sábado, julho 30, 2011
sexta-feira, julho 29, 2011
Na margem, de pé

Quando o fecharam naquele cubículo, sentou-se no chão, encostado à parede, a fixar a porta como que hipnotizado. Sentia uma opressão no peito, mas ao mesmo tempo aliviava-o a certeza de que a partir de agora outros decidiriam o seu futuro e a sua vida.
Havia de espreitar por aquele postigo estreito por onde entrava a luz da tarde, mas para já apenas o observava enquanto sentia o frio do cimento picar-lhe as nádegas. Havia de experimentar o colchão, mas mais tarde, depois de adivinhar cada mancha de ferrugem nos gonzos e trincos da porta. Deve aprender-se devagar o que é uma cela de esquadra, até porque não há razões para ter pressa.
Tinha seguramente tombado ao mais baixo patamar da escala social, ao ponto mais negro da reprovação pública. Pensava que traíra afinal as esperanças do pai, as expectativas das senhoras, o discurso do reitor, a amizade de alguns colegas, a memória da mãe e os esforços da catequista. Iria para o inferno e, como os olhos não ficam em cinzas, havia de ver os dedos acusadores de todos eles apontados para si.
Mas aquilo não era o inferno, pelo contrário: a humidade já a sentia nas costas e nas pernas. Antes do inferno, ainda poderia espreitar pelo postigo e estender-se no colchão. Tinha tempo e sabia que atrás deste mais tempo viria. Apercebendo-se de que já mais nada podia piorar, deixou de se preocupar. Levantou-se lentamente, com a leveza de uma alma esvaziada e a experimentar pela primeira vez a sensação de abandono e de ligeireza de quem já não tem mais nada a perder e de que, portanto, se é definitivamente dono de si próprio, bem conhecida do jogador que perde tudo e regressa a casa a deitar-se, cansado e arruinado mas sereníssimo.
Foi assim um homem livre que espreitou a horta para onde dava o postigo, que bebeu da torneira do canto um gole de água a saciar uma sede sem angústia, que se estendeu num colchão poeirento, a dormir um sono tranquilo. Saíra da corrente, estava na margem e estava de pé.
........
As privatizações (1)

Nunca percebi muito bem porque raio necessita o Estado de ter uma televisão pública. As obrigações de serviço público não se evaporam se apenas existirem empresas privadas de televisão. Tudo isso é regulamentável.
Aliás, se a argumentação normalmente usada para contrariar a privatização da RTP fosse pertinente, então seria natural que também houvesse pelo menos um diário generalista do Estado a dar-nos a versão oficiosa do incêndio da Lourinhã e da morte da vaca do Sr. Asdrúbal e a “educar-nos” culturalmente.
Mas quando ouço os rebelos e balsemões da nossa praça avisarem que o bolo publicitário não chega para todos e que a privatização da RTP seria uma manobra mal-avisada para os afundar, dá-me um ataque de azia: é que na cabeça dessas sumidades vinga a ideia de que o contribuinte deve continuar a suportar os buracos da televisão pública para que suas excelências mantenham as suas quintas. Não será isso uma versão mais sofisticada daquele programa cultural de alto valor acrescentado “Quem perde, ganha”?
quarta-feira, julho 27, 2011
Lojas e Opus

O folhetim que se passa na Caixa Geral de Depósitos em torno das novas nomeações para a sua administração, para a comissão executiva e para outros cargos é deprimente e entristecedor.
O sempre-em-pé Machete, coleccionador de lugares e sinecuras apesar de nunca saber nada e de sempre lavar as mãos quando arrebentam escândalos debaixo das suas solas, o sabe-tudo Nogueira Leite, para quem todos os que dele discordem são uns ignorantes atrevidos, e o sabe-nada-mas-toca-a-tudo Rebelo de Sousa, de seu nome Pedro para se distinguir do mano Marcelo, lá se guindam ao “ainda banco de todos nós”, denominação que gente com piada usa para se referir ao banco de todos eles.
Mau, mau Maria.
terça-feira, julho 26, 2011
Despacho nº1/XII
Sempre tive muita dificuldade em julgar porque aguardo sempre uma justificação para o que me parece indefensável, espero sempre por um ponto de vista mais bem fundado que o meu, teço argumentos convincentes a favor do que quero condenar, temo a invocação de regras de paridade de situações e de tratamento a justificar a manutenção de certos regimes e de certas benesses, mas não consigo imaginar nada que consiga justificar, no momento que o país atravessa, a concessão dos benefícios que são atribuídos pelo despacho da actual Presidente da Assembleia da República a Mota Amaral. Num momento em que nos estão a ser pedidos os sacrifícios que sabemos, no exacto momento em que continuamos sem saber o que nos vai ser imposto ainda, parece-me infeliz, para não dizer mais, a concessão de certos privilégios e a sua aceitação. A menção que é feita pelo despacho abaixo transcrito a uma viatura BMW, modelo 320, e aos serviços de um motorista pessoal a favor do ex presidente da Assembleia da República chega a ser provocatória para todos os portugueses – e não são uma minoria - que se defrontam com um aumento do custo dos transportes que, no próximo mês, e no caso do metro e dos comboios, pode ir aos 22%. O espírito cristão tem, ao que penso, outras regras.
Despacho n.º 1/XII — Relativo à atribuição ao ex-Presidente da Assembleia da República Mota Amaral de um gabinete próprio, com a afectação de uma secretária e de um motorista do quadro de pessoal da Assembleia da República.
