
Finalmente consegui marcar uma visita ao colonato de Ofra, ao norte de Jerusalém, um dos primeiros colonatos em terra palestiniana do West Bank. Fundado pelo grupo politico-religioso de extrema direita Gush Emunim, que considera ter recebido de Deus o direito de ocupar a Palestina, do mar ao rio Jordão, a visita a este colonato anunciava-se tensa.
O meu interlocutor esperava-me no portão de segurança de acesso ao colonato. Num tom de voz pousado e conciliador, este filho de embaixador e sobrinho do único Prémio Nobel de Economia em Israel explicou-me as razões que o fizeram decidir vir viver para aqui . “Viver entre familias com os mesmos objectivos e as mesmas ideias.”, diz.” Uma comunidade , aberta a quem queira vir, de esquerda ou de direita, mas cumpridores das regras do “shabat” – sem carro nem televisão ”, precisa.
“A minha mulher é uma judia ortodoxa e cumpre as regras vestimentais – mangas e saias compridas, cabeça coberta . No entanto, se for dar uma volta pelo colonato poderá ver que há quem se vista sem este rigor. Mas no “shabat” ninguém vê televisão e os carros ficam nas garagens. E esta atmosfera agrada-me.”
“Mas porque razão vir viver para terra ocupada, quando este tipo de comunidades existe em Israel?” pergunto
“ Há quem venha para os colonatos por motivos económicos (casas mais baratas, incentivos dados pelo Estado no ambito da política de expansão e ocupação)” explica. “ A minha família veio por razões ideológicas. Deus deu-nos esta terra e é nosso dever ocupá-la .”
Todas as noites, Jerusalém é invadida por cerca de 15000 jovens da periferia, na maioria vindos dos colonatos próximos, como o de Ofra, em busca de droga, bebidas fortes e violência. A atmosfera consensual que o meu interlocutor me explica poder viver em Ofra, não parece interessar estes jovens.
“É um grande problema que tentamos resolver “ admite .” O desmantelamento dos colonatos em Gaza traumatizou muitos destes jovens que se sentiram traídos pelo governo. Para eles e para nós Sharon foi um traidor” ,conclui.
A satisfação que sentem quando , Uzi no ombro, se lançam em acções violentas de ocupação e usurpação das terras das aldeias palestinianas vizinhas, já não lhes chega, penso eu.
O rabi garantira-lhes que Deus nunca permitiria serem expulsos de Gaza. E Deus permitiu.
Maria
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