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sábado, março 05, 2011

Postal de Luanda



Segundo o Jornal de Angola, o primeiro Secretário do MPLA, Bento Bento, acusou alguns angolanos residentes no exterior de incitarem à desordem no país. Estes angolanos, acrescentou, vivem em países como Portugal, França, Alemanha, Itália, Grã-Bretanha e Bélgiica.
Onde é que eu já ouvi isto?

Foto do mercado de S. Paulo (Luanda)

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Postal de Pequim (4)

Foto Maria


“ O serviço de informação na China é mal feito e o Governo tem consciência deste problema”- escreve o diário oficial em inglês “China Daily” .
Segundo o Ministro da Informação Wang Chang, os porta- vozes dos ministérios não são competentes. Daí a necessidade em organizar cursos de formação em comunicação social para membros do partido e do governo que os prepare para situações em que têm de reagir ou comunicar sobre assuntos que não ousam ou não querem ou não podem abordar.

Mas na China a transparência, sobretudo na informação, tem limites. O regime considera que o acesso a uma informação não censurada é uma prerrogativa das autoridades governamentais.
O acesso da informação ao público em geral é um aspecto da democracia que não é aceite na China, e a liberdade de imprensa uma noção que não consideram útil.

Então qual a razão de toda esta preocupação com a formação dos porta vozes? O regime em Pequim parece ter tomado consciência de que a imagem que projecta para o exterior é importante para atingir os objectivos que se impõe. “A internet alterou a forma de comunicação dos média » diz o Prof.Li . »Já não chega ter um ou outro bom contacto com um ou outro representante de orgãos de comunicação ocidentais. »

O Governo considera urgente enquadrar a sua política num discurso propagandista credível e moderno.
E neste campo ninguém mais bem indicado para o ajudar do que Israel, grande especialista em propaganda.
Apesar de a China ser considerada um aliado dos Palestinianos tal não tem impedido que há já largos anos Israel tenha vendido a Pequim tecnologia de ponta com fins militares. Ao longo dos anos de ocupação dos territórios de Gaza e Cisjordânia, Israel desenvolveu técnicas de ponta e arsenais electrónicos e computarizados extremamente sofisticados no âmbito do controlo, vigilância e “intelligence” que desde 2004 tem vindo a partilhar com a China confrontada com insurreições por parte das suas minorias (Tibete e Uighours) e nas cidades e campos por parte de trabalhadores cada vez mais explorados.
Por outro lado, Israel tem também um imenso problema com a imagem que projecta para o exterior tendo montado um sistema de propaganda – hasbara – extremamente eficaz, mediante discursos bem programados e um controlo da informação por meio de lobbies bem alinhavados.

Sensiveis a tanta eficácia, um certo colonel Xeuning visitou Israel, em Março 2010, acompanhado de uma delegação do governo chinês, a fim de estudar as lições em relações públicas a tirar dos acontecimentos em torno da segunda Guerra com o Libano, em 2006 ,e da operação “Cast Lead”, em Gaza. E ao mesmo tempo visitar a escola do exército para formação nos meios de comunicação e na integração da função de porta-voz na planificação das operações militares.
Práticas identicas produzem o mesmo tipo de problemas, que exigem o mesmo tipo de soluções !

Maria

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Postal de Pequim (3)

Foto Maria


Jan, um belga com passado `maoista` que decidiu vir abrir em Pequim uma firma de marketing, explica-me que não tem ilusões sobre o que acontecerá quando o seu negócio passar a barra de lucros que tocará a sineta de alarme junto das autoridades locais.
Um dos seus melhores amigos, um americano radicado na China há longos anos, tinha um negócio neste mesmo sector. Ganhou milhões. E hoje tem a conta a zero. Não sobreviveu à visita de oficiais que o aconselharam a restituir ao país que o acolhera e lhe proporcionara riqueza, parte dos bens que acumulara.

E Jan conclui: “como esta sua firma,muitas outras firmas estrangeiras recebem mais cedo ou mais tarde estas visitas. A razão pela qual Skype tem problemas na China, Facebook não tem autorização, Google e outras do género têm dificuldades, é a meu ver essencialmente económica, mais do que política. Os lucros enormes que representam ou de que privam firmas chinesas que estão nas mãos dos “princelings”(filhos dos dirigentes históricos do Partido, detentores de grande parte da economia ), desprotelam nestes a ganância, cientes de que a China lhes pertence.”

Maria

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Postal de Pequim (2)

(Foto Maria)
XiaoZhang (27) é uma mulher feliz. Depois de uma vida sentimental turbulenta, encontrou na relação com XiaoLi uma estabilidade desconhecida.

XiaoLi (26), originário do Henan onde deixou os pais, gente do campo humilde e pobre, veio tentar a sorte em Pequim. Chegou com 100 kuais (10 euros) nos bolsos. Teve de comprar uma camisa e um par de calças decentes, de partilhar apartamento e colchão. De enganar muita fome. Pagar favores. Durante os primeiros três anos endividou-se a fundo. Hoje, cinco anos depois de ter chegado, ocupa um lugar importante numa das maiores firmas de publicidade. Reembolsou as dívidas. Comprou um pequeno apartamento. Comprou carro. E para o ano pensa casar-se com XiaoZhang e comprar um apartamento maior. Um “must” para não perder a face junto de amigos e clientes.

