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terça-feira, junho 29, 2010

Postal de Barcelona (Carta aberta aos grandes chefes


Caro Zé,

Caro Aníbal,

o meu nome é Ana e nasci em Lisboa, mas vivi no Porto quase toda a minha vida. Foi lá que cresci, junto ao rio e ao mar; foi lá que estudei e aprendi tudo o que sei; foi a Norte que passei todas as minhas férias e foi também lá que me ensinaram os valores que hoje me regem.

Foi a Norte que me ensinaram que não se cruza os braços perante a adversidade; foi a Norte que me mostraram que, quando o ser-humano deixa que as mordaças da hipocrisia lhe calem a voz, perde terreno importante para as trevas da exploração; foi a Norte que percebi que a Honra tem muito mais a ver com a forma e a força com que arregaçamos os braços para trabalhar e ajudar o próximo, do que com a gravata que escolhemos para receber um cargo com o qual, afinal de contas, não sabemos bem o que fazer; foi lá em cima que sempre ouvi que não podemos deixar de lutar contra aqueles que nos pisam, que nos oprimem, que nos limitam, que nos reduzem a pouco quando somos muito. Tudo isto aprendi pela boca de pessoas várias, unidas em torno de valores comuns e de uma herança de combatividade (não apenas pela região, mas principalmente pelo próprio país); pessoas de diferentes cores políticas, profissões, estratos e condições sociais; pessoas que às vezes nem sabiam a importância do que me estavam a transmitir; pessoas que falam com o coração na boca e que, se tivessem o país nas mãos, fariam de nós algo ainda maior do que o que agora somos. Só porque sim – só porque os seus antepassados o fizeram sempre.

Tal como disse no início desta carta, foi no Norte que estudei. Mas não foi no Norte que arranjei emprego. Não é no Norte que estou a conseguir desenvolver-me e criar riqueza para o meu país. Não é a terra onde nasci que Norteia as minhas escolhas, nem é lá (ainda) que posso contribuir com as minhas capacidades, explorar o meu potencial ou rentabilizar a minha energia.

É que a Norte não há emprego. A Norte há poucas possibilidades de receber um bom salário. A Norte somos constantemente alvo dos caprichos da capital e acabamos sempre a pagar as favas dos amuos da vossa gente quando sente os bolsos mais leves. A Norte somos pior servidos de transportes e na prática acabamos por pagá-los mais caros. A Norte temos que fazer duplo-esforço para lutar contra o isolamento cultural e artístico e estóicamente ultrapassar violentos ataques e barreiras ao renascimento e desenvolvimento das indústrias que, um dia, alimentaram o país – isto é hoje tão evidente, que só não o vê quem, como os senhores, pura e simplesmente não quer.

Eu não me estou a queixar. Eu tenho dois braços, duas pernas, uma voz potente e três ou quatro capacidades que, certamente, me proverão o sustento mais tarde ou mais cedo. A Norte, pois claro. (Se tiver que ser a Sul, pois que seja, de fome não morrerei – mas o meu coração continuará no Norte e jamais me venderei como tantos dos vossos colegas de mexerico político). Basta os senhores olharem à história e terão diversas provas de que aqui em cima sempre estivemos bem acordados. Repito, não me estou a queixar, porque sei que mais dia, menos dia, esta situação terá um fim. O Norte será Norte e continuará a ser Portugal, mas um Portugal que não baixa a cabeça ao poder central e nem se governa pelo desgoverno que vem da Capital. Só mais uma vez, para que fique bem claro: eu não me estou a queixar – estou apenas a avisar. Junto a minha voz às de tantos outros que têm vindo a fazer avisos semelhantes, por motivos que, entre outros, se prendem com a subsistência e dignidade de uma Juventude que se recusa a apodrecer calada.

Estarão agora os senhores a pensar: “Bolas, a miúda está revoltada!”. Estou sim, meus senhores. Estou eu e os meus irmãos; o meu namorado; os meus vizinhos; os meus amigos; os amigos do meu namorado e os amigos dos meus amigos; os meus colegas de curso; os meus colegas de trabalho (temporário, claro); os meus companheiros de autocarro e de metro; os meus tios, primos e avós; todos os amigos e colegas deles; os meus pais e os seus amigos…somos muitos. E seremos cada vez mais.

