decorar os seus vestidos de gala há-de lhe realçar a cor dos olhos, mas custa-me a perceber que obra a justifica.

Felizardo foi o Sr. Nunes Correia, ex-ministro do ambiente do "engenheiro". Hoje foi condecorado duas vezes: uma em Faro e outra no Luxemburgo. Com efeito, o Tribunal de Justiça condenou (Processo C-37/09) hoje a República Portuguesa pelo excelente trabalho de ocultação e de contaminação das pedreiras dos Limas e dos Linos na freguesia de Lourosa, durante o seu mandato ministerial invisível. Uma coisa deve justificar a outra, só não sei qual a qual.

Postal de Barcelona (5)

Hoje o Mauricio e a Maribel chegaram à aula sorridentes, como sempre. Ele trazia um ramo de rosas brancas e cor-de-rosa na mão, embrulhado num saco do Consum. Rosas bonitas, gordas, abertas…viçosas.

Sempre gostei desta palavra. Viçoso é marca de confiança. Se é viçoso, é bom. E “viçosas” lembra-me a tia Gena. “Sra. Angelina, vá-me ao jardim e traga-me umas dálias viçosas p’ra esta jarra!”. Esta e outras ordens eram dadas em voz alta e fininha, enquanto se arrumava a casa da Granja para as visitas. A Sra. Angelina não era burra nenhuma e por isso já sabia tudo de cor. Mesmo assim aguardava a ordem – fazia parte do ritual. Tal como o faziam as janelas abertas para trás, as três bonecas “dama-antiga” de vidro cada uma com o seu vestido (verde, azul, cor-de-laranja) e o serviço das bolinhas. Todos os anos, salvo raríssimas excepções, as mesmas visitas bebiam o mesmo chá (Li-Kungo), na mesma chávena vermelha de bolinhas, rodeadas das mesmas bonecas, em cima das mesmas arcas. Só a excitação mudava de ano para ano. E as dálias. Diferentes, mas sempre viçosas.

Deixemos as recordações. O Maurício e a Maribel têm 22 e 21 anos, respectivamente. Conhecem-se desde crianças. Nasceram e cresceram ambos em Cochabamba, na Bolívia, tal como a Tânia. Lá, casaram e tiveram uma filha, agora com 4 anos. Estão cá há pouco mais de um ano. La niña ficou com os avós maternos. O Maurício diz que ela é muito parecida com a mãe. Uma sorte.

Pela primeira vez consigo descrever alguém usando apenas uma palavra: delicadeza.
A Maribel é baixa e larga, mas estou certa de que conseguia andar com dez latas atadas aos pés sem fazer barulho. Tenho a certeza de que não foi Criada num dia só. Foi pensada ao pormenor. Deus ponderou cada detalhe: o preto brilhante do cabelo disciplinado, a altura da testa, os olhos optimistas, a boca desenhada a pincel, os dentes perfeitinhos, à mostra na medida perfeita quando sorri. Se tem que falar, fá-lo baixinho, tranquilamente, sem no entanto perder nem um grama de alegria e até de rebeldia. No fim da Criação, Deus pegou nesta boneca, enfiou-a num molde, prensou-a um pouco e só a soltou no mundo quando achou que ela tinha o nível perfeito de achatamento e “redondez”. A Maribel é, além disso, tão viçosa quanto as rosas do saco do Consum, ou as dálias da Granja em dia de visita. Eu, para variar, faço figura de parva perante mais esta amiga sobrenatural: ela ainda não abriu a boca e eu já estou a sorrir.

O Maurício é um índio na civilização. É moreno alaranjado, tem os dentes brancos como se fossem de leite e um sorriso aberto e reguila. Está sempre a rir e dá-me ideia que viaja através dos equipamentos de futebol. A julgar pelas t’shirts, já foi a Madrid, a Munique, a Londres, a Manchester, ao Brasil, a Itália…e claro, a Barcelona – com o Messi. Estou a pensar seriamente mostrar-lhe o Porto no último dia: pelos olhos do Deco, para relembrar tempos de glória.