Uma “success story” que em Pequim um realizador pondera contar em filme. Mas o sucesso de XiaoLi preocupa a sua namorada. O sucesso rápido atrai invejas. A ostentação gera inimigos. A máxima discrição impõe-se numa sociedade onde nada é dado a ninguém sem contrapartida. Onde todos, grandes e pequenos, se deixaram um dia tentar por práticas menos recomendáveis. Finalmente ricos mas vulneráveis. E sem uma boa rede de conhecimentos, qualquer dia um funcionário governamental virá bater-lhe à porta a pedir comissão.
XiaoZhang sabe que a “success story » do seu amigo pode ter fim a qualquer momento. Por isso, para já está decidida a viver plenamente o presente. Sem provocações e sem grandes ilusões.

XiaoLi é um exemplo de entre muitos jovens chineses da geração dos anos 80 que cresceu com o desenvolvimento económico fulgurante. Que soube usufruir da sociedade de consumo post-Deng Xiaoping , onde tudo é possível. Mas que sem regras e leis adequadas deixa em aberto a porta à corrupção e à chantagem.
Maria

sexta-feira, dezembro 31, 2010

Postal de Pequim



Há cinco anos que regularmente venho passar uns meses em Pequim. No programa : lições semanais de mandarim. Com a ilusão de que um dia conseguirei perceber melhor o que por aqui se passa. Sabendo porém que por muita agilidade que consiga vir a ter no uso do mandarim, nunca me será possível vir a saber exactamente o que pensam os chineses.

O que pensam os chineses? `Um chinês nunca dirá a um estranho, e muito menos a um estrangeiro, o que pensa realmente`, explicou-me a minha jovem professora de mandarim. `Uma opinião ou comentário menos bem visto pelo Poder, seja ele imperial ou revolucionário, pode causar uma condenação que se repercute sobre as 3 gerações futuras. Uma responsabilidade que muito poucos estão dispostos a assumir’, acrescentou.
A opção: discurso metafórico, explicações carregadas de símbolos com interpretações várias , impõe-se como óbvia .
Além disso, importa não esquecer que uma palavra pode ter vários significados e que em cada conversa as palavras são escolhidas em função do interlocutor. E os tempos evoluem, as novas gerações de chineses também.

Quando em 1976 aqui cheguei pela primeira vez, ainda em plena Revolução Cultural, todos eramos `Tongshi` (camaradas). Chineses e estrangeiros.
Hoje em dia para qualquer jovem chinês, `Tongshi` quer dizer `homosexual` .
Com o significado original de `Camarada `, ’Tongshi” parece só ser utilizado num pequeno círculo dentro do Partido com direito à `red machine` na secretária ( telefone vermelho com apenas 4 algarismos que põe em contacto o reduzido círculo de dirigentes realmente detentores do poder).

No meu livro `Curso Intensivo de Chinês Falado` a primeira lição ensina-me a saudar os chineses com um `Ni hao ma` (Como estás?).
Só que nas ruas e ruelas de Pequim os residentes continuam a saudar-se com o velho “Chi fan le ma”( Já comeste ?).
‘A comida teve, tem e continuará a ter uma importância central na vida cultural e social de cada um `, explica-me Liumin.

A prosperidade económica que se vive na capital não é suficiente para vencer o receio dos longos períodos de fome, que ao longo dos anos têm sido uma constante na história da China. Mesmo entre as gerações post anos 80. Na intimidade continuam a saudar-se com um “Ni pangle shoule ma”( Engordaste?), a par do recente “Ni hao ma” (Como estás? ) mais ocidentalizado e com o qual saudam os estrangeiros.

Revendo as imagens de um Hu Jintao de mão estendida para Sócrates, saudando-o com um `Comeste?`, seguido de um`Engordas-te?`, imagino a satisfação do nosso PM que interpretando a saudação como sinal de descontração e intimidade , se julgou aceite no clube dos poderosos. `Red machine` na secretária. Um verdadeiro `Tongshi` .
E face à generosidade chinesa, inconsciente da gaffe, não se coabir de lançar centenas de `Xiexie ni`(Obrigada). Entre verdadeiros `Camaradas` um sinal de arrogancia e falta de educação.
Ou será que me engano?

Maria

quinta-feira, setembro 09, 2010

Postal de Tel Aviv (4)


Finalmente consegui marcar uma visita ao colonato de Ofra, ao norte de Jerusalém, um dos primeiros colonatos em terra palestiniana do West Bank. Fundado pelo grupo politico-religioso de extrema direita Gush Emunim, que considera ter recebido de Deus o direito de ocupar a Palestina, do mar ao rio Jordão, a visita a este colonato anunciava-se tensa.

O meu interlocutor esperava-me no portão de segurança de acesso ao colonato. Num tom de voz pousado e conciliador, este filho de embaixador e sobrinho do único Prémio Nobel de Economia em Israel explicou-me as razões que o fizeram decidir vir viver para aqui . “Viver entre familias com os mesmos objectivos e as mesmas ideias.”, diz.” Uma comunidade , aberta a quem queira vir, de esquerda ou de direita, mas cumpridores das regras do “shabat” – sem carro nem televisão ”, precisa.

“A minha mulher é uma judia ortodoxa e cumpre as regras vestimentais – mangas e saias compridas, cabeça coberta . No entanto, se for dar uma volta pelo colonato poderá ver que há quem se vista sem este rigor. Mas no “shabat” ninguém vê televisão e os carros ficam nas garagens. E esta atmosfera agrada-me.”

“Mas porque razão vir viver para terra ocupada, quando este tipo de comunidades existe em Israel?” pergunto
“ Há quem venha para os colonatos por motivos económicos (casas mais baratas, incentivos dados pelo Estado no ambito da política de expansão e ocupação)” explica. “ A minha família veio por razões ideológicas. Deus deu-nos esta terra e é nosso dever ocupá-la .”