Só para acabar, uma última ressalva: os senhores lembrem-se de que não estão a brincar com tostões. Estão a brincar com a vida de pessoas unidas pelo orgulho de, historicamente, sempre terem aceite de peito aberto a luta pela dignidade. Repito: de peito aberto; coração na boca; e o Mundo nas mãos.

Não roubo mais do vosso precioso tempo. Fá-lo-ei, certamente, com o próximo boletim de voto que me chegue às mãos.

Aquele abraço de fair-play,

Anita*

segunda-feira, junho 21, 2010

Postal de Barcelona (6)


A grande maioria dos prédios de Barcelona, sobretudo nas zonas mais centrais (e mais antigas), têm saguão. Alguns prédios, mais recentes, maiores, em zonas mais nobres têm um saguão interior, amplo, luminoso, que desemboca no próprio hall do prédio. Esses prédios, ao contrário do meu, normalmente têm elevador e porteira.

O prédio onde moro, além de não ter elevador, tem não um, mas dois saguões, um deles fechado para o exterior com uma espécie de telhado de plástico. Imagino que o objectivo desta “tampa” seja preparar os pobres habitantes (pobres) deste edifício para a devastação do aquecimento global, porque subir os 5 andares do prédio a pé sob um calor concentrado quase transformado em vapor é uma experiência verdadeiramente apocalíptica. O outro saguão, mais estreito (muito estreito, como podem ver pela imagem), não está fechado para o exterior, e por isso agradeço ao espírito caridoso que iluminou a mente da minha senhoria…é que é nesse que se cruzam as janelas das cozinhas e das casas de banho de todos os vizinhos.

Este pormenor arquitectónico já foi, e continua a ser, responsável por momentos hilariantes que marcarão para sempre a minha estadia nesta cidade e a convivência entre os companys deste piso. O Anselmo, cujo quarto tem janela para o grande saguão, tem que conciliar as suas horas de sono com as do vizinho, sob pena de não conseguir adormecer devido ao seu generoso ronco. O Gonçalo, que estuda em horas coincidentes com o horário espanhol das refeições, tem que usar duas ventoinhas para poder manter a janela do quarto fechada – a vizinha da frente gosta de fritos e empesta-lhe o ar com o cheiro (consta que já foram até encontrados salpicos de óleo nos seus cadernos…).

A seguir ao jantar, torna-se imperativo fechar a janela da casa de banho, pois o já cronometrado biorritmo do vizinho do lado é uma arma química que ataca qualquer digestão mais sensível. No outro dia o Tiago evitou por pouco um incêndio na casa ao lado – a vizinha estava a queimar as torradas e nós achámos por bem ir bater à porta dela a avisar. E eu, que inocentemente apanhava a roupa no terraço, ao virar a cabeça num ângulo de 45º, tive o (des)prazer de quase presenciar o momento em que o filho da vizinha compenetradamente mandava o seu fax matinal.
(continua ali)
Ana

quinta-feira, junho 10, 2010

Postal de Barcelona (5)

Hoje o Mauricio e a Maribel chegaram à aula sorridentes, como sempre. Ele trazia um ramo de rosas brancas e cor-de-rosa na mão, embrulhado num saco do Consum. Rosas bonitas, gordas, abertas…viçosas.

Sempre gostei desta palavra. Viçoso é marca de confiança. Se é viçoso, é bom. E “viçosas” lembra-me a tia Gena. “Sra. Angelina, vá-me ao jardim e traga-me umas dálias viçosas p’ra esta jarra!”. Esta e outras ordens eram dadas em voz alta e fininha, enquanto se arrumava a casa da Granja para as visitas. A Sra. Angelina não era burra nenhuma e por isso já sabia tudo de cor. Mesmo assim aguardava a ordem – fazia parte do ritual. Tal como o faziam as janelas abertas para trás, as três bonecas “dama-antiga” de vidro cada uma com o seu vestido (verde, azul, cor-de-laranja) e o serviço das bolinhas. Todos os anos, salvo raríssimas excepções, as mesmas visitas bebiam o mesmo chá (Li-Kungo), na mesma chávena vermelha de bolinhas, rodeadas das mesmas bonecas, em cima das mesmas arcas. Só a excitação mudava de ano para ano. E as dálias. Diferentes, mas sempre viçosas.

