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quarta-feira, junho 03, 2015

Über alles



Imaginemo-nos em 1488, data em que foi impresso o primeiro livro em Portugal em português. Tratava-se do “Sacramental” da autoria de Clemente Sánchez de Verdial . Imaginemos que os copistas lusitanos que nessa época reescreviam à mão os livros então disponíveis se organizavam para contestarem a oferta ao público de livros impressos alegando que se trataria de concorrência desleal e de uma prática perigosa por permitir uma divulgação incontrolada de textos sabe-se lá escritos por quem. Imaginemos ainda que o rei D. João II alinhava com os copistas e decidia proibir a venda de livros impressos e ordenava mesmo a destruição das impressoras que existissem no reino.

Felizmente não consta que nada disso tenha acontecido.

O frenesim que por aí vai contra o serviço de transporte Uber parece-me uma indignação de copistas contra a letra impressa. Posso compreender que os taxistas das nossas praças se incomodem com a novidade que lhes perturba o remanso ou que os burocratas de pacotilha lamentem a eventual perda de taxas, de alvarás e de licenças. Há dias esses mesmos falavam em criar uma nova taxa de 20 euros a pagar pelos clientes dos táxis dos aeroportos. Se os portuenses soubessem o que se passa e como se organiza o escalonamentos dos táxis no aeroporto Sá Carneiro haveriam de corar de vergonha pois a coisa não é muito diferente dos arranjos que vigoram no aeroporto de Luanda ou de outro país do terceiro mundo. Mas o que parece extraordinário é que os poderes públicos vigentes façam o que o D. João II não fez e alinhem nesta fantochada de tapar o sol com uma peneira.

Sim, é verdade que não consta que um fornecedor da Uber tenha espancado uma rapariga no centro do Porto ou enganado um turista desembarcado em Campanhã ou em Pedras Rubras; sim, é verdade que um fornecedor da Uber é classificado pelo utente após cada serviço; sim, é verdade que o sistema Uber permite conhecer em tempo real o percurso do automóvel que foi pedido e o tempo que vai demorar a chegar; sim, é verdade que o serviço Uber não envolve troca de dinheiro vivo pois o pagamento é debitado directamente na conta do titular do cartão de crédito; sim, é verdade que o serviço Uber tem vantagens de preço e de custos ambientais muito interessantes. Enfim, tudo inconvenientes gravíssimos e de alto risco!!!

Entretanto, bloqueiam à chinesa os sites da Uber, notificam as operadoras telefónicas para cortarem as comunicações (operadoras que sovieticamente se vergam à ordem) e até o Banco de Portugal estuda a maneira de congelar os pagamentos. Estamos-nos a transformar  num país de treta, essa é que é essa. Podem vender a TAP, os comboios, a Efacec, os bancos, a PT, a Galp, a Cimpor, as águas, o Metro e a STCP, os hospitais e as escolas, mas os táxistas hão-de ser nossos!!! Olarilolé!

 Pensando bem, devíamos era acabar com os computadores e voltar à lousa e ao lápis de carvão. Isso é que seria patriótico. E já agora, juntem-lhe um manjerico com uma quadra catita.

sábado, março 07, 2015

Uma coisa não é outra coisa

Ouviram-se recentemente algumas declarações sobre a necessidade de descentralização das competências do Estado: o Governo acenou com alguma delegação de competências para os municípios e o PS comprometeu-se a fazer eleger os directores das CCDRs pelos autarcas das regiões.
Há tempos ouviramos um eurodeputado do PSD “afirmar-se” como defensor da regionalização ao defender que os tais directores das CCDRs deveriam ter o estatuto de Secretários de Estado.

O centrão é isto que tem para nos oferecer: uma amálgama de conceitos e uma confusão de ideias que normalmente se reduz a um regateio de cheques ou à concessão de uns penachos protocolares.
Obviamente nada disto tem a ver com a Regionalização e em boa verdade, sendo apenas os seus travestis, são contra ela.

Uma coisa é a necessidade evidente de os municípios se coordenarem sempre que nisso haja ganhos mútuos de eficiência e de capacidade, outra coisa é pensar estrategicamente sobre a gestão e o desenvolvimento de um espaço que, indo muito para além de uns tantos concelhos, tem uma dinâmica social e económica própria e comum.

O presidente da Câmara do Porto faz muito bem em promover uma frente atlântica com Gaia e Matosinhos, assim como deve ser encorajado na sua ideia de uma Liga de Cidades que juntem esforços para objectivos determinados. Mas se todas essas formas de inter-municipalismo são proveitosas e bem vindas, tal não significa que sejam passos a caminho da Regionalização, sob pena de afinal serem apenas distracções ou, no pior dos casos, enganos.