Todas as noites, Jerusalém é invadida por cerca de 15000 jovens da periferia, na maioria vindos dos colonatos próximos, como o de Ofra, em busca de droga, bebidas fortes e violência. A atmosfera consensual que o meu interlocutor me explica poder viver em Ofra, não parece interessar estes jovens.

“É um grande problema que tentamos resolver “ admite .” O desmantelamento dos colonatos em Gaza traumatizou muitos destes jovens que se sentiram traídos pelo governo. Para eles e para nós Sharon foi um traidor” ,conclui.

A satisfação que sentem quando , Uzi no ombro, se lançam em acções violentas de ocupação e usurpação das terras das aldeias palestinianas vizinhas, já não lhes chega, penso eu.
O rabi garantira-lhes que Deus nunca permitiria serem expulsos de Gaza. E Deus permitiu.

Maria

quinta-feira, julho 29, 2010

Postal de Tel-Aviv (3)


Ao ver-me entrar no gabinete, o director dos Arquivos Einstein, na Universidade Hebraica de Jerusalém, hesitou. Percebi que o problema era eu ser mulher. Judeu ultra-ortodoxo haredi, barba e `peyos`( patilhas em forma de caracol comprido), kipa na cabeça, casaco comprido preto e chapéu grande no bengaleiro, saudou-me com uma vénia. Sem aperto de mão.

A conversa começou aos solavancos. Lentamente. Mas o assunto interessava-lhe. Claramente. E os anos vividos na Áustria, donde emigrou para Israel há uns dez anos, ajudaram-no a fazer as pazes com a situação.

Eis o que me explica:
"A história do povo judeu é como um filme cuja película se parte durante a projecção.
O filme começa com a criação do Primeiro Templo, apresenta em seguida a destruição do Templo pelos Babilónios. Prossegue com a criação do Segundo Templo e a destruição pelos Romanos no ano 66 da era cristã. Inesperadamente a película do filme parte-se. E enquanto se está a aguardar que se cole a película, entram no palco outros actores. Os sionistas. E começa um outro espectáculo, que não tem nada a ver com o filme que estava a ser projectado. Usurpadores, obrigam-nos a suspender a projecção do filme. E a retardar a chegada do Messias e a construção do Terceiro Templo a que todos aspiramos".`

'E colonos e colonatos fazem parte de que espectáculo? '- pergunto-lhe. Do dos haredim ou do dos sionistas? - acrescento.
"Do nosso" - responde após uma longa reflexão. "Os colonos religiosos ajudam-nos a preparar o terreno para a chegada do Messias. Ajudam-nos a ocupar a terra. Se bem que, por vezes, tenhamos de reconhecer que alguns deles são actores vindos do espectáculo sionista".

No Museu Nacional de Arte , recentemente inaugurado em grande pompa em Jerusalém, uma maioria de visitantes são haredim em visita a uma maquette nos jardins do museu que reconstitui Jerusalém na época do Segundo Templo. Um grupo de jovens, vindos de Nova Iorque, fato preto, chapéu grande, 'bíblia' na mão, ouve o rabi que os acompanha e discute. Uma rajada de vento leva um dos chapéus para dentro da maquette, junto ao Templo. 'Terá de aguardar a chegada do Messias para recuperar o seu chapéu' - digo-lhe . "E entretanto comprar um novo. Que me custará 200 dólares" - comenta sorrindo.

Maria

quinta-feira, julho 22, 2010

Postal de Tel-Aviv (2)

No final de um dia quente e húmido, cansados de um dia de visitas a aldeias na Galileia, junto da fronteira com o Libano, sem nada no frigorífico para jantar, a opção ` pizzas` teve luz verde. Sobretudo porque na rua Shenkin há uma pizzaria aberta até tarde onde as `pizzas` são muito boas.

"É turista ou está em trabalho?", pergunta-me um jovem dos seus 18 anos sentado junto ao balcão.
Olha para a minha maquina fotográfica e continua, "Deve ser em trabalho. Fotógrafa ? Eu também faço fotografia. Mas como amador. Que trabalho está a fazer aqui em Israel?"
"Acabo de chegar do norte, de uma visita às aldeias de Kafr Bir`im e Jish. Já alguma vez ouviu falar destas aldeias?", pergunto.

Pela reacção percebo que não. E a amiga ao lado, 16 anos talvez, também não.
Cito nomes de outras aldeias : Deir Yassin, Ein Hod, Allajoun .
Intrigado confessa que, estudante a entrar na universidade, nunca ouviu falar destas aldeias. Evidentemente que estudou a história de Israel. Que teve de estudar os acontecimentos que conduziram à fundação do Estado de Israel em 1948. Obviamente que sabe das milícias paramilitares de jovens judeus zionistas da Haganah, e da milícia de elite do Palmach, todas milícias clandestinas que lutaram contra ingleses e árabes, na conquista das terras para o futuro Estado . Mas a história dessas aldeias que lhe refiro, nunca ouviu falar.

Explico então que Kafr Bir`im era uma aldeia palestiniana cristã na Galileia, junto ao Libano , capturada pela Haganah no final de 1948 , que obrigou os habitantes a abandonarem casas e bens e a irem instalar-se noutras terras , de preferência na Jordânia. Quando em 1949 quiseram regressar foi-lhes impedido . Acabaram por deixá-los reinstalar-se mais a Sul, na aldeia de Jish. O Vaticano chegou a interferir apoiando-os na reivindicação de indemnizações. Até hoje sem resultados.

Kfar Bi`rim, a aldeia que tiveram de abandonar, não foi arrasada. Ao contrário de muitas outras aldeias palestinianas despovoadas pelas milicias que obrigaram ou incitaram as populações a partir. Sem direito a regressar. E nalguns casos as assassinaram. Como em Deir Yassin .