Deixemos as recordações. O Maurício e a Maribel têm 22 e 21 anos, respectivamente. Conhecem-se desde crianças. Nasceram e cresceram ambos em Cochabamba, na Bolívia, tal como a Tânia. Lá, casaram e tiveram uma filha, agora com 4 anos. Estão cá há pouco mais de um ano. La niña ficou com os avós maternos. O Maurício diz que ela é muito parecida com a mãe. Uma sorte.

Pela primeira vez consigo descrever alguém usando apenas uma palavra: delicadeza.
A Maribel é baixa e larga, mas estou certa de que conseguia andar com dez latas atadas aos pés sem fazer barulho. Tenho a certeza de que não foi Criada num dia só. Foi pensada ao pormenor. Deus ponderou cada detalhe: o preto brilhante do cabelo disciplinado, a altura da testa, os olhos optimistas, a boca desenhada a pincel, os dentes perfeitinhos, à mostra na medida perfeita quando sorri. Se tem que falar, fá-lo baixinho, tranquilamente, sem no entanto perder nem um grama de alegria e até de rebeldia. No fim da Criação, Deus pegou nesta boneca, enfiou-a num molde, prensou-a um pouco e só a soltou no mundo quando achou que ela tinha o nível perfeito de achatamento e “redondez”. A Maribel é, além disso, tão viçosa quanto as rosas do saco do Consum, ou as dálias da Granja em dia de visita. Eu, para variar, faço figura de parva perante mais esta amiga sobrenatural: ela ainda não abriu a boca e eu já estou a sorrir.

O Maurício é um índio na civilização. É moreno alaranjado, tem os dentes brancos como se fossem de leite e um sorriso aberto e reguila. Está sempre a rir e dá-me ideia que viaja através dos equipamentos de futebol. A julgar pelas t’shirts, já foi a Madrid, a Munique, a Londres, a Manchester, ao Brasil, a Itália…e claro, a Barcelona – com o Messi. Estou a pensar seriamente mostrar-lhe o Porto no último dia: pelos olhos do Deco, para relembrar tempos de glória.

No fim da aula, o Mauricio pegou nas rosas e enquanto nos encaminhávamos para o Metro alguém lhe perguntou se eram para a Maribel. Ele disse que “si, pero no fui yo quien las dio“. A Maribel corou e sorriu, envergonhada. “Fueron mis jefes. Porque soy una buena cangura.” Risos. “Mauricio, andas a dormir…“. Mais risos. Diz a Sílvia, uma hondurenha simpática mas um pouco grosseira (ao lado da Maribel não é difícil): “Entonces se són de ella las rosas, porqué las llevas tu?” Resposta: “Si mi esposa es tan buena que merece esas rosas, así que supongo que será mejor que las lleve yo para intentar de ponerme a altura.“

O Maurício e a Maribel saem logo na primeira paragem. Penso sempre que gostava que eles morassem mais perto de mim, para poder conversar com eles mais tempo. Só quando saem do metro voltam a ser marido e mulher. Até lá são bons companheiros. Quando chegam à paragem, o Maurício carrega no botão, a Maribel põe-se atrás dele. Ele sai a correr, dá-me ideia de que vai sempre cheio de fome. A Maribel pára sempre. Olha para trás, sorri e acena aos que ficam. Depois dão-se as mãos e desaparecem quando o comboio entra no túnel.

Ana

quinta-feira, junho 03, 2010

Postal de Barcelona (4)

Anteontem caí de bicicleta. Ia ter com o Tiago para mandar fazer os óculos novos. Um dia lindo, iPod de serviço, e lá ia eu a rasgar o ar… Em milésimos de segundo, uma sucessão de acontecimentos fez com que eu passasse de Rainha do Mundo a Rainha do Esfolado (e só com muita sorte não me tornei a Rainha Sem Dentes).