No fim da aula, o Mauricio pegou nas rosas e enquanto nos encaminhávamos para o Metro alguém lhe perguntou se eram para a Maribel. Ele disse que “si, pero no fui yo quien las dio“. A Maribel corou e sorriu, envergonhada. “Fueron mis jefes. Porque soy una buena cangura.” Risos. “Mauricio, andas a dormir…“. Mais risos. Diz a Sílvia, uma hondurenha simpática mas um pouco grosseira (ao lado da Maribel não é difícil): “Entonces se són de ella las rosas, porqué las llevas tu?” Resposta: “Si mi esposa es tan buena que merece esas rosas, así que supongo que será mejor que las lleve yo para intentar de ponerme a altura.“

O Maurício e a Maribel saem logo na primeira paragem. Penso sempre que gostava que eles morassem mais perto de mim, para poder conversar com eles mais tempo. Só quando saem do metro voltam a ser marido e mulher. Até lá são bons companheiros. Quando chegam à paragem, o Maurício carrega no botão, a Maribel põe-se atrás dele. Ele sai a correr, dá-me ideia de que vai sempre cheio de fome. A Maribel pára sempre. Olha para trás, sorri e acena aos que ficam. Depois dão-se as mãos e desaparecem quando o comboio entra no túnel.

Ana

O momento certo

Para quem isso interessar

quarta-feira, junho 09, 2010

2328 cheques carecas por dia

Este um grande título de primeira página no JN de hoje, citando relatório do BdP referente a 2009. O valor médio de cada um destes cheques foi da ordem dos 1220 euros. Mais noticiava que a lista negra tinha crescido 3,8% face a 2008, apesar de em 2009 se terem movimentado menos 108 mil cheques.

O curioso é que isto vinha apresentado como notícia económica, supostamente ilustrativa da crise ... também económica pois claro.

Embora notícias destas já não sejam mais apresentadas como casos de polícia, para mim elas continuam a ser ilustrativas de uma outra crise social bem mais grave e, ao que a notícia indica, cada vez mais profunda.

Face aos valores envolvidos, se ligação à crise económica houver será apenas como causa, nunca por efeito.

Lições de inglês


O homem de que se fala é Edward Hugh.
Quem é este senhor?
Um professor de inglês em part-time, que vive há anos na zona de Barcelona e que há anos escreve no seu blogue textos sobre questões económicas, nomeadamente sobre as idiossincrasias da União Monetária Europeia.

Segundo Hugh, o remédio ideal para a actual crise da zona euro seria a saída da Alemanha. Isso provocaria uma forte desvalorização do euro, que impulsionaria a competitividade e as exportações dos países "euro", ou seja, a respectiva recuperação económica.

Não sendo isso viável por razões de ordem política e não sendo possível aos países periféricos do euro desvalorizarem unilateralmente a moeda, restaria a estes aquilo a que chama a "desvalorização fiscal", ou seja, uma desvalorização interna da moeda através de um corte de 20% nos salários, pensões, subsídios e em todos os rendimentos públicos e privados.

Será Edward Hugh um excêntrico, um lunático?
A verdade é que muito boa gente começa a dar-lhe ouvidos e a convidá-lo para conferências, consultas e estudos. O homem tem recusado todas as tentativas de recrutamento de grandes financeiras, hedge-funds e institutos e vai vivendo tranquilo numa aldeia catalã, lendo, estudando, navegando na net e misturando Bob Dilan aos seus posts, que hoje são lidos por especialistas e universitários de Nova York a Pequim.

Um 'Roubini', mas pobre e de pantufas.
Edward, vem ensinar-nos algum inglês, please.

DESEDUCAÇÃO

Não sei que farol de sabedoria ilumina o Ministério da Educação. Poucas pessoas terão dúvidas de que um dos nossos maiores problemas estruturais é a educação e de que, por seu turno, uma enorme deficiência da educação em Portugal é a ausência quase total de critérios de exigência, não se promovendo, em consequência, o esforço e o mérito. Tal facto, muitos o referem, é um factor insuportável de agravamento das desigualdades sociais. Como entender então esta nova medida que visa facilitar em certos casos a passagem directa do 8º ano para o 10º?

terça-feira, junho 08, 2010

Obrigado Santiago

Sexta-feira, 4 de Junho, o dia nasce solarengo e ameno, lá em baixo o Rio Minho brilha e dá-nos os bons dias. Está prestes a começar a peregrinação de bicicleta pelos caminhos de Santiago de Compostela.