Ao abrigo do disposto no artigo 13.º da Lei de Organização e Funcionamento dos Serviços da Assembleia da República (LOFAR), publicada em anexo à Lei n.º 28/2003, de 30 de Julho, e do n.º 8, alínea a), do artigo 1.º da Resolução da Assembleia da República n.º 57/2004, de 6 de Agosto, alterada pela Resolução da Assembleia da República n.º 12/2007, de 20 de Março, determino o seguinte:
a) Atribuir ao Sr. Deputado João Bosco Mota Amaral, que foi Presidente da Assembleia da República na IX Legislatura, gabinete próprio no andar nobre do Palácio de São Bento;
b) Afectar a tal gabinete as salas n.º 5001, para o ex-Presidente da Assembleia da República, e n.º 5003, para a sua secretária;
c) Destacar para o desempenho desta função a funcionária do quadro da Assembleia da República, com a categoria de assessora parlamentar, Dr.a Anabela Fernandes Simão;
d) Atribuir a viatura BMW, modelo 320, com a matrícula 86-GU-77, para uso pessoal do ex-Presidente da Assembleia da República;
e) Encarregar da mesma viatura o funcionário do quadro de pessoal da Assembleia da República, com a qualificação de motorista, Sr. João Jorge Lopes Gueidão;
f) Atribuir ao ex-Presidente da Assembleia da República telemóvel de serviço, em termos equiparados aos Vice-Presidentes da Mesa.
Palácio de São Bento, 21 de Junho de 2011 (Diário da Assembleia da República, II Série E, nº 1, 24 de Junho de 2011)
A Presidente da Assembleia da República, Maria da Assunção Esteves.
Despacho n.º 1/XII — Relativo à atribuição ao ex-Presidente da Assembleia da República Mota Amaral de um gabinete próprio, com a afectação de uma secretária e de um motorista do quadro de pessoal da Assembleia da República.
Ao abrigo do disposto no artigo 13.º da Lei de Organização e Funcionamento dos Serviços da Assembleia da República (LOFAR), publicada em anexo à Lei n.º 28/2003, de 30 de Julho, e do n.º 8, alínea a), do artigo 1.º da Resolução da Assembleia da República n.º 57/2004, de 6 de Agosto, alterada pela Resolução da Assembleia da República n.º 12/2007, de 20 de Março, determino o seguinte:
a) Atribuir ao Sr. Deputado João Bosco Mota Amaral, que foi Presidente da Assembleia da República na IX Legislatura, gabinete próprio no andar nobre do Palácio de São Bento;
b) Afectar a tal gabinete as salas n.º 5001, para o ex-Presidente da Assembleia da República, e n.º 5003, para a sua secretária;
c) Destacar para o desempenho desta função a funcionária do quadro da Assembleia da República, com a categoria de assessora parlamentar, Dr.a Anabela Fernandes Simão;
d) Atribuir a viatura BMW, modelo 320, com a matrícula 86-GU-77, para uso pessoal do ex-Presidente da Assembleia da República;
e) Encarregar da mesma viatura o funcionário do quadro de pessoal da Assembleia da República, com a qualificação de motorista, Sr. João Jorge Lopes Gueidão;
f) Atribuir ao ex-Presidente da Assembleia da República telemóvel de serviço, em termos equiparados aos Vice-Presidentes da Mesa.
Palácio de São Bento, 21 de Junho de 2011 (Diário da Assembleia da República, II Série E, nº 1, 24 de Junho de 2011)
A Presidente da Assembleia da República, Maria da Assunção Esteves.
Acerca de uma notícia no Público
De acordo com o Público de 26 Julho 2011, um estudo publicado na American Sociological Review refere que a disparidade de vencimentos entre os trabalhadores do sector privado tem –se agravado nos últimas décadas nos EUA. A causa, segundo o mesmo estudo, deve-se à redução do número de trabalhadores sindicalizados.
Os sindicatos necessitam de um rejuvenescimento e actualização ideológicas de modo a conseguirem abranger outras áreas da sociedade até agora afastadas perante o anquilosamento das suas estruturas dirigentes. Necessitam igualmente de, não só se preocuparem com os interesses (por vezes legítimos, por vezes egoístas) dos seus associados, como também na verificação e monitorização da qualidade de trabalho efectuado. Seria uma verdadeira Glasnost…
Um desafio para o futuro!
Miguel Lume
Os sindicatos necessitam de um rejuvenescimento e actualização ideológicas de modo a conseguirem abranger outras áreas da sociedade até agora afastadas perante o anquilosamento das suas estruturas dirigentes. Necessitam igualmente de, não só se preocuparem com os interesses (por vezes legítimos, por vezes egoístas) dos seus associados, como também na verificação e monitorização da qualidade de trabalho efectuado. Seria uma verdadeira Glasnost…
Um desafio para o futuro!
Miguel Lume
sexta-feira, julho 22, 2011
A nova sintaxe

De repente, a generalidade dos comentadores e analistas que falam nas televisões tugas descobriu que a cimeira europeia aprovou o que eles próprios já defendiam há não sei quantos meses. A verdade é que eu não me lembro de ouvir muita gente propôr a reestruturação das dívidas ou denunciar a abusiva diferença de juros, mas o problema deve ser do meu Alzheimer galopante e não da desvergonha intelectual destes iluminados caseiros.
Entretanto impôs-se a evidência da necessidade de um perdão parcial da dívida, embora a coisa venha embrulhada num chorrilho de mecanismos e de palavrões. O curioso é que aqueles europeístas de pacotilha insistem em deixar bem claro que o ovo é exclusivamente grego e que o petisco não estará disponível para mais ninguém. Ainda há quem diga que a União é uma comunidade de Direito.
Eles dizem tanta coisa...
quinta-feira, julho 21, 2011
A Paz e a Europa II
A mão Amiga do camarada Nortadas Farripas fez-me chegar o texto integral da Declaração de 9 de Maio de 1950, de Robert Schuman, ministro francês dos Negócios Estrangeiros. Aqui vai:
"A paz mundial não poderá ser salvaguardada sem esforços criativos à altura dos perigos que a ameaçam.
