A primeira condição para que desponte uma luz
lá longe é a de que o país perca de vez a esperança. A esperança de que nos
falam os Vitorinos e os Machetes, a esperança que enche os sermões dos
optimistas, a esperança cavaquista de que se não era em 2012, será em 2013, mas
certo certo em 2014 ou então 2015. Essas esperanças são a tralha e o lixo
tóxico que nos mantêem de joelhos a orar, a pedir, a resmungar, a encaixar, a
aguentar, enfim, a morrer devagarinho, com respeitinho, educadinho, bem
castradinho, amén.
Não há nada a esperar da Europa dos Barrosos,
não há nada a esperar dos partidos do Governo, não há nada a esperar do PS,
nada a esperar do PC ou do Bloco. Ainda menos há a esperar o que quer que seja
de útil ou de interessante do Cavaco, do Cardeal, do Benfica ou do Ulrich. No
momento, no dia ou na semana em que uma parte importante das pessoas se der
conta de que não há nada a esperar de bom, então sim, pode ser que algo de bom
comece a acontecer, pois essas pessoas, ao perceberem que esta tropa fandanga
que nos embala são a tampa que nos impede de saltar da panela, essas pessoas
arrebentarão com o tacho.
É ao que chegámos. Sim, eu sei, é tudo muito
radical, é desconfortável e é sobretudo arriscado. Era tão bom confiar no euro
e na bondade deles. Era tão bonito aquilo da solidariedade e do grande mercado
e das quatro liberdades. Então e a Constituição? Não era ela uma das mais
avançadas, mais progressistas, mais garantistas? E a nossa credibilidade
externa tem crescido, ainda esta manhã ouvi dizer. Pois...
Sabem onde está o contentor de lixo mais
próximo da vossa casa, do vosso escritório, da vossa escola? Levem essa
gerigonçada toda e deitem-na lá. Façam isso como medida de salubridade pública
mental. Deitem lá as vossas crenças na moeda única e na dita honra de pagar a
dívida, despejem junto às cascas de fruta e às embalagens amassadas os
discursos da tal esperança, cheios do bom-senso morno e inútil e sublinhados de
sorrisos a esconder a mentira e a fraude.
Mete medo? Claro que assusta, mas sentir-vos-eis
mais aliviados, mais preparados e aparentemente mais sózinhos. Largai lá toda a
esperança, como se tivésseis entrado no inferno. O camião há-de recolher esse
lixo e levá-lo para onde ele deve morar, o aterro. E então, sim, regressai
porque há tarefas que nos esperam e um recomeço que já tarda. E há-de ser um
dia, e a seguir outro dia. Só haverá amanhã se deixares de esperar. Contra o
desespero, a desesperança. Bora!