Com o penico na cabeça e a pensar que já tínhamos idade para ter juízo, lá arrancámos.
Os primeiros quilómetros feitos na nossa amada Pátria, vêm confirmar que os nossos compatriotas que mandam nisto escolhem sempre os meses de Verão para espatifar as estradas.
Vamos andando…

Entramos em España, e nos vamos directamente a Tuy, na Catedral requisitamos o nosso passaporte de peregrino para irmos carimbando em vários pontos do caminho, Igrejas, Albergues, Turismo etc… É assim que deve ser numa peregrinação normal, mas quem carimbou os nossos foram na sua maioria os empregados das taperias.
Nessa primeira paragem em Tuy, de somente uma hora e que ia pondo em risco a nossa etapa, bebemos as nossas primeiras canas e um presunto magnifico.
Obrigado Santiago.

Depois de 80 quilómetros terríveis até Pontevedra, cidade estupenda, o cansaço era tal que não há mais história para contar, caímos na cama e agradecemos a Santiago, à Virgem, a Santo António e a Pinto da Costa estarmos vivos.

No dia seguinte esperavam-nos 40 quilómetros mais suaves e tranquilos. E assim foi até chegarmos a Caldas de Rei.
Quando íamos a passar na ponte depois do balneário, alguém olha para baixo junto ao rio e vê uma esplanada com um aspecto estupendo.
Nem foi preciso dizer nada ás nossas máquinas que elas já sabem os donos que têm, passados dez minutos já estávamos com umas garrafitas de Alvariño bem fresco na mesa.

Depois… bem…é melhor nem contar nada.

Recomeçamos passadas 3 horas.
Obrigado Santiago.

Chegados a Padrón, comemos uns pimentos da terra muitíssimo bons, mas o melhor foi o presunto, que não tenho pejo nenhum em afirmar que foi o melhor que comi em toda a minha vida. Claro que uns copitos de branco ajudaram à festa.

Depois de um jantar bastante bom (muito bem se come na Galiza), estávamos preparados para descansar para a derradeira etapa.

Tivemos que acordar cedo par ver se conseguíamos chegar à missa do peregrino ao meio-dia na Catedral de Santiago.
Com um começo algo atabalhoado, cedo voltámos ao ritmo alucinante que deixou toda a Galiza pasmada com estes tugas de cabelo branco.
Absolutamente cinematográfico é tudo o que posso dizer sobre esta parte do percurso. Igrejas, Capelinhas, Cruzeiros, natureza esplendorosa e uma calma que vem ajudar à serenidade que vai tomando conta de nós.
Obrigado Santiago.

A última parte é feita em esforço, muitas subidas e o cansaço a começar a tomar conta de nós. Mas o prémio vale a pena.

Por fim Santiago de Compostela.

Da emoção da chegada não há palavras para descrever. Cada um vive este momento para si, é um momento único.

Rezei a última Ave-Maria e Pai-Nosso e agradeci estes maravilhosos 45 anos que completei na chegada à Catedral.

Esquecemos muitas vezes que as coisas simples da vida são as melhores:
Umas bicicletas e uns amigos maravilhosos.

Obrigado Santiago.

Aluga-se com garagem

"Águias" rasteiras

"Por tudo o que foi feito e por tudo o que deixei esboçado e proposto, saio de consciência completamente tranquila"- disse ontem Vítor Constâncio a propósito da tomada de posse do novo Governador do Banco de Portugal.

Já lhe conhecíamos a pesporrência e a prosápia auto-suficiente. Faltava-lhe a deselegância de deixar a suspeita de que o que o novo Governador fizer de positivo só pode ser resultado dos esboços e propostas deste génio exportado.
Está feito.