O contributo que uma Europa viva e organizada pode dar à civilização é indispensável para a manutenção de relações pacíficas. Ao assumir-se há mais de 20 anos como defensora de uma Europa unida, a França teve sempre por objectivo essencial servir a paz. A Europa não foi construída, tivemos que enfrentar a guerra.
A Europa não se fará de uma só vez, nem numa construção de conjunto: far-se-á por meio de realizações concretas que criem primeiro uma solidariedade de facto. A união das nações europeias exige que seja eliminada a secular oposição entre a França e a Alemanha: a acção deve envolver principalmente estes dois países.
Com esse objectivo, o Governo francês propõe actuar imediatamente num plano limitado mas decisivo:
«O Governo francês propõe subordinar o conjunto da produção franco-alemã de carvão e de aço a uma Alta Autoridade comum, numa organização aberta à participação dos outros países da Europa.»
Colocar em comum as produções de carvão e de aço garantirá imediatamente o estabelecimento de bases comuns de desenvolvimento económico, primeira etapa da federação europeia, e mudará o destino de regiões durante muito tempo condenadas ao fabrico de armas de guerra, das quais foram as primeiras vítimas.
A solidariedade de produção assim alcançada revelará que qualquer guerra entre a França e a Alemanha se torna não só impensável como também materialmente impossível. A criação desta poderosa unidade de produção aberta a todos os países que nela queiram participar permitirá fornecer a todos os países que a compõem os elementos fundamentais da produção industrial em condições idênticas, e lançará os fundamentos reais da sua unificação económica.
Esta produção será oferecida a todos os países do mundo sem distinção nem exclusão, a fim de participar na melhoria do nível de vida e no desenvolvimento das obras de paz. Com meios acrescidos, a Europa poderá prosseguir a realização de uma das suas funções essenciais: o desenvolvimento do continente africano.
Assim se realizará, simples e rapidamente, a fusão de interesses indispensável à criação de uma comunidade económica e introduzirá o fermento de uma comunidade mais vasta e mais profunda entre países durante muito tempo opostos por divisões sangrentas."
"A paz mundial não poderá ser salvaguardada sem esforços criativos à altura dos perigos que a ameaçam.
O contributo que uma Europa viva e organizada pode dar à civilização é indispensável para a manutenção de relações pacíficas. Ao assumir-se há mais de 20 anos como defensora de uma Europa unida, a França teve sempre por objectivo essencial servir a paz. A Europa não foi construída, tivemos que enfrentar a guerra.
A Europa não se fará de uma só vez, nem numa construção de conjunto: far-se-á por meio de realizações concretas que criem primeiro uma solidariedade de facto. A união das nações europeias exige que seja eliminada a secular oposição entre a França e a Alemanha: a acção deve envolver principalmente estes dois países.
Com esse objectivo, o Governo francês propõe actuar imediatamente num plano limitado mas decisivo:
«O Governo francês propõe subordinar o conjunto da produção franco-alemã de carvão e de aço a uma Alta Autoridade comum, numa organização aberta à participação dos outros países da Europa.»
Colocar em comum as produções de carvão e de aço garantirá imediatamente o estabelecimento de bases comuns de desenvolvimento económico, primeira etapa da federação europeia, e mudará o destino de regiões durante muito tempo condenadas ao fabrico de armas de guerra, das quais foram as primeiras vítimas.
A solidariedade de produção assim alcançada revelará que qualquer guerra entre a França e a Alemanha se torna não só impensável como também materialmente impossível. A criação desta poderosa unidade de produção aberta a todos os países que nela queiram participar permitirá fornecer a todos os países que a compõem os elementos fundamentais da produção industrial em condições idênticas, e lançará os fundamentos reais da sua unificação económica.
Esta produção será oferecida a todos os países do mundo sem distinção nem exclusão, a fim de participar na melhoria do nível de vida e no desenvolvimento das obras de paz. Com meios acrescidos, a Europa poderá prosseguir a realização de uma das suas funções essenciais: o desenvolvimento do continente africano.
Assim se realizará, simples e rapidamente, a fusão de interesses indispensável à criação de uma comunidade económica e introduzirá o fermento de uma comunidade mais vasta e mais profunda entre países durante muito tempo opostos por divisões sangrentas."
quarta-feira, julho 20, 2011
Armas a dar c’um pau
Por opção nunca tive arma de defesa, pois sei que não teria a coragem suficiente para premir o gatilho, preferindo arriscar-me a levar duas bofetadas do que um tiro, caso a exibisse a alguém que também estivesse armado. Aliás, nunca consegui perceber a diferença entre arma de defesa ou de ataque. A mim parecem-me todas iguais.
Mesmo tendo decidido andar desarmado, há alguns anos atrás fui parado ao entrar na sala de embarque do aeroporto, onde me aprenderam uma arma que eu julgava não ter. Tratava-se, imagine-se, da minha pequena e velha tesoura para unhas, que sempre até então viajava comigo, mas entretanto classificada como arma, e logo de ataque. Passada a vergonha, meti-a num envelope onde escrevi o meu nome e pedi ao polícia que me parara para o guardar, que dentro de dias passaria o apanhá-lo. No regresso lá recuperei a dita tesoura e, a partir daí, sempre que viajo só com bagagem de mão, tenho o cuidado de deixar aquela minha potente arma em casa.
Depois da tesourinha foram os frasquinhos que também começaram a ser tratados como armas. Lá tive que comprar espuma de barbear em embalagem mais pequena, pois que a sua classificação como arma dependia de uma qualquer cubicagem. Claro que em casa continuo a ter a de tamanho normal, que sempre dura mais tempo, e quando viajo de carro também, pois que, até ver, os hotéis vão-me aceitando assim ferozmente armado.
No entanto, nunca havia percebido como a espuma de barbear, que me continua a parecer coisa inofensiva, poderia ser usada como arma de ataque.
Até que ontem a vi em acção na audiência ao Sr. Murdoch.