Defender a ampliação do Porto de Leixões ou uma estratégia para o aeroporto Sá Carneiro, isso sim são assuntos ligados aos respectivos hinterlands e portanto de interesse regional. Seria ilusório pensar que uma agremiação de municípios teria vocação ou capacidade política para interpretar e defender esse tipo de interesses. De qualquer forma não foram eleitos para tanto nem mencionaram isso nos seus programas eleitorais.

Não pretendo entrar nessa conversa de porteiras sobre se as acrescidas competências que o governo se dispõe a conceder às autarquias são delegações ou transferências e se vêm acompanhadas com os devidos envelopes ou se afinal, como tudo parece indicar, são “presentes” envenenados a castrar as finanças locais. Tampouco me parece valer a pena desmontar aquelas originalidades de submeter os presidentes das CCDRs a votação de colégios eleitorais restritos ou a colocá-los ao nível de um Maçãs ou de um Adolfo. Pensar que truques desses constituem um progresso e seriam manifestações de legitimação democrática é tão meritório como acreditar que o Sol ronda a Terra.


Dito isto, e acreditando que o país precisa urgentemente de um nível intermédio político entre o município e o Governo, acho oportuno apelar ao Presidente da Câmara do Porto que clarifique a sua posição sobre esta matéria e que, se partilha desta ideia, a assuma coerentemente, chamando o nome aos bois, porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Faço-me entender?

sábado, fevereiro 21, 2015

À espera dos bárbaros (3)


Fazendo fé no que conta o jornal ‘Expresso’ de hoje, a ministra Albuquerque “… espera que a maioria dos países não aceite facilidades em excesso para Atenas”.

Desconfio que a Madame Maria Luís tem saudades do tempo em que terá sido chefe de turma no colégio do bairro e do prazer que então lhe dava indicar os faltosos. O síndroma do capataz é coisa conhecida desde há muito tempo e essa “promoção social” leva o próprio a ser mais papista que o papa e muitas vezes a fazer figuras tristes como aquela de ir a casa do mestre para lhe servir de exemplo e assim receber um santinho de S. Firmino assinado pelo cura.

Cada um tem as suas idiossincrasias e gere como pode os seus traumas psicológicos mas se isso se repercute na vida de um povo e de um Estado, então a coisa fia mais fino.

 Se as “facilidades” que venham a ser concedidas à Grécia viessem a ser extensivas a Portugal, isso seria bom para nós ou não? É que chega-se a um ponto em que é muito difícil perceber a racionalidade, se é que há alguma, nestas posturas de Torquemada de aldeia.

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

À espera dos Bárbaros (2)


Consta que a Comissão Europeia preparara um documento de trabalho para a reunião do Eurogrupo de hoje, documento que o governo grego considerava aceitável, e que haviam decorrido contactos construtivos antes da reunião entre o governo grego e a Comissão.

Eis que o Sr. Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo , apresenta na reunião um projecto de conclusão em que se exige aos gregos a extensão do programa actual e que estes tal aceitem até ao fim desta semana.

Estamos claramente em atmosfera de ultimatos. Dir-se-ia que há uma certa europa que pode flexibilizar qualquer coisa desde que previamente o governo grego se ajoelhe.

Tá bonito!

segunda-feira, janeiro 26, 2015

"À espera dos bárbaros"


O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem ponto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquencias.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
Konstantinos Kavafis (1863-1933)

sexta-feira, novembro 21, 2014

Sentar-se na cidade do Porto

A cidade do Porto tem carácter e tem história.
Os portuenses saem hoje em dia à rua e frequentam os parques e jardins da cidade com muita mais frequência do que há anos atrás.

Mas nem sempre encontram um local onde se sentarem, seja para descanso, seja para leitura ou para simplesmente apreciarem a paisagem e o movimento.

É possível criar uma dinâmica que permita aos cidadãos envolverem-se eles próprios nesse esforço de dotar a cidade e os seus jardins municipais de um mobiliário elegante e prático onde o portuense e o visitante possa sentar-se e conversar em família ou entre amigos.

Em várias cidades europeias está há muito tempo consagrada a prática de os particulares oferecerem à cidade bancos de madeira mediante a aposição de uma pequena e discreta placa em memória de um ente querido.