Kfar Bi`rim existe ainda. Ruelas cobertas de vegetação por entre ruínas de casas. Junto a um parque florestal onde israelitas palestinianos vão passar tardes em família. Uma funcionária do parque mostrou-me a ruína onde viviam os pais, obrigados a partir. E insistiu para que fosse ver Kfar Baram , junto às ruínas, um dos primeiros `Kibbutz`, fundado em 1949 pelos militantes do Palmach activos nesta zona , quando desmobilizados.

Os dois jovens na pizzaria da rua Shenkin, ouviram-me. Atentamente. Interessados, pensei eu.
Quando partia, já aviada, de `pizzas` na mão, perguntaram-me: "Are you a leftist?" ( És uma esquerdista?)
Recordando-me da reacção do antigo PM Isaacs Shamir que a uma referência sobre a relação de Jacques Chirac com o mundo árabe , comentara:" But Chirac is a leftist", respondi: "Esquerdista ou direitista , quem sabe ? Sou sobretudo uma pessoa interessada na história completa do Estado de Israel".

Maria

quarta-feira, julho 14, 2010

Postal de Tel Aviv


Em Tel Aviv, Shenkin é considerada uma das zonas mais interessantes para alugar um apartamento.Bairro de casas estilo Bauhaus ,com inúmeros bares e restaurantes abertos pela noite fora repletos de gente nova com ar dinâmico e interessado.

Aqui não se corre o risco de jantar ao lado de uma mesa de jovens recrutas do exército em farda militar e Galil no ombro ou de colonos com kippa e metralhadora Uzi . Tel Aviv nao é Jerusalem, e os jovens de Shenkin dão a impressão de não estarem interessados no que se passa nos territórios palestinianos sob ocupação, e muito menos nas lutas nacionalistas e religiosas dos colonos e haredim. Aqui pensa-se ` made in USA` . E procura-se viver como em Los Angeles ou Nova Iorque. Há como que uma necessidade inconsciente mas constante de afirmarem não pertencer ao mundo medio-oriental que os rodeia e para onde os antepassados decidiram vir viver.

Esta manhã acordámos com o barulho de um buraco aberto na parede do nosso apartamento em Shenkin. A parede não resistiu à broca do trabalho de restauro no apartamento do lado. Neste bairro upgraded do centro de Tel Aviv, os blocos de apartamentos foram construídos nos anos 30, na sequência da expansão da população judia para além dos limites do porto de Jaffa, onde vivia uma comunidade mista de árabes e judeus. Importante era construir segundo os parâmetros europeus. Criar aqui em pleno Médio Oriente uma cidade europeia, que após a declaração do Estado de Israel em 1948 se foi desenvolvendo segundo os moldes americanos à medida que ia absorvendo novos imigrantes judeus. A urgência da ocupação do espaco nos anos de expansão territorial nao permitia considerações de qualidade na construção dos prédios. A urgência era evitar `go native`.

A atmosfera dinâmica e animada que se respira nas ruas e belas avenidas de Shenkin não consegue abafar o sentimento que se tem de residirmos numa espécie de acampamento. De luxo, é certo. Provisório talvez, para muitos destes jovens que enchem bares e restaurantes pela noite fora, surdos ao que se passa em Jerusalém e nas colónias judias em terra palestiniana, conscientes de que um dia poderão vir a decidir, como alguns dos seus amigos o fizeram já, emigrar para a Europa ou USA. Se for caso disso.

Maria

terça-feira, junho 29, 2010

Postal de Barcelona (Carta aberta aos grandes chefes


Caro Zé,

Caro Aníbal,

o meu nome é Ana e nasci em Lisboa, mas vivi no Porto quase toda a minha vida. Foi lá que cresci, junto ao rio e ao mar; foi lá que estudei e aprendi tudo o que sei; foi a Norte que passei todas as minhas férias e foi também lá que me ensinaram os valores que hoje me regem.

Foi a Norte que me ensinaram que não se cruza os braços perante a adversidade; foi a Norte que me mostraram que, quando o ser-humano deixa que as mordaças da hipocrisia lhe calem a voz, perde terreno importante para as trevas da exploração; foi a Norte que percebi que a Honra tem muito mais a ver com a forma e a força com que arregaçamos os braços para trabalhar e ajudar o próximo, do que com a gravata que escolhemos para receber um cargo com o qual, afinal de contas, não sabemos bem o que fazer; foi lá em cima que sempre ouvi que não podemos deixar de lutar contra aqueles que nos pisam, que nos oprimem, que nos limitam, que nos reduzem a pouco quando somos muito. Tudo isto aprendi pela boca de pessoas várias, unidas em torno de valores comuns e de uma herança de combatividade (não apenas pela região, mas principalmente pelo próprio país); pessoas de diferentes cores políticas, profissões, estratos e condições sociais; pessoas que às vezes nem sabiam a importância do que me estavam a transmitir; pessoas que falam com o coração na boca e que, se tivessem o país nas mãos, fariam de nós algo ainda maior do que o que agora somos. Só porque sim – só porque os seus antepassados o fizeram sempre.

Tal como disse no início desta carta, foi no Norte que estudei. Mas não foi no Norte que arranjei emprego. Não é no Norte que estou a conseguir desenvolver-me e criar riqueza para o meu país. Não é a terra onde nasci que Norteia as minhas escolhas, nem é lá (ainda) que posso contribuir com as minhas capacidades, explorar o meu potencial ou rentabilizar a minha energia.