Rugidos de leão

A Junta Metropolitana de Lisboa quer que se construa rapidamente a terceira ponte sobre o Tejo, quer o novo aeroporto e o TGV Lisboa-Madrid. Diz que são estruturantes.

Eu nada tenho a opor, na condição de serem os munícipes dos 18 concelhos que aprovaram por unanimidade uma tão límpida resolução a suportarem essas maravilhas já. Ou será que pensam que os euros do Orçamento do Estado são só deles?

Vá para fora cá dentro?

Esta manhã, ao aceder à caixinha do correio electrónico, lá entrou mais um que chamou a minha atenção. Abri-lhe pois o anexo, em power point, que se intitulava “Conserve o seu Emprego”.
Começava por apresentar uma grande bandeira nacional com a legenda, em letras também bem grandes: “Quer perder o seu emprego?”
De seguida, sem qualquer demonstração ou referência a fonte, concluía que por cada 100 euros de compras de produtos “Made in Portugal” se estava a preservar um posto de trabalho e que, cada 100 euros de compras de produtos estrangeiros, concorrentes dos “Made in Portugal”, resultavam no despedimento de um trabalhador, ou na não criação de um novo posto de trabalho.
A autoria era, convenientemente, anónima.
Posso bem perceber este emotivo, mas talvez não desinteressado, apelo.
Como posso bem entender o das férias cá dentro do nosso PR.
Mas, peço desculpa de o dizer, na minha opinião a vida não funciona assim.
São os preços e a qualidade que determinam as minhas opções como consumidor.
Pagar mais caro e/ou ser pior servido só porque é produto/serviço nacional, sabe-me um pouco a masoquismo.
Ademais, este tipo de apelos não se me afiguram nada incentivadores da tão necessária eficiência e qualidade nacionais. Este parece-me mesmo ser o único caminho a seguir. É que o mercado é algo que existe mesmo. E não funciona por emoções.
Poderá não ser politicamente correcto dizer isto. Poderão todos até discordar. Mas, pelo menos a minha carteira sei que concorda comigo. O que já me é conforto bastante.

segunda-feira, junho 07, 2010

O esférico ao centro


Vem aí o mundo da bola.
Vamos ficar a saber tudo, o pequeno-almoço do Liedson, os enjoos do Tiago e as revistas que o Deco lê. É o campeonato do mundo. Campeonato de futebol, mas não só.

Um dos campeonatos paralelos mais importantes mas menos badalados será o campeonato dos equipamentos. Serão centenas de milhões de euros só em camisolas a vender durante o evento e por isso há muito dinheiro a entrar nos cofres das federações de futebol vindo da parte das respectivas empresas.

A FPF recebe um cheque da americana Nike de cerca de 5,5 milhões de euros anuais desde 1997, juntamente com os equipamentos de borla para a rapaziada. Esta mesma Nike paga à federação brasileira de futebol 22 milhões anuais desde 1996, bem como outro cheque de 7,5 milhões à Holanda e um de 4,7 à Coreia do Sul. Mas a sua mais recente aposta foi comprar a Umbro britânica que é quem equipa a selecção inglesa com um cheque de 34 milhões.

A alemã Adidas começa a perder terreno (Alemanha, Japão, França, Espanha, México, Argentina, África do Sul, etc, ou seja, 12 das 32 equipes), embora continue dominante à custa de um total superior a 80 milhões por ano para as correspondentes federações. Mas talvez não por muito mais tempo, pois consta que a Nike já desembolsou uns 40M/ano para ficar com a França em 2014 no mundial do Brasil.

A Puma, a Joma (espanhola), a Brooks e a Legea vão fazendo o que podem, comprando os que aceitam e pagando os que recebem. Os norte-coreanos serão vestidos e calçados pela Legea e devem estar felizes pois vão poder regressar a casa com sapatilhas novas, peúgas, cuecas, calções, camisolas e casacos, que no mercado negro valerão o luxo de uns bifes de carne de vaca. O cheque de 4 milhões que a Legea pagou por isso terá o destino que o Kim-Il-Sung, na sua infinita sabedoria, decidir.