Quando cheguei ao pé da estação das camionetas, onde a rua passa a ser exclusiva às bicicletas e aos peões, passou por mim, também de bicicleta, um jovem parecido com os indígenas que me acordam aos Domingos com a música do Titanic em versão flauta-de-pã. Ouvi um estalido e um pequeno estrondo e olhei para a direita. A bicicleta tinha-se desmontado toda e ele tinha caído ao chão, com uma cara muito aflita, o cabelo comprido todo desalinhado.

Por solidariedade ciclista voltei para trás, para saber se precisava de alguma coisa. Quando comecei a dar meia-volta, reparei numa pomba (aqui são especialmente repugnantes) que debicava umas migalhas do chão enquanto perigosamente dela se aproximava uma gaivota gigante, que acabou por lhe morder a asa. Rebolaram mesmo para a frente da minha bicicleta, o que me obrigou a uma travagem brusca e fez com que me desequilibrasse.

Não me esborrachei propriamente no chão, porque a Divina Providência tinha colocado um poste mesmo ali à disposição. Mas ainda esfolei a perna no pedal, torci o pé que pousou no chão e o pulso que se agarrou ao poste ficou a doer até agora. O meu colega de queda, esse, estava tão irritado com as peças da bicicleta espalhadas por todo o lado que nem reparou no meu próprio drama…e eu fiquei ali, agarrada ao poste, a bicicleta aos pés, com os meus esfolados e a minha vergonha.

Em Barcelona, cair de bicicleta está ao nível daquelas mulheres que desfazem todos os carros à volta para poder estacionar o delas no espaço onde cabe um camião – a bicicleta aqui não é uma actividade de lazer, é um meio de transporte, uma necessidade, exactamente como um carro ou uma mota. Oh, infâncias infelizes, as de quem não andou de bicicleta sem o peso da responsabilidade!…

Eu como aprendi a andar de bicicleta ao mesmo ritmo em que aprendi a cair, mas também tenho vergonha na cara e não gosto de dar aos catalães motivos para se rirem de mim, pousei a bicicleta na primeira estação de bicing que encontrei e fiz o resto do caminho a pé. A mancar, mais precisamente. E furiosa com a borboleta japonesa que bateu as asas em Quioto e, de alguma forma que só a física quântica poderá explicar, provocou a minha queda.

Ana

quarta-feira, maio 26, 2010

Postal de Barcelona (3)


Ontem passei, mais uma vez, pela Casa Batlló.

Ia a caminho de uma entrevista de emprego e jurei a mim mesma que desta vez ia vestir inteiramente a pele do “inimigo” e não ia olhar para lá. Ia-me ser completamente indiferente, ia ser um passeio qualquer, numa rua qualquer de uma qualquer cidade. Ia passar pelo passeio, inundado de turistas, e dar encontrões a quem se pusesse à minha frente para tirar fotografias. Ia olhar com ar de piedade para os que esperassem na fila, especialmente para os últimos. Aos que estivessem sentados no banco, horas a fio, a perceber cada curva, cada pedrinha, ia deitar um olhar de “aposto que estás aí há horas, haja paciência, junta dinheiro e compra a porcaria do bilhete duma vez!”. Ia ser uma verdadeira barcelónica e desprezar todos os turistas que invadem a minha cidade.

Claro que não consegui.

Primeiro, porque aquela é, talvez, a esquina da minha predilecção nesta cidade.

Segundo, porque tenho plena convicção de que os turistas da Batlló são completamente diferentes dos turistas que invadem a minha praça e a (minha) Sagrada Família.

Terceiro, porque já estive, em diferentes ocasiões, no lugar de todos eles. Já fui dos que passam e levam encontrões dos locais quando tiram uma fotografia só p’ra poder acalmar a consciência e dizer que lá estiveram; dos que se sentam horas a fio no banco da frente de luvas a beber um chá ou de chinelos e água fresca na mão, só a olhar para cima até que lhes bata à porta o torcicolo; e dos que finalmente, sôfregos de desejo, fazem fila à porta com 12 € contados na mão para poder ver aquilo por dentro.

Ana

sexta-feira, maio 21, 2010

Postal de Barcelona (2)

A Yanira tem trinta e tal anos, mas aparenta bem mais de quarenta.