Felizmente só o seu casaco ficou gravemente ferido, pelo que pôde continuar a ser ouvido em mangas de camisa.
Mesmo tendo decidido andar desarmado, há alguns anos atrás fui parado ao entrar na sala de embarque do aeroporto, onde me aprenderam uma arma que eu julgava não ter. Tratava-se, imagine-se, da minha pequena e velha tesoura para unhas, que sempre até então viajava comigo, mas entretanto classificada como arma, e logo de ataque. Passada a vergonha, meti-a num envelope onde escrevi o meu nome e pedi ao polícia que me parara para o guardar, que dentro de dias passaria o apanhá-lo. No regresso lá recuperei a dita tesoura e, a partir daí, sempre que viajo só com bagagem de mão, tenho o cuidado de deixar aquela minha potente arma em casa.
Depois da tesourinha foram os frasquinhos que também começaram a ser tratados como armas. Lá tive que comprar espuma de barbear em embalagem mais pequena, pois que a sua classificação como arma dependia de uma qualquer cubicagem. Claro que em casa continuo a ter a de tamanho normal, que sempre dura mais tempo, e quando viajo de carro também, pois que, até ver, os hotéis vão-me aceitando assim ferozmente armado.
No entanto, nunca havia percebido como a espuma de barbear, que me continua a parecer coisa inofensiva, poderia ser usada como arma de ataque.
Até que ontem a vi em acção na audiência ao Sr. Murdoch.
Felizmente só o seu casaco ficou gravemente ferido, pelo que pôde continuar a ser ouvido em mangas de camisa.
terça-feira, julho 19, 2011
A Paz e a Europa
Há dias, o Pedro Norton lembrava na Visão que os actuais líderes europeus não têm memória da guerra. Essa reflexão é importante, assim como é importante lembrar que a Europa é um projecto de Paz. Tudo nasceu com a colocação em comum dos elementos da guerra (o carvão, o aço e a energia atómica), e com a visão pacifista de grandes líderes europeus do pós-guerra.
O fim da Europa enquanto projecto económico tem evidentemente efeitos nocivos. Pode significar um retrocesso económico de 2 ou 3 décadas (quem sabe ao certo?). Mas se tudo ficar por aí, menos mal. O que causa angústia é que sem este projecto comum a Europa poderá cair novamente (como sempre aconteceu na História) em conflitos bélicos internos que são agora, para a nossa geração, inimagináveis. Nesse caso, a perda de capital físico e de vidas humanas terá proporções e efeitos impensáveis.
Parece a um leigo como eu que estamos perante um problema monetário. É preciso dar os passos na resolução desse problema. Uma reserva europeia, um orçamento comum, a unidade das práticas fiscais e laborais. No fundo, o aprofundamento político, económico e monetário. Ou isso ou muito provavelmente o fim da Paz.
O fim da Europa enquanto projecto económico tem evidentemente efeitos nocivos. Pode significar um retrocesso económico de 2 ou 3 décadas (quem sabe ao certo?). Mas se tudo ficar por aí, menos mal. O que causa angústia é que sem este projecto comum a Europa poderá cair novamente (como sempre aconteceu na História) em conflitos bélicos internos que são agora, para a nossa geração, inimagináveis. Nesse caso, a perda de capital físico e de vidas humanas terá proporções e efeitos impensáveis.
Parece a um leigo como eu que estamos perante um problema monetário. É preciso dar os passos na resolução desse problema. Uma reserva europeia, um orçamento comum, a unidade das práticas fiscais e laborais. No fundo, o aprofundamento político, económico e monetário. Ou isso ou muito provavelmente o fim da Paz.
segunda-feira, julho 18, 2011
18 de Julho

Em 1936 começou a guerra civil de Espanha, quando no norte de África, as forças comandadas pelo general Francisco Franco, passaram a controlar o Marrocos espanhol.
A 18 de Julho, em território europeu, tropas rebeldes declaram-se favoráveis ao golpe.
Os Franquistas diziam que apenas se defendiam do que consideravam ser os crimes da república, iniciados em 1934. Possivelmente a reacção Portuguesa, anos antes, terá inspirado essa revolução.
Os objectivos eram ambiciosos.
Espanha ficou una, grande e livre?
Como está hoje a Espanha? Podemos assistir a uma nova reacção violenta no nosso país vizinho ?
Não há fartura que não dê em fome...
Este fim de semana houve o festival Marés Vivas em Gaia, o Porto Sounds na baixa, Ana Carolina no Coliseu, um concerto no Douro e sabe-se lá mais o quê!
Será que não era boa ideia os agentes culturais do Grande Porto articularem a programação com coerência e haver mais cultura bem distribuida ao longo do ano?
A cena repete-se com os chamados festivais de verão. Patrocinados por cervejas, laranjadas e telemóveis, sucedem-se em datas exageradamente próximas, criando dificuldades obvias a quem tiver vontade de musica. Primeiro, é preciso não fazer mais nada na vida, o trabalho colide seriamente com os agendamentos dos festivais. Segundo, não trabalhando, como é que se arranja o dinheiro para fazer face ao orçamento que cada festival implica? Terceiro, percebe-se o porquê de um público maioritariamente adolescente: é um compromisso, os pais estão a trabalhar e a tentar ganhar o dinheiro que os filhos já de férias gastam nos festivais...
Por fim, resta dizer que os cartazes têm sido de grande qualidade e que eu ando danado de perder tanto concerto!
Será que não era boa ideia os agentes culturais do Grande Porto articularem a programação com coerência e haver mais cultura bem distribuida ao longo do ano?