É que a Norte não há emprego. A Norte há poucas possibilidades de receber um bom salário. A Norte somos constantemente alvo dos caprichos da capital e acabamos sempre a pagar as favas dos amuos da vossa gente quando sente os bolsos mais leves. A Norte somos pior servidos de transportes e na prática acabamos por pagá-los mais caros. A Norte temos que fazer duplo-esforço para lutar contra o isolamento cultural e artístico e estóicamente ultrapassar violentos ataques e barreiras ao renascimento e desenvolvimento das indústrias que, um dia, alimentaram o país – isto é hoje tão evidente, que só não o vê quem, como os senhores, pura e simplesmente não quer.

Eu não me estou a queixar. Eu tenho dois braços, duas pernas, uma voz potente e três ou quatro capacidades que, certamente, me proverão o sustento mais tarde ou mais cedo. A Norte, pois claro. (Se tiver que ser a Sul, pois que seja, de fome não morrerei – mas o meu coração continuará no Norte e jamais me venderei como tantos dos vossos colegas de mexerico político). Basta os senhores olharem à história e terão diversas provas de que aqui em cima sempre estivemos bem acordados. Repito, não me estou a queixar, porque sei que mais dia, menos dia, esta situação terá um fim. O Norte será Norte e continuará a ser Portugal, mas um Portugal que não baixa a cabeça ao poder central e nem se governa pelo desgoverno que vem da Capital. Só mais uma vez, para que fique bem claro: eu não me estou a queixar – estou apenas a avisar. Junto a minha voz às de tantos outros que têm vindo a fazer avisos semelhantes, por motivos que, entre outros, se prendem com a subsistência e dignidade de uma Juventude que se recusa a apodrecer calada.

Estarão agora os senhores a pensar: “Bolas, a miúda está revoltada!”. Estou sim, meus senhores. Estou eu e os meus irmãos; o meu namorado; os meus vizinhos; os meus amigos; os amigos do meu namorado e os amigos dos meus amigos; os meus colegas de curso; os meus colegas de trabalho (temporário, claro); os meus companheiros de autocarro e de metro; os meus tios, primos e avós; todos os amigos e colegas deles; os meus pais e os seus amigos…somos muitos. E seremos cada vez mais.

Só para acabar, uma última ressalva: os senhores lembrem-se de que não estão a brincar com tostões. Estão a brincar com a vida de pessoas unidas pelo orgulho de, historicamente, sempre terem aceite de peito aberto a luta pela dignidade. Repito: de peito aberto; coração na boca; e o Mundo nas mãos.

Não roubo mais do vosso precioso tempo. Fá-lo-ei, certamente, com o próximo boletim de voto que me chegue às mãos.

Aquele abraço de fair-play,

Anita*

segunda-feira, junho 21, 2010

Postal de Barcelona (6)


A grande maioria dos prédios de Barcelona, sobretudo nas zonas mais centrais (e mais antigas), têm saguão. Alguns prédios, mais recentes, maiores, em zonas mais nobres têm um saguão interior, amplo, luminoso, que desemboca no próprio hall do prédio. Esses prédios, ao contrário do meu, normalmente têm elevador e porteira.

O prédio onde moro, além de não ter elevador, tem não um, mas dois saguões, um deles fechado para o exterior com uma espécie de telhado de plástico. Imagino que o objectivo desta “tampa” seja preparar os pobres habitantes (pobres) deste edifício para a devastação do aquecimento global, porque subir os 5 andares do prédio a pé sob um calor concentrado quase transformado em vapor é uma experiência verdadeiramente apocalíptica. O outro saguão, mais estreito (muito estreito, como podem ver pela imagem), não está fechado para o exterior, e por isso agradeço ao espírito caridoso que iluminou a mente da minha senhoria…é que é nesse que se cruzam as janelas das cozinhas e das casas de banho de todos os vizinhos.

Este pormenor arquitectónico já foi, e continua a ser, responsável por momentos hilariantes que marcarão para sempre a minha estadia nesta cidade e a convivência entre os companys deste piso. O Anselmo, cujo quarto tem janela para o grande saguão, tem que conciliar as suas horas de sono com as do vizinho, sob pena de não conseguir adormecer devido ao seu generoso ronco. O Gonçalo, que estuda em horas coincidentes com o horário espanhol das refeições, tem que usar duas ventoinhas para poder manter a janela do quarto fechada – a vizinha da frente gosta de fritos e empesta-lhe o ar com o cheiro (consta que já foram até encontrados salpicos de óleo nos seus cadernos…).

A seguir ao jantar, torna-se imperativo fechar a janela da casa de banho, pois o já cronometrado biorritmo do vizinho do lado é uma arma química que ataca qualquer digestão mais sensível. No outro dia o Tiago evitou por pouco um incêndio na casa ao lado – a vizinha estava a queimar as torradas e nós achámos por bem ir bater à porta dela a avisar. E eu, que inocentemente apanhava a roupa no terraço, ao virar a cabeça num ângulo de 45º, tive o (des)prazer de quase presenciar o momento em que o filho da vizinha compenetradamente mandava o seu fax matinal.
(continua ali)
Ana

sexta-feira, junho 11, 2010

Postal de Tóquio (10)

Na semana passada circulou uma nota verbal do MNE japonês a informar que a partir de 1 de Junho os seus funcionários estariam autorizados a andar em mangas de camisa, sem gravatas e com os colarinhos desapertados e podiam inclusivamente receber membros do corpo diplomático acreditado em Tóquio naqueles preparos.