Quarenta falsos anos que carrega como um fardo tão pesado quanto a distância que a separa dos três filhos há mais de seis anos. A mais nova tem 7 anos, deixou-a em El Salvador ainda bébé. Morreram os pais e o marido e ela pôs-se ao caminho para poder cumprir um velho sonho: ter os filhos na Universidade.

Os olhos rasgados, escuros e tristes, transformaram-se quando disse, em Catalão e perante toda a turma, em voz baixa e por entre sorrisos de insegurança: o meu filho mais velho formou-se de Ingeniero o mês passado; a minha segunda filha estuda para ser Enfermera.

De manhã, a Yanira (que na verdade, segundo me explicou, devia chamar-se Janira, mas a tia enganou-se quando a foi registar e fez um Jota que parecia um Ypsilon, então ficou) toma conta de uma senhora velhinha que adora. “Es muy cariñosa…tengo que levarla bajo el brazo para pasear porque és muy fragil”. Às tardes, trabalha à hora em casas que precisem dos seus serviços. Agora tem duas tardes livres – essa patroa mandou-a embora, recusou-se a dar-lhe a última hora do dia para o curso de Catalão – “a tarde toda ou nada”.

Ela precisa deste curso “para los papeles”. Perdeu duas tardes de trabalho. A minha nova amiga leva o curso muito a sério, guarda religiosamente todo o material e usa cada bocadinho livre do caderno – já lhe disse que não é preciso tanto, que assim não se percebe nada, mas ela diz que tem medo de chumbar e de precisar de mais caderno para repetir.

Ontem tivemos que fazer uma composição. A Yanira escreveu a dela de forma tão empenhada que partiu o bico do lápis três vezes. No fim, pediu-me para a corrigir, antes de entregar à professora.
Estava tudo certo, menos uma palavra, no feminino, que eu não percebi se acabava em “a” ou em “o”. A resposta dela foi sublime: “Ana, eu só tenho a 2a classe. Às vezes não sei bem como escrever uma palavra, se é com “a” ou se é com “o”. Então faço uma coisa assim-assim…dá p’rós dois lados.”
(continua ali)

Ana

terça-feira, maio 04, 2010

Postal de Barcelona

Indios de Barcelona.
Assim se chama uma de entre várias grandes músicas de Manu Chao. É um dos meus cantores favoritos e uma das (muitas) razões para tal é a forma como traduz em música, sem rodeios de espécie alguma, aquilo que se passa nas ruas e no mundo.

Nesta música o Manu Chao ilustra na perfeição o caos que se vive nesta cidade. Um caos que é, afinal, de certa forma paradoxal. Numa cidade feita de quarteirões, paralelas, perpendiculares, uma rua pra esquerda, outra pra direita, aquela pra cima, a outra pra baixo, diagonal ao meio, cruza com Passeio, Praças nas pontas...

Barcelona é uma cidade grande. Ruas largas, largos passeios, prédios altos ao estilo antigo, com varandas de ferro e portas altas, pesadas e trabalhadas. Se me puser numa determinada posição no sofá, deixo de ver carros e estrada e ao ver os prédios do outro lado da praça penso que podia perfeitamente estar em plenos meados do séc. XX. Se, no entanto, levantar a cabeça, a minha paisagem urbana glamourosa é invadida pelas três gruas que ornamentam a Sagrada Família, essa monumental obra que para mim e para muitos catalães, de Gaudí já só tem mesmo um terço.

Barcelona é uma cidade clara. Muita luz, muito sol, parques onde usufruir de ambos, o mar, a marina, a beleza picada de Barceloneta. Porém, se vou ao Raval, invade-me o granito, as ruas estreitas e sombrias, com pinceladas de cor pelos graffitis intervencionistas ou pela indumentária berrante de elementos diversos de tudo quanto são novas tribos urbanas.

As lojas da Diagonal, do Passeig da Grácia, da praça da Catalunha e os restaurantes da Rambla são grandes, ostensivos, ricos, prósperos. À noite, despem as suas montras e parecem flores murchas em comparação com as pequenas e estreitas, mas coloridas lojinhas do Bairro Gótico. Este é o paraíso da minha irmã e uma espécie de pesadelo atractivo para mim.
(continua ali)

Ana