A cena repete-se com os chamados festivais de verão. Patrocinados por cervejas, laranjadas e telemóveis, sucedem-se em datas exageradamente próximas, criando dificuldades obvias a quem tiver vontade de musica. Primeiro, é preciso não fazer mais nada na vida, o trabalho colide seriamente com os agendamentos dos festivais. Segundo, não trabalhando, como é que se arranja o dinheiro para fazer face ao orçamento que cada festival implica? Terceiro, percebe-se o porquê de um público maioritariamente adolescente: é um compromisso, os pais estão a trabalhar e a tentar ganhar o dinheiro que os filhos já de férias gastam nos festivais...
Por fim, resta dizer que os cartazes têm sido de grande qualidade e que eu ando danado de perder tanto concerto!
domingo, julho 17, 2011
Cavaquices
Depois de um primeiro mandato em que chegou a pecar por um exagerado, e por vezes mesmo inoportuno, silêncio, Cavaco virou agora palavroso.
Creio que ainda todos se recordarão do episódio das escutas a Belém, cujo absurdo silêncio bem prejudicou Ferreira Leite, só muito tarde explicado com patéticas declarações ao país e nenhuma explicação.
Mas desde que Sócrates se decidiu dedicar a Sócrates tem sido um ver se te avias. Patatá para aqui, patati para acolá e prontos, lá vai fazendo as suas recomendações ao novo governo, e à própria Europa, pois que os jovens são tontos e o papá é que sabe.
Esta semana, depois de se intrometer na saúde e de verberar as agências de notação, veio ainda a público defender a desvalorização do euro face ao dólar. Ao que diz, para aumentar a competitividade europeia...
Claro que o BE logo se congratulou!
É sabido que Cavaco não morre de amores por Passos Coelho. Eu também não. Mas não estou sempre a tentar entalá-lo.
O pior é que, como sucedera já no tempo Soares/Cavaco, voltamos a ter um país a duas vozes, coisa que a Europa tem dificuldade em digerir. Só que agora é Cavaco quem está sentado na cadeira de Soares...
Creio que ainda todos se recordarão do episódio das escutas a Belém, cujo absurdo silêncio bem prejudicou Ferreira Leite, só muito tarde explicado com patéticas declarações ao país e nenhuma explicação.
Mas desde que Sócrates se decidiu dedicar a Sócrates tem sido um ver se te avias. Patatá para aqui, patati para acolá e prontos, lá vai fazendo as suas recomendações ao novo governo, e à própria Europa, pois que os jovens são tontos e o papá é que sabe.
Esta semana, depois de se intrometer na saúde e de verberar as agências de notação, veio ainda a público defender a desvalorização do euro face ao dólar. Ao que diz, para aumentar a competitividade europeia...
Claro que o BE logo se congratulou!
É sabido que Cavaco não morre de amores por Passos Coelho. Eu também não. Mas não estou sempre a tentar entalá-lo.
O pior é que, como sucedera já no tempo Soares/Cavaco, voltamos a ter um país a duas vozes, coisa que a Europa tem dificuldade em digerir. Só que agora é Cavaco quem está sentado na cadeira de Soares...
sábado, julho 16, 2011
Porque hoje é Sábado
sexta-feira, julho 15, 2011
Um outro tipo de bigode

Morreu há dias, com 98 anos, o Arquiduque Otto von Habsburg, que desde 1966, depois de renunciar ao trono de Imperador da Áustria, se apresentava como o Sr. Habsburg-Lothringen.
Apesar de me assumir como um republicano empedernido, julgo-me ainda capaz de reconhecer valor onde tal se encontra: Otto von Habsburg era um homem superior.
Ainda jovem estudante recusou firmemente encontrar-se com Hitler e em 1938, quando a elite política vienense aclamava o Anschluss nazi, tentou regressar ao país para se juntar à resistência, não obstante as ordens hitlerianas de o matarem mal o encontrassem.
Foi membro do Parlamento Europeu a partir de 1979 e acreditava numa verdadeira integração europeia sem nunca perder a lucidez e as maiores reservas face à burocracia bruxelense. No Verão de 1989 patrocinou um pic-nic transfronteiriço entre a Hungria e a Áustria que permitiu a fuga de centenas de húngaros e constituiu o começo da derrocada dos regimes pró-soviéticos dos países do leste europeu.
Não sei se tinha telemóvel, mas sei que nunca aceitaria qualquer convite, por muito ‘urgente’ que fosse, de um ditador ou de um criminoso. Devia servir de exemplo.
Ora bolas...
quinta-feira, julho 14, 2011
Arca de Noé (4)
Eureka: adiando-se a reunião, talvez o cavalo fale.
quarta-feira, julho 13, 2011
Arca de Noé (3)

A Sexta de todos os perigos é já depois de amanhã.
Há um Conselho Europeu extraordinário que se reune em Bruxelas e nesse mesmo dia serão dados a conhecer os resultados dos testes de resistência aos bancos europeus.
Onde antes se diabolizava qualquer conversa sobre uma eventual reestruturação das dívidas soberanas, agora discute-se a baixa dos juros, o prolongamento dos prazos e o perdão de partes da dívida, sob capa do eufemismo “participação do sector privado”. Mas ainda vai demorar o seu tempo a ideia de emitir eurobonds.
Ora, tempo é coisa que já se esgotou no mercado e esta lentidão é mortal. No outro dia o presidente da Comissão anunciava que iria propôr a regulamentação das agências de rating, assunto, dizia ele, sobre o qual já pensara há dois anos. Mas, espanto dos espantos, a coisa será para propôr no Outono, que como se sabe dura até 21 de Dezembro. Se considerarmos que uma proposta ainda demora em média dois anos a ser discutida e aprovada, ficamos entendidos quanto ao sentido de urgência destes senhores.
Por cá, fala-se muito em transparência e não há ex-responsável político que não formule uma receita e as suas críticas aos erros passados, mas nenhum assume a sua responsabilidade e todos aceitam que não é preciso fazer uma auditoria independente às contas públicas por receio de que debaixo do tapete nos saia um monstro grego embrulhado em mentiras e manipulações.