Tinha lido, no ano passado, que o Japão tinha adoptado esta política como forma de poupar no ar condicionado e simultaneamente proteger o ambiente. Admiro, mas no Japão é apenas natural, o cuidado em avisar o corpo diplomático, não vá alguém sentir-se ofendido.

Num Verão tão horrível como o que dizem ser o do Japão, faz sentido que assim seja. Nunca compreendi bem por que diabo uma pessoa precisa de andar desconfortável para ser melhor profissional. No meu caso só me distrai do meu trabalho... e tenho a sorte de ser mulher, o que no Verão dá imenso jeito.
Portugal bem que podia seguir o exemplo.

Joana

quinta-feira, junho 10, 2010

Postal de Barcelona (5)

Hoje o Mauricio e a Maribel chegaram à aula sorridentes, como sempre. Ele trazia um ramo de rosas brancas e cor-de-rosa na mão, embrulhado num saco do Consum. Rosas bonitas, gordas, abertas…viçosas.

Sempre gostei desta palavra. Viçoso é marca de confiança. Se é viçoso, é bom. E “viçosas” lembra-me a tia Gena. “Sra. Angelina, vá-me ao jardim e traga-me umas dálias viçosas p’ra esta jarra!”. Esta e outras ordens eram dadas em voz alta e fininha, enquanto se arrumava a casa da Granja para as visitas. A Sra. Angelina não era burra nenhuma e por isso já sabia tudo de cor. Mesmo assim aguardava a ordem – fazia parte do ritual. Tal como o faziam as janelas abertas para trás, as três bonecas “dama-antiga” de vidro cada uma com o seu vestido (verde, azul, cor-de-laranja) e o serviço das bolinhas. Todos os anos, salvo raríssimas excepções, as mesmas visitas bebiam o mesmo chá (Li-Kungo), na mesma chávena vermelha de bolinhas, rodeadas das mesmas bonecas, em cima das mesmas arcas. Só a excitação mudava de ano para ano. E as dálias. Diferentes, mas sempre viçosas.

Deixemos as recordações. O Maurício e a Maribel têm 22 e 21 anos, respectivamente. Conhecem-se desde crianças. Nasceram e cresceram ambos em Cochabamba, na Bolívia, tal como a Tânia. Lá, casaram e tiveram uma filha, agora com 4 anos. Estão cá há pouco mais de um ano. La niña ficou com os avós maternos. O Maurício diz que ela é muito parecida com a mãe. Uma sorte.

Pela primeira vez consigo descrever alguém usando apenas uma palavra: delicadeza.
A Maribel é baixa e larga, mas estou certa de que conseguia andar com dez latas atadas aos pés sem fazer barulho. Tenho a certeza de que não foi Criada num dia só. Foi pensada ao pormenor. Deus ponderou cada detalhe: o preto brilhante do cabelo disciplinado, a altura da testa, os olhos optimistas, a boca desenhada a pincel, os dentes perfeitinhos, à mostra na medida perfeita quando sorri. Se tem que falar, fá-lo baixinho, tranquilamente, sem no entanto perder nem um grama de alegria e até de rebeldia. No fim da Criação, Deus pegou nesta boneca, enfiou-a num molde, prensou-a um pouco e só a soltou no mundo quando achou que ela tinha o nível perfeito de achatamento e “redondez”. A Maribel é, além disso, tão viçosa quanto as rosas do saco do Consum, ou as dálias da Granja em dia de visita. Eu, para variar, faço figura de parva perante mais esta amiga sobrenatural: ela ainda não abriu a boca e eu já estou a sorrir.

O Maurício é um índio na civilização. É moreno alaranjado, tem os dentes brancos como se fossem de leite e um sorriso aberto e reguila. Está sempre a rir e dá-me ideia que viaja através dos equipamentos de futebol. A julgar pelas t’shirts, já foi a Madrid, a Munique, a Londres, a Manchester, ao Brasil, a Itália…e claro, a Barcelona – com o Messi. Estou a pensar seriamente mostrar-lhe o Porto no último dia: pelos olhos do Deco, para relembrar tempos de glória.

No fim da aula, o Mauricio pegou nas rosas e enquanto nos encaminhávamos para o Metro alguém lhe perguntou se eram para a Maribel. Ele disse que “si, pero no fui yo quien las dio“. A Maribel corou e sorriu, envergonhada. “Fueron mis jefes. Porque soy una buena cangura.” Risos. “Mauricio, andas a dormir…“. Mais risos. Diz a Sílvia, uma hondurenha simpática mas um pouco grosseira (ao lado da Maribel não é difícil): “Entonces se són de ella las rosas, porqué las llevas tu?” Resposta: “Si mi esposa es tan buena que merece esas rosas, así que supongo que será mejor que las lleve yo para intentar de ponerme a altura.“

O Maurício e a Maribel saem logo na primeira paragem. Penso sempre que gostava que eles morassem mais perto de mim, para poder conversar com eles mais tempo. Só quando saem do metro voltam a ser marido e mulher. Até lá são bons companheiros. Quando chegam à paragem, o Maurício carrega no botão, a Maribel põe-se atrás dele. Ele sai a correr, dá-me ideia de que vai sempre cheio de fome. A Maribel pára sempre. Olha para trás, sorri e acena aos que ficam. Depois dão-se as mãos e desaparecem quando o comboio entra no túnel.

Ana

quinta-feira, junho 03, 2010

Postal de Barcelona (4)

Anteontem caí de bicicleta. Ia ter com o Tiago para mandar fazer os óculos novos. Um dia lindo, iPod de serviço, e lá ia eu a rasgar o ar… Em milésimos de segundo, uma sucessão de acontecimentos fez com que eu passasse de Rainha do Mundo a Rainha do Esfolado (e só com muita sorte não me tornei a Rainha Sem Dentes).