Entretanto, nós pagamos.
Oh Sr. Árbitro, pode apitar.

domingo, junho 06, 2010

Time Out

Numa época em que é mais fácil criticar e destruir do que elogiar e construir, gostaria de elogiar a revista Time Out e em especial a sua edição Porto. Em apenas dois números fiquei fã e percebi que não conheço a minha cidade. Desde hóteis novos (ok estes não costumo frequentar) a esplanadas ou exposições que dão vida e cor ao meu porto, tudo tem vindo nas suas páginas. É fácil gostar da revista e por isso espero que tenha vida longa.

Gaste e compre o que é nosso

Cavaco pediu que os portugueses passassem férias em Portugal. Depois alertou que nos deviamos preocupar com os gastos que obrigam a importações.

Essa é a grande luta que deveriamos ter tido há muitos anos. Ainda iremos a tempo? Será possível voltar a dinamizar o sector têxtil e impedir que a china nos invada?
Será possível voltar a dinamizar o sector do calçado e impedir importações dos paises asiáticos?
E a lista poderia continuar.

Só que aqui existem dois patamares de actuação: uma a nível europeu num boicote à china e depois uma acção estruturada do governo português, das associações e das empresas dos sectores em questão.

Quanto ao ministro da economia, de quem já esqueci o nome, o melhor era mesmo continuar calado. Bem sei que estava em Xangai a fazer papel de pedinte, mas escusava de falar e depois ouvir o "Professor" dizer que sabe e muito bem do que fala. Pimba.

Não há almoços grátis

O PS tem uma dívida pornográfica. Mas Lello preferiu ir almoçar em vez de explicar aos jornalistas como tal tinha sido possível. E lá deve ter engordado a dívida dos amigos do Lello e do Sócrates. E claro que no final das contas seremos nós a pagar. Alcatrão e penas vai ser um bom investimento a curto prazo.

Um conduto apropriado

Na RTP o jornalista Heldér Conduto fala sobre as refeições dos "navegadores". Uma boa escolha sem dúvida.

Negritudes


« Tres décadas depois do golpe do xeneral Robles Godoy, por poñer un exemplo máis próximo, un funcionario galego escribía as respostas que unha comisaria europea debía dar a unha entrevista enviada por fax por unha revista española (na edicíon incluíanse fotos da comisaria, como que estava falando) e unha funcionaria bretoa redactaba o artigo de opinión que a mesma comisaria presentaba baixo a sua firma a un importante xornal madrileño.

Ninguén diría que a benquerida comisaria (tan idolatrada en toda a opinión pública) tiña « negros » ao seu servizo, pois aí se considera que é como deben actuar os funcionarios cos seus superiores, escribíndolles os discursos, os artigos, as entrevistas pactadas, respondendo a preguntas parlamentarias e fornecéndoos de argumentos fronte a eventuais preguntas nunha rolda de prensa ou un comité parlamentario.

Ou é que aínda hai quen pense que os directores xerais, os conselleiros e o celebradísimo Rei das Españas escriben todo ou parte do que asinan ? O dos « negros » na Administración pública é cousa de todos os días e socialmente asumida como norma. »

(continua)

In « Cartas Marcadas » de Xavier Queipo (Editorial Galaxia, 2010)

As mulheres que eu ouço (4)

sábado, junho 05, 2010

Porque hoje é Sábado

Óleo de Goya "Os pequenos gigantes" - 1791

O Norte, existe?

De Lisboa vai-se ao Norte. O que se faz pela auto estrada do Norte.
Do Porto, vai-se a Lisboa, mas seguindo pela A1.
De Lisboa também se vai ao Sul.
Do Porto, vai-se ao Alentejo ou ao Algarve, mas não ao Sul
De Lisboa vai-se ainda ao Oeste (buscar as alfaces que a caracterizam).
Do Porto vai-se ao Minho ou a Trás-os-Montes, mas não ao Norte.