Uma pergunta e uma sugestão:
Qual é a companhia de seguros onde se vêm centralizando os CDS (credit default securities)? Suíça, francesa ou inglesa?
A sugestão é criar uma agência de rating para os dirigentes políticos, já que o lixo está na moda.
segunda-feira, julho 11, 2011
Arca de Noé (2)

20% de juros significa que o credor recebeu o total do capital em 5 anos e que o devedor ainda deve, ao fim desses 5 anos, o total do capital.
Significa que em 10 anos pagou ao credor duas vezes o capital, mas que ao fim desses 10 anos ainda lhe deve a integralidade do montante.
Os responsáveis políticos que em qualquer país, nomeadamente em Portugal, pretendam que tais dívidas têm de ser pagas não são apenas uns irresponsáveis. São uns aldrabões com passaporte debaixo do travesseiro.
domingo, julho 10, 2011
O partido socialista
Um PS credível e a trabalhar em prol de Portugal é o que eu gostava de ver sair destas eleições que opôem Assis a Seguro. O que todos apostam é na vitória de Seguro que "seguramente" é o protótipo do politico de aparelho, silenciosos e matreiro. Assis parece ter bastante mais "sumo" mas falta-lhe o aparelho. Claro que se a coisa se decidisse em congresso o resultado podia ser diferente, mas serão as máquinas locais que em eleições directas vão fazer sentir o seu peso.
Mas pensando bem pode ser que sendo Seguro a ganhar o PS não se reorganize, não se entenda, e dessa forma passem uns anitos na oposição e assim a coligação CDS/PSD possa endireitar Portugal.
Mas pensando bem pode ser que sendo Seguro a ganhar o PS não se reorganize, não se entenda, e dessa forma passem uns anitos na oposição e assim a coligação CDS/PSD possa endireitar Portugal.
MJNP e DV, dois exemplos a seguir
Maria José Nogueira Pinto e Diogo Vasconcelos partiram cedo demais. Um e outro foram exemplos de vida. Um e outro trabalharam em prol de Portugal. Era bom que os seus exemplos não se perdessem na espuma dos dias.
Maria José simbolizou o que de melhor se pode encontrar na politica: liberdade de pensamento, mesmo que isso a tivesse levado a abandonar o CDS, casa que penso era a sua. E a sua preocupação com os outros seguindo as melhores doutrinas da igreja católica era por demais conhecida.
Diogo simbolizou o Portugal criativo, o Portugal que acreditava nas suas capacidades. Não trabalhava por louvores ou comendas, mas sim por prazer em ver nascer as obras e poder dessa forma melhorar a vida de todos.
A melhor forma de os recordarmos é seguir-lhes o exemplo e se possível juntá-los em cada passo que damos na nossa vida. E o tempo obriga a que sejamos rápidos.
Maria José simbolizou o que de melhor se pode encontrar na politica: liberdade de pensamento, mesmo que isso a tivesse levado a abandonar o CDS, casa que penso era a sua. E a sua preocupação com os outros seguindo as melhores doutrinas da igreja católica era por demais conhecida.
Diogo simbolizou o Portugal criativo, o Portugal que acreditava nas suas capacidades. Não trabalhava por louvores ou comendas, mas sim por prazer em ver nascer as obras e poder dessa forma melhorar a vida de todos.
A melhor forma de os recordarmos é seguir-lhes o exemplo e se possível juntá-los em cada passo que damos na nossa vida. E o tempo obriga a que sejamos rápidos.
Um bigode

Duarte Pio de Bragança foi tomar chá a Damasco, a convite do criminoso Bashir el-Assad, o mesmo que brevemente será acusado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade. Parece que o criminoso lhe mandou uma mensagem ‘urgente’ e o Sr. Duarte Pio foi a correr.
Talvez por isso não tenha entretanto tido tempo de visionar isto ali: http://www.youtube.com/watch?v=w4CkzWNBOJo&feature=player_embedded#at=241
Era importante que o Ministro dos Negócios Estrangeiros confirmasse ou desmentisse que foi previamente informado desta deslocação do pretendente, tal como este o afirma. De qualquer forma, seria fundamental que o mesmo ministro esclareça rapidamente que se demarca desta iniciativa principesca.
O Sr. Duarte Pio tem, como qualquer outro português, inteira liberdade de movimentos mas seria de supôr que para um praticante católico, como gosta de se apresentar, tivesse preferido visitar as cadeias e não o carrasco. Este deve, aliás, ter-lhe agradecido as imagens que o mostrou na televisão síria ao lado de um tão destacado representante do gotha europeu.
Mas o D. Duarte, Duque de Bragança, não deve nem pode partilhar os salões de reles criminosos: envergonha os portugueses em geral e, em especial (estou em crer), os monárquicos. Façam-lhe um desenho, a ver se percebe.
2013 e a mudança autárquica
O mapa das freguesias e municípios vai mudar!
Grande parte dos presidentes dos seus órgaos executivos não será candidato.
O ar será, e bem, renovado.
O "boicote" que foi feito no congresso da ANMP pelos pricipais presidentes das "CM" é revelador da dificuldade em gerir e trabalhar o que nos foi imposto pelo triunvirato.
Há muito trabalho a fazer, mas só vamos mudar para melhor!
Grande parte dos presidentes dos seus órgaos executivos não será candidato.
O ar será, e bem, renovado.
O "boicote" que foi feito no congresso da ANMP pelos pricipais presidentes das "CM" é revelador da dificuldade em gerir e trabalhar o que nos foi imposto pelo triunvirato.
Há muito trabalho a fazer, mas só vamos mudar para melhor!
JLB
Acabo de ler que morreu o Jorge Lima Barreto. Confesso que nos últimos anos a rotina, as urgências do dia-a-dia, me roubaram da calma exigida para ouvir a sua música.