Quando cheguei ao pé da estação das camionetas, onde a rua passa a ser exclusiva às bicicletas e aos peões, passou por mim, também de bicicleta, um jovem parecido com os indígenas que me acordam aos Domingos com a música do Titanic em versão flauta-de-pã. Ouvi um estalido e um pequeno estrondo e olhei para a direita. A bicicleta tinha-se desmontado toda e ele tinha caído ao chão, com uma cara muito aflita, o cabelo comprido todo desalinhado.

Por solidariedade ciclista voltei para trás, para saber se precisava de alguma coisa. Quando comecei a dar meia-volta, reparei numa pomba (aqui são especialmente repugnantes) que debicava umas migalhas do chão enquanto perigosamente dela se aproximava uma gaivota gigante, que acabou por lhe morder a asa. Rebolaram mesmo para a frente da minha bicicleta, o que me obrigou a uma travagem brusca e fez com que me desequilibrasse.

Não me esborrachei propriamente no chão, porque a Divina Providência tinha colocado um poste mesmo ali à disposição. Mas ainda esfolei a perna no pedal, torci o pé que pousou no chão e o pulso que se agarrou ao poste ficou a doer até agora. O meu colega de queda, esse, estava tão irritado com as peças da bicicleta espalhadas por todo o lado que nem reparou no meu próprio drama…e eu fiquei ali, agarrada ao poste, a bicicleta aos pés, com os meus esfolados e a minha vergonha.

Em Barcelona, cair de bicicleta está ao nível daquelas mulheres que desfazem todos os carros à volta para poder estacionar o delas no espaço onde cabe um camião – a bicicleta aqui não é uma actividade de lazer, é um meio de transporte, uma necessidade, exactamente como um carro ou uma mota. Oh, infâncias infelizes, as de quem não andou de bicicleta sem o peso da responsabilidade!…

Eu como aprendi a andar de bicicleta ao mesmo ritmo em que aprendi a cair, mas também tenho vergonha na cara e não gosto de dar aos catalães motivos para se rirem de mim, pousei a bicicleta na primeira estação de bicing que encontrei e fiz o resto do caminho a pé. A mancar, mais precisamente. E furiosa com a borboleta japonesa que bateu as asas em Quioto e, de alguma forma que só a física quântica poderá explicar, provocou a minha queda.

Ana

quinta-feira, maio 27, 2010

Postal de Tóquio (9)


Ultimamente tenho-me sentido mais cansada do que é habitual.

Ora bem, pensando bem no assunto, só viver em Tóquio já é cansativo, desgastante.
Cada dia é uma aventura, cada interacção com o próximo um salto no desconhecido e todos os sentidos estão em permanente alerta. A atenção ao que me rodeia é constante e isso cansa.

Tóquio é cansativo. O Japão é desgastante. Tudo é sempre uma incógnita.
Andar de metro, por exemplo, é das actividades mais arriscadas e nunca se sabe se a pessoa ao nosso lado tomou um pequeno-almoço mais ou menos substancial que lhe permita aromatizar o ambiente...
A aproximação do metro nem sempre significa que consigamos entrar nele: a massa humana que de lá sai é de tal ordem que já por duas vezes o perdi, na plataforma, com a porta à minha frente e um mundo de gente entre nós. As minhas visitas admiram-se quando lhes sugiro que, em hora de ponta, não há que pedir licença, muito menos esperar por uma aberta: é empurrar e com toda a força! Em Roma sê romano...

Ontem levei um valentíssimo empurrão que me fez recuar dois passos. Quando olhei para o agressor constatei com surpresa que era uma velhinha de 130 cm, 20 kg e uns bons 350 anos. Há muitos por aqui. São pessoas que morreram de velhas durante a Guerra mas como os japoneses estavam muito mais entretidos a esborrachar-se, mais os seus aviões, contra os americanos, ninguém deu por nada e consequentemente não avisaram as pessoas de que estava na altura de atravessarem o rio. Entretanto nunca mais actualizaram os registos e é vê-los por aí a cirandar por todo o lado. A de ontem era seguramente uma destas porque a força que saiu daquele corpo franzino não era deste mundo!

Joana

quarta-feira, maio 26, 2010

Postal de Barcelona (3)


Ontem passei, mais uma vez, pela Casa Batlló.

Ia a caminho de uma entrevista de emprego e jurei a mim mesma que desta vez ia vestir inteiramente a pele do “inimigo” e não ia olhar para lá. Ia-me ser completamente indiferente, ia ser um passeio qualquer, numa rua qualquer de uma qualquer cidade. Ia passar pelo passeio, inundado de turistas, e dar encontrões a quem se pusesse à minha frente para tirar fotografias. Ia olhar com ar de piedade para os que esperassem na fila, especialmente para os últimos. Aos que estivessem sentados no banco, horas a fio, a perceber cada curva, cada pedrinha, ia deitar um olhar de “aposto que estás aí há horas, haja paciência, junta dinheiro e compra a porcaria do bilhete duma vez!”. Ia ser uma verdadeira barcelónica e desprezar todos os turistas que invadem a minha cidade.

Claro que não consegui.

Primeiro, porque aquela é, talvez, a esquina da minha predilecção nesta cidade.

Segundo, porque tenho plena convicção de que os turistas da Batlló são completamente diferentes dos turistas que invadem a minha praça e a (minha) Sagrada Família.