Isso permitiria multiplicar o mobiliário urbano sem qualquer despesa para o município e evidente benefício para os citadinos, com as vantagens acrescidas de promover nos munícipes o espírito de pertença ao espaço colectivo, de fomentar a ideia de que a cidade do Porto funciona como elo de ligação entre gerações e de estimular o convívio com a Natureza em meio urbano.
Um banco de madeira, tal como por exemplo o exposto na fotografia junta, é um banco confortável pois tem um encosto ergonómico e apresenta-se numa matéria nobre proveniente da actividade florestal portuguesa.

Um tal programa, patrocinado pelos serviços camarários, obedeceria a regras simples, tais como:

1.    O modelo de banco seria estandartizado e encomendado pelos serviços camarários;


2.    O tipo de placa evocativa seria igualmente estandartizado e fornecida pelos serviços camarários; o texto seria igualmente estandartizado (por exemplo “em memória de...”) apenas mudando o nome da pessoa evocada;


3.    Toda a despesa de aquisição do banco, aposição da placa e colocação/fixação pelos serviços municipais do banco no jardim ou passeio público ficaria a cargo do munícipe; o município assumiria tão só as eventuais despesas de manutenção, acaso existissem, por um prazo máximo de 15 anos;


4.    A localização do banco seria determinada pelos serviços municipais, tomando tanto quanto possível em consideração, mas não obrigatoriamente, os desejos manifestados pelo munícipe requerente; este teria, todavia, o direito de desistir do seu pedido no caso de discordar totalmente de qualquer uma das localizações propostas pelos serviços municipais;


5.    O requerente deveria demonstrar um laço de parentesco com a pessoa evocada ou um outro fundamento aceitável para uma tal evocação. Competiria aos serviços municipais apreciar o pedido e a sua adequação aos padrões de dignidade e valores democráticos e históricos da cidade.

No dia 3 de Novembro solicitei audiência ao Sr. Vereador Dr. Filipe Araújo para lhe poder apresentar esta ideia e fornecer documentação sobre experiências deste tipo em várias autarquias europeias. Esse pedido foi registado sob o n° I/187161/14. Continuo a aguardar uma resposta mas não acredito que uma vereação que defende a cidadania e a proximidade e escuta dos seus eleitores se recuse a conceder 10 minutos de entrevista a um munícipe. Vamos esperar.


quinta-feira, novembro 20, 2014

2° Novo Postal de Pequim


Na esplanada da universidade onde ensinou literatura e onde ainda tem o seu escritório , o Prof Zha , guarda vermelho quando estudante de liceu e manifestante na praça Tian An Men em 1989, explica -me : “Quando nos referimos aos detentores de poder na China, importa distinguir entre a Segunda Geraçao de Vermelhos (Hong Er Dai) e a Segunda Geraçao de Ricos (Fu Er Dai) .Estes são os os dois grupos  da sociedade únicos detentores do poder politico e económico “. E insiste:
“Mas a Segunda Geração de Vermelhos, geralmente designados como “princelings” (pequenos principes) , filhos de dirigentes da  primeira geração do partido comunista, heróis da revoluçao, são em ultima instancia os únicos verdadeiros detentores do Poder.”

Por isso , quando na recente reunião plenária do comité central do partido comunista , as resoluções apelam à reformulação do sistema judiciario e insistem no combate à corrupção, parece oportuno analizar o caminho percorrido pelo partido desde a condenação o ano passado de Bo Xilai , “princeling” , filho de herói da revolução ,e antigo dirigente do partido em Chongqing. 
Desde a sua condenação nenhum outro “princeling” foi perseguido ou condenado por corrupção.

Bo Xilai foi o unico. Qual a razao? Muito simplesmente, foi o unico entre os princelings que fez campanha e  se propos ao cargo hoje ocupado por Xi Jinping: Presidente da Republica!

Proibir aos membros do partido o jogo do mah-jong, os hoteis de cinco  estrelas, ou jantares nos restaurantes mais luxuosos de Pequim,Shanghai ou Chongqing, e procurar assim mostrar à grande massa da população chinesa a vontade  por parte do grande dirigente  Xi Jingping, de combater os excessos da corrupção parece ser uma resolução  necessária e bem aceite por toda a população. Para além de ser uma resolução que se impôs  como essencial para a sobrevivência do partido.
No entanto, ninguém na China tem muitas ilusões sobre os resultados e objectivos de todo esta campanha e do combate à corrupção anunciado pelos altos dirigentes do partido.

Pois ,muitos sabem decifrar  o objectivo principal para além desta campanha : Manter o poder nas maos do pequeno grupo de dirigentes ligados à primeira geração de vermelhos, isto é manter o poder na mao da Segunda Geraçao de Vermelhos.