A notícia da sua morte fez-me regressar á sua obra, fez-me reflectir sobre a forma inclemente como o quotidiano nos afasta da genialidade, dos prazeres únicos que a arte proporciona.
Lembro-me de, nos idos de 80, o ver com o Vitor Rua num concerto memorável dos Telectu e de ter ficado arrebatado e fascinado, como da primeira vez que ouvi coisas tão diferentes como Stockhausen ou Kraftwerk. Foi um momento chave da minha formação musical.
Morreu um dos grandes da música. Rejeito o portuguesa e o contemporânea por motivos óbvios.
RIP.
A notícia da sua morte fez-me regressar á sua obra, fez-me reflectir sobre a forma inclemente como o quotidiano nos afasta da genialidade, dos prazeres únicos que a arte proporciona.
Lembro-me de, nos idos de 80, o ver com o Vitor Rua num concerto memorável dos Telectu e de ter ficado arrebatado e fascinado, como da primeira vez que ouvi coisas tão diferentes como Stockhausen ou Kraftwerk. Foi um momento chave da minha formação musical.
Morreu um dos grandes da música. Rejeito o portuguesa e o contemporânea por motivos óbvios.
RIP.
sábado, julho 09, 2011
quinta-feira, julho 07, 2011
Em honra e memória de uma grande Senhora
Nada me faltará
Acho que descobri a política - como amor da cidade e do seu bem - em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.
Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina, a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.
Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.
Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.
Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo.
Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e com coerência.
Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.
Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.
A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi--a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.
Também aqui servi o melhor que soube e pude. Bati-me por causas cívicas, umas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.
Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.
MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO
Acho que descobri a política - como amor da cidade e do seu bem - em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.
Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina, a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.
Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.
Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.
Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo.
Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e com coerência.
Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.
Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.
A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi--a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.
Também aqui servi o melhor que soube e pude. Bati-me por causas cívicas, umas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.
Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.
MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO
Arca de Noé
Como previsto, o Banco Central Europeu subiu novamente a taxa de referência. Antes do fim do ano voltará a subi-la. E continua a tomar em consideração as notações das agências de rating apesar da diabolização das mesmas por um certo pessoal político, nomeadamente a nível europeu.Há dois anos que esses mesmos dirigentes parlapeiam sobre o projecto de criar uma agência de rating europeia. Os chineses não hesitaram em criar a deles, mas os europeus preferem estes passos de dança na corda para a seguir carpirem como Madalenas, surpreendidos por haver lobos maus que comem avós e netas.
Entretanto, a generalidade dos responsáveis vai empurrando com a barriga uma crise que piora e apodrece, num faz de conta que três aspirinas e duas pomadas porão o cavalo a falar.
Gostava de acreditar que o nosso novo governo tem força, clarividência e coragem para perceber o temporal em formação e para preparar o day after, o dia do ‘salve-se quem puder’ e do ‘chega para lá que a bóia é minha’, mas dia a dia aumentam-se-me as dúvidas e, por muito boa vontade que tenham, receio que não estejam à altura do momento. A verdade é que a situação é extraordinária e de uma gravidade que nem todos enxergam, e gente extraordinária não se encontra ao dobrar da esquina. Temos talvez o governo possível mas o trágico é que precisariamos de um governo “impossível” que nos evitasse o destino grego e o abismo dessa Europa que segue a flauta, por receio de mudar de pauta.
Queria tanto estar enganado. Queria tanto não ser tremendista. Preferia sinceramente acreditar que em céu azul não há relampâgos nem trovões e que ainda vale a pena tomar uma bica na praia dos ingleses. C’est foutu!
SÓS
Nem sempre concordei com Maria José Nogueira Pinto, nem sempre gostei ou compreendi as suas atitudes e o seu percurso político. No entanto, Maria José Nogueira Pinto vai-me fazer falta. Já não existem muitas pessoas que representem e expressem como ela uma certa visão da vida, do mundo e de Portugal que eu de alguma forma admiro e que vai muito para além de questões políticas em sentido estrito ou de distinções entre esquerda ou direita. É certo que o Portugal que Maria José Nogueira Pinto sentia já não existe, nem voltará, mas a verdade é que ficamos pior e mais sós com a ausência de pessoas como ela, sobretudo nos tempos maus que atravessamos.
MJNP
Maria José Nogueira Pinto partiu hoje. Diferenças à parte, admirei sempre, e acima de tudo, a sua coragem, a capacidade de mostrar que á direita também se pensa bem a questão social, a sua intervenção até ao final, a dignidade com que viveu as maiores adversidades.
Com o marido, Jaime Nogueira Pinto, formou um casal/associação de enorme carisma, com um modo muito próprio de pensar Portugal e viver na direita.
Se a sua vida se confinou a uma curta duração, resta o consolo de se ter desenrolado numa enorme e permanente intensidade.
Perdemos uma grande Mulher.
Com o marido, Jaime Nogueira Pinto, formou um casal/associação de enorme carisma, com um modo muito próprio de pensar Portugal e viver na direita.
Se a sua vida se confinou a uma curta duração, resta o consolo de se ter desenrolado numa enorme e permanente intensidade.
Perdemos uma grande Mulher.
quarta-feira, julho 06, 2011
Maria José Nogueira Pinto
Tive a graça de conhecer de perto Maria José Nogueira Pinto.
A última vez que, pessoalmente, a vi foi quando a acompanhei, na qualidade de Secretário Geral Adjunto, até à entrada do carro que a retirou do Conselho Nacional do CDS a que presidia em Óbidos. Triste episódio que a "empurrou", contra sua vontade, para longe do CDS.
A sua elegância e categoria, forte presença, a sua superioridade humana, reforçada pelas adversidades que foi obrigada a suportar (vida num campo de refugiados), o seu exemplo cristão, o seu testemunho, a capacidade de aceitar a diversidade, o seu bom conselho, fez de si
uma Princesa da política.