Terceiro, porque já estive, em diferentes ocasiões, no lugar de todos eles. Já fui dos que passam e levam encontrões dos locais quando tiram uma fotografia só p’ra poder acalmar a consciência e dizer que lá estiveram; dos que se sentam horas a fio no banco da frente de luvas a beber um chá ou de chinelos e água fresca na mão, só a olhar para cima até que lhes bata à porta o torcicolo; e dos que finalmente, sôfregos de desejo, fazem fila à porta com 12 € contados na mão para poder ver aquilo por dentro.

Ana

sexta-feira, maio 21, 2010

Postal de Barcelona (2)

A Yanira tem trinta e tal anos, mas aparenta bem mais de quarenta.

Quarenta falsos anos que carrega como um fardo tão pesado quanto a distância que a separa dos três filhos há mais de seis anos. A mais nova tem 7 anos, deixou-a em El Salvador ainda bébé. Morreram os pais e o marido e ela pôs-se ao caminho para poder cumprir um velho sonho: ter os filhos na Universidade.

Os olhos rasgados, escuros e tristes, transformaram-se quando disse, em Catalão e perante toda a turma, em voz baixa e por entre sorrisos de insegurança: o meu filho mais velho formou-se de Ingeniero o mês passado; a minha segunda filha estuda para ser Enfermera.

De manhã, a Yanira (que na verdade, segundo me explicou, devia chamar-se Janira, mas a tia enganou-se quando a foi registar e fez um Jota que parecia um Ypsilon, então ficou) toma conta de uma senhora velhinha que adora. “Es muy cariñosa…tengo que levarla bajo el brazo para pasear porque és muy fragil”. Às tardes, trabalha à hora em casas que precisem dos seus serviços. Agora tem duas tardes livres – essa patroa mandou-a embora, recusou-se a dar-lhe a última hora do dia para o curso de Catalão – “a tarde toda ou nada”.

Ela precisa deste curso “para los papeles”. Perdeu duas tardes de trabalho. A minha nova amiga leva o curso muito a sério, guarda religiosamente todo o material e usa cada bocadinho livre do caderno – já lhe disse que não é preciso tanto, que assim não se percebe nada, mas ela diz que tem medo de chumbar e de precisar de mais caderno para repetir.

Ontem tivemos que fazer uma composição. A Yanira escreveu a dela de forma tão empenhada que partiu o bico do lápis três vezes. No fim, pediu-me para a corrigir, antes de entregar à professora.
Estava tudo certo, menos uma palavra, no feminino, que eu não percebi se acabava em “a” ou em “o”. A resposta dela foi sublime: “Ana, eu só tenho a 2a classe. Às vezes não sei bem como escrever uma palavra, se é com “a” ou se é com “o”. Então faço uma coisa assim-assim…dá p’rós dois lados.”
(continua ali)

Ana

quarta-feira, maio 19, 2010

Postal de Tóquio (8)

Informaram-me que iria a uma escola falar sobre a União Europeia, que escolhia o sítio e podia escolher um sítio qualquer no Japão que "eles" pagavam a viagem.

Lembro-me também de me dizerem que nessa tal ida à escola deveria usar calças porque muitas vezes sentávamo-nos no chão à japonês.Era uma Sexta feira e eu não tinha percebido nada de tanto que me disseram.

Na semana seguinte entrei em pânico: quando é que eu vou à tal escola mesmo? Era só em Maio, afinal, e a Naoko, minha secretária, trataria de me ir mantendo informada sobre tudo.
Escolhi Quioto mas deram-me Hyogo. "Não faz mal porque fica perto", disse-me a Naoko.

Com toda a informação que retive naquele primeiro dia em mente, fiz a mala para as escolas. Ainda ia passar em Quioto antes e como no dia em que empacotei faziam quase 30º em Tóquio, achei que deveria levar umas calças brancas que, por causa das bainhas que nunca arranjei por preguiça pura, exigem as sandálias (claro que entretanto começou a chover e passei um frio do caraças mas isso agora não interessa nada).

Dia 11 apresentei-me na primeira escola onde um director muito simpático me recebeu... de chinelos... tão prestável era que imediatamente sacou mais 3 pares de chinelos de quarto de 3 cacifos e nos indicou onde deveríamos guardar o sapatinho.

Note-se que, por causa da sandalete e para fazer boa figura na minha apresentação (afinal estava a representar não apenas Portugal mas toda a UE), tinha estado na véspera, e com bastante paciência, a arranjar a unhinha do pé... para no fim de contas estar duas horas em pé a falar, de calças com bainhas demasiado grandes para os meus parcos 165 cm e chinelo de quarto! Muito, muito digno!

O director explicou-me o que queria que eu explicasse, disse-me que tinham lá mais imprensa do que estavam à espera e que havia mesmo uma cadeia de televisão. Tremi mas nem dei parte de fraca. Qualquer baboseira que dissesse poderia perfeitamente ser culpa do meu intérprete.

No anfiteatro da escola esperavam-me 230 adolescentes de farda e... sim, chinelinho de quarto, todos iguais uns aos outros. E os professores que assistiam? Fato, gravata e chinelo de quarto. LIIIIIINDO!

Não sei se por causa da televisão, se impressionados pela minha postura 'digna' enquanto caminhava para o púlpito em chinelinho e calça a sobrar por baixo (sem tropeçar), o certo é que esses meus alunos se portaram às mil maravilhas e pareceu-me que apenas 3 ou 4 dormiam.
No fim das 2 horas ainda fizeram muitas perguntas (sobretudo sobre mim) e à noite apareci no telejornal. Eu era o supra-sumo da barbatana! Advogada, diplomata, 31 anos, a falar um carradão de línguas (nem o director fala inglês)!
"Oooooooohhhhh", diziam em uníssono.

Joana