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quinta-feira, setembro 01, 2011

Águas turvas


Tenho as maiores reservas sobre a privatização da empresa Águas de Portugal.

É certo que também tenho sérias dúvidas sobre a competência e a seriedade dos que actualmente a gerem e não esqueço aquela decisão recente da sua administração em renovar a sua frota automóvel com 400 novas viaturas, decisão que provocou a compreensível indignação de muitos cidadãos a ponto de a mesma administração e respectiva tutela concluirem que era melhor emendarem o disparate. Mas isso é outra conversa.

A água é como o ar: são bens naturais sem os quais não há vida. E assim como ainda não pagamos para respirar, também não deveriamos pagar para beber. É evidente que se quisermos usufruir da comodidade de ter água potável na torneira da nossa casa, é curial que paguemos esse serviço, que nos poupa o tempo e a maçada de carregar a bilha da fonte.

A ideia de entregar à lógica de mercado a gestão dos nossos aquíferos incomoda-me. É verdade que o Estado português é um péssimo gestor e deixou de ser uma pessoa de bem, mas o que importa é corrigi-lo em vez de o demitir das suas funções essenciais. As águas portuguesas pertencem aos portugueses e, portanto, à falta de melhor, devem ser entidades públicas a assumir a responsabilidade da sua gestão sustentável.

Privatizar a água que bebemos e com que nos lavamos é admitir que um dia destes eu tenha de pedir licença ao Sr. Eduardo dos Santos para matar a sede ou à D. Isabel para tomar um duche. Por favor, não turvem a água.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Olhar-se ao espelho (2)

Minsk, 20/12/2010, polícia dispersando manifestação da oposição



Ao correr dos dias vão-se conhecendo mais pormenores sobre a brutalidade do regime Mubarak. Não se tratam de casos isolados da mera autoria de um ou outro agente em pânico ou desequilibrado: é a mentalidade e o estado de espírito comum dos que exercem há anos impunemente um poder despótico. Espancar nas esquadras, atropelar nas avenidas, disparar a sangue frio na testa de manifestantes desarmados, roubar, violar, extorquir, perseguir, não são factos de há três semanas, mas o quotidiano de um regime silenciosamente violento e brutal.

Há vários, demasiados ‘Egiptos’ por esse mundo fora. Há Cubas, Chinas, Birmânias, Cazaquistões, Irãos, etc, onde sangram em caves gentes desgraçadas. Esses gritos de dor são abafados pelos negócios e pelos interesses de quem se diz democrata e defensor dos direitos do Homem, mas que hipocritamente se escondem atrás da ideia de que as relações de Estado a Estado permitem essa duplicidade entre o discurso e a acção.

Ainda recentemente várias organizações internacionais denunciaram a farsa das eleições que há poucas semanas se realizaram na Bielorússia, bem como as perseguições que ali se fazem aos opositores e à imprensa. Aqui no Porto temos como cônsul desse regime pôdre e autocrático o vice-presidente do PSD, de seu nome Marco António. Ouçam o que ele tem a dizer sobre o Egipto e tirem as vossas conclusões.

Ainda no Porto, temos outro destacado dirigente do PSD como cônsul da Rússia de Putin, a mesma Rússia que gere esses processos incríveis contra Jodorkovsky, para já nem mencionar a natureza mafiosa de um regime onde são impunemente assassinados jornalistas que denunciam a corrupção e a mentira. Para o deputado social-democrata Eng° Couto dos Santos essas coisas não têm importância ou ainda não têm importância. Ouçam o que ele tem a dizer sobre o Egipto e tirem as vossas conclusões.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Olhar-se ao espelho



Assistir em directo ao estertor de uma autocracia é empolgante, mesmo se estamos distantes e no conforto da poltrona.
Chega a ser patética a ginástica de certas democracias ocidentais, entaladas entre os valores em que se fundam e os interesses rasteiros que as fizeram coniventes durante tantos anos dos piores títeres. A opressão criará sempre revolta, que pode tardar mas há-de acontecer.

Os governos portugueses participam à sua maneira naquela ginástica de flip-flop com os Mubaraks de trazer por casa, ao promoverem a estadistas uma camarilha de corruptos que se apoderou dos palácios de Luanda. Há respeitáveis financeiros portugueses que entendem prosperar atraindo investimentos dos que roubam quotidianamente o povo angolano. São saltos de trampolim sobre os mais elementares direitos do Homem, a pretexto de que do outro lado há um cheque ou um contrato.

Até ao dia em que, de repente, há relâmpagos em céu azul.
Treinem a espargata.

quinta-feira, março 18, 2010

Na minha rua

Israel fica longe, mas parece que a Palestina ainda fica mais longe.
Na verdade, para a maioria dos portugueses, aqueles soldados a dispararem fumos e balas e aqueles rapazes a atirarem pedras são já de uma monotonia enjoativa pois achamos que é sempre o mesmo cenário, os mesmos excitados, os mesmos terroristas, os mesmos calhaus e os mesmos discursos.

E ficamos tolhidos por receio de que uma crítica seja vista como uma manifestação anti-semita. Talvez por isso concluamos que é melhor nem nos darmos ao trabalho de tentar perceber o que se passa, tanto mais porque isso interessa a pouca gente deste canto e o risco não vale o ganho. E assim compramos os 'prêt-à-penser' que nos propõem nos escaparates dos media.

Mas o que ali se passa é grave demais e, apesar de parecer que é lá longe, está connosco, está dentro de nós: é a eterna questão de saber se devemos encolher os ombros face à injustiça e à arbitrariedade.
A actuação do governo israelita, a ocupação manu-militari de Jerusalém-leste, a perseguição quotidiana ao dia-a-dia do palestiniano da rua, o assédio ao árabe israelita, a provocação e a arrogância das actuais autoridades de Telaviv são afinal os principais aliados dos extremistas islâmicos; são-no consciente e voluntariamente. E essa agenda política, essa estratégia aventureira, deve ser denunciada e repudiada. Por uma questão de bom-senso e por uma questão de justiça.