De Lisboa o Norte parece longe.
Para uns, ir ao Norte é uma viagem.
Para outros, uma aventura que se conta aos amigos.
Do Porto, ir a Lisboa é uma normal deslocação a um serviço público.
Ou a uma qualquer reunião com a administração de uma empresa com sede no Norte.
Tudo, naturalmente, para tratar assuntos do Norte.

Ah! Vem do Norte? Ouve-se em Lisboa...
Só quando fui estudar para Lisboa percebi que era do Norte.
Será que o Norte existe apenas porque assim o chamam em Lisboa?
Ou existe mesmo e só andará algo desnorteado?
Isto já considerando o desnorte que hoje nortea todo o país.
De todo o modo, biba a penca, bibam as tripas e benha o simbalino...

sexta-feira, junho 04, 2010

VILLAS BOAS

Pois aí está o novo treinador do Porto. Ar novo!

Nova geração, experiência nacional e internacional, vontade de voltar a vencer, aposta a Norte de quem é do Norte.

Faz-me lembrar algo que está a acontecer...


Uma coisa é certa, jovens qualificados ausentam-se em trabalho, reforçam competências e têm oportunidade de colocá-las em prática na sua terra. Acreditam !

Bom mote do FCP e de Pinto da Costa.

Sorte a Villas Boas e ao FCP!

quinta-feira, junho 03, 2010

O rio cresce (3)

Mais afluentes : Veja ali
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt

Postal de Barcelona (4)

Anteontem caí de bicicleta. Ia ter com o Tiago para mandar fazer os óculos novos. Um dia lindo, iPod de serviço, e lá ia eu a rasgar o ar… Em milésimos de segundo, uma sucessão de acontecimentos fez com que eu passasse de Rainha do Mundo a Rainha do Esfolado (e só com muita sorte não me tornei a Rainha Sem Dentes).

Quando cheguei ao pé da estação das camionetas, onde a rua passa a ser exclusiva às bicicletas e aos peões, passou por mim, também de bicicleta, um jovem parecido com os indígenas que me acordam aos Domingos com a música do Titanic em versão flauta-de-pã. Ouvi um estalido e um pequeno estrondo e olhei para a direita. A bicicleta tinha-se desmontado toda e ele tinha caído ao chão, com uma cara muito aflita, o cabelo comprido todo desalinhado.

Por solidariedade ciclista voltei para trás, para saber se precisava de alguma coisa. Quando comecei a dar meia-volta, reparei numa pomba (aqui são especialmente repugnantes) que debicava umas migalhas do chão enquanto perigosamente dela se aproximava uma gaivota gigante, que acabou por lhe morder a asa. Rebolaram mesmo para a frente da minha bicicleta, o que me obrigou a uma travagem brusca e fez com que me desequilibrasse.

Não me esborrachei propriamente no chão, porque a Divina Providência tinha colocado um poste mesmo ali à disposição. Mas ainda esfolei a perna no pedal, torci o pé que pousou no chão e o pulso que se agarrou ao poste ficou a doer até agora. O meu colega de queda, esse, estava tão irritado com as peças da bicicleta espalhadas por todo o lado que nem reparou no meu próprio drama…e eu fiquei ali, agarrada ao poste, a bicicleta aos pés, com os meus esfolados e a minha vergonha.

Em Barcelona, cair de bicicleta está ao nível daquelas mulheres que desfazem todos os carros à volta para poder estacionar o delas no espaço onde cabe um camião – a bicicleta aqui não é uma actividade de lazer, é um meio de transporte, uma necessidade, exactamente como um carro ou uma mota. Oh, infâncias infelizes, as de quem não andou de bicicleta sem o peso da responsabilidade!…

Eu como aprendi a andar de bicicleta ao mesmo ritmo em que aprendi a cair, mas também tenho vergonha na cara e não gosto de dar aos catalães motivos para se rirem de mim, pousei a bicicleta na primeira estação de bicing que encontrei e fiz o resto do caminho a pé. A mancar, mais precisamente. E furiosa com a borboleta japonesa que bateu as asas em Quioto e, de alguma forma que só a física quântica poderá explicar, provocou a minha queda.

Ana