Fui educado numa cultura de exigência, tendo-me sido explicado desde que me lembro que essa exigência era para meu próprio bem.
Sentar-me à mesa a horas, não questionar a sopa, o prato ou a fruta, não "abrir as asas", esperar pelo fim da refeição e pedir licença antes de me levantar era habitual e inquestionável na minha tenra meninice.
Cumprir horários, respeitar os mais velhos (quase todos, na altura...), ir à missa, à catequese, às aulas de música, ao cemitério com a avó e pereceber que houve muita família antes de nós que era preciso continuar a respeitar.
Esperar que os primos de fora chegassem para irmos todos juntos comprar a primeira bicicleta de cada um, com sorteio das cores para que houvesse plena igualdade. Saber que essa bicicleta teria de durar muitos anos.
Comprar a segunda bicicleta com dinheiro dos presentes da comunhão solene. Saber que essa bicicleta tinha de ser criteriosamente escolhida porque seria para a vida.
Usar a Parker 21 de tinta permanente só em provas importantes, porque os aparos gastam-se e uma Parker 21 era uma Parker 21. Ainda a tenho.
E assim foi em relação a muitas coisas e outras tantas atitudes. Felizmente!
Vem isto a propósito da decisão de Nuno Crato de suspender o prémio de 500 €uros dado aos melhores alunos.
Voltando ao meu caso pessoal, sempre me foi dito que tirar melhores notas, dar o melhor de mim, era a minha estrita obrigação. Nunca tive presentinhos de passagem de ano lectivo, louvores por boas notas, nada. Era suposto que cumprisse. Na altura não tinha outra missão senão investir no meu futuro.
E quem era o beneficiário do meu bom desempenho? Pois é, eu!
Se tirasse más notas, a história seria diferente. A malandrice não era nada bem vista pelas minhas bandas...
Talvez por esta deficiente formação, nunca vi com bons olhos esta coisa de darem os 100 contos à malta que cumpria o seu dever para seu próprio proveito, tudo em nome das sacrossantas motivação e competitividade.
Na sociedade individualista em que vivemos e com as necessidades que proliferam, a solução de Crato é interessante; estimula o sucesso e a consciencialização social ao mesmo tempo. Enaltece o acto de dar e liga o aluno a algo bem mais digno do que a mera ambição de ter. Pelo caminho, ajuda-se que mais precisa com a verba em causa.
Ainda estamos longe do regresso a uma cultura de exigência em que cada um sinta que deve a si e aos outros o cumprimento pleno das suas capacidades.
Era a verdadeira receita para o fim da crise.
Chamem-me conservador. I don't care.