A última vez que, pessoalmente, a vi foi quando a acompanhei, na qualidade de Secretário Geral Adjunto, até à entrada do carro que a retirou do Conselho Nacional do CDS a que presidia em Óbidos. Triste episódio que a "empurrou", contra sua vontade, para longe do CDS.
A sua elegância e categoria, forte presença, a sua superioridade humana, reforçada pelas adversidades que foi obrigada a suportar (vida num campo de refugiados), o seu exemplo cristão, o seu testemunho, a capacidade de aceitar a diversidade, o seu bom conselho, fez de si
uma Princesa da política.
segunda-feira, julho 04, 2011
Dignificar o parlamento
Uma das razões pelas quais fui contra o folhetim Fernando Nobre prendia-se com o facto de Nobre pretender ser presidente da Assembleia sem o merecer enquanto deputado. E tal argumento sustentado na minha visão do nobre trabalho desenvolvido pelos deputados. Ou por muitos pelo menos. Mais do que o suficiente para que Nobre não saltasse casas antes da chegada à meta.
Fernando Nobre
Perdeu-se o que seria um mau deputado e acabou o potencial candidato presidencial daqui a 5 anos.
Se Alegre se recandidatar de novo Mário Soares vai ter que arranjar outro candidato. Quanto a Passos Coelho espero que tenha percebido o erro que cometeu e que a bem de Portugal não repita tal.
Se Alegre se recandidatar de novo Mário Soares vai ter que arranjar outro candidato. Quanto a Passos Coelho espero que tenha percebido o erro que cometeu e que a bem de Portugal não repita tal.
O interesse nacional
Depois de duplamente chumbado para a Presidência da Assembleia da República, Fernando Nobre disse que se manteria como deputado enquanto o interesse nacional o exigisse. Hoje, poucos dias depois, renunciou ao mandato de deputado. Creio que interpretou bem o interesse nacional e agiu em conformidade.
Austeridade Grega
A Europa, ou o directório que a inspira, acedeu "ajudar" a Grécia se, e só se, esta cumprisse um novo plano de austeridade.
Esse plano, o quinto, terá mesmo que ser cumprido, sob pena de o país cair em incumprimento.
O parlamento grego acabou, pelo menos por enquanto, por serenar os ânimos inquietos europeus: o país endividado acabou por se endividar ainda mais.
Quem ganhou com esta aprovação? Deixo que as respostas alimentem o debate... mas Portugal e o novo plano de reformas do governo liderado por Passos Coelho ganharam tempo.
Miguel Lume»
Esse plano, o quinto, terá mesmo que ser cumprido, sob pena de o país cair em incumprimento.
O parlamento grego acabou, pelo menos por enquanto, por serenar os ânimos inquietos europeus: o país endividado acabou por se endividar ainda mais.
Quem ganhou com esta aprovação? Deixo que as respostas alimentem o debate... mas Portugal e o novo plano de reformas do governo liderado por Passos Coelho ganharam tempo.
Miguel Lume»
domingo, julho 03, 2011
Portugal - Grécia
A Grécia é nestes dias o quisto da Europa. É um país relapso, incumpridor, incapaz de inspirar níveis mínimos de confiança.
Os gregos são olhados pelos demais como um povo calaceiro, sem vontade mudar, aldrabão, incapaz de mudar de vida.
A irresponsabilidade, a facilidade com que se multiplica a guerrilha da rua e os motins, independentemente de qualquer ajuda paliativa, já puseram a Grécia e os gregos fora da Europa. Pela pior das vias, antes de qualquer exclusão formal, não há já no presente nenhum contibuinte europeu que não sinta a Grécia como um peso impertinente a carregar.
Não fora a dimensão e, essencialmente, a posição geo-estratégica e a Grécia já era.
O incumprimento de Espanha e de Portugal, a sua partilha mediterrânica, suscitam analogias que são da maior perigosidade para o nosso futuro.
Dar o exemplo, ser capaz de rigor, de cumprimento, inspirar a confiança dos pares europeus do norte desenvovido, é a única via possível de escape a uma terrível condição. Ainda que para isso tenhamos de suportar um indesejável imposto de excepção.
Os gregos são olhados pelos demais como um povo calaceiro, sem vontade mudar, aldrabão, incapaz de mudar de vida.
A irresponsabilidade, a facilidade com que se multiplica a guerrilha da rua e os motins, independentemente de qualquer ajuda paliativa, já puseram a Grécia e os gregos fora da Europa. Pela pior das vias, antes de qualquer exclusão formal, não há já no presente nenhum contibuinte europeu que não sinta a Grécia como um peso impertinente a carregar.
Não fora a dimensão e, essencialmente, a posição geo-estratégica e a Grécia já era.
O incumprimento de Espanha e de Portugal, a sua partilha mediterrânica, suscitam analogias que são da maior perigosidade para o nosso futuro.
Dar o exemplo, ser capaz de rigor, de cumprimento, inspirar a confiança dos pares europeus do norte desenvovido, é a única via possível de escape a uma terrível condição. Ainda que para isso tenhamos de suportar um indesejável imposto de excepção.
sábado, julho 02, 2011
Porque hoje é Sábado
sexta-feira, julho 01, 2011
BASTA JÁ
Pensava eu que tínhamos um novo governo mas afinal não: mantém-se a política de aumentar os impostos em vez de se tratar da redução de despesa.
Cavaco bem disse há dias que há limites para os sacrifícios que podem ser impostos aos portugueses mas o governo não o ouviu. O meu limite quanto aos impostos chegou. Se me aumentam mais o IRS passo à clandestinidade e mudo-me para a Serra da Agrela.
Cavaco bem disse há dias que há limites para os sacrifícios que podem ser impostos aos portugueses mas o governo não o ouviu. O meu limite quanto aos impostos chegou. Se me aumentam mais o IRS passo à clandestinidade e mudo-me para a Serra da Agrela.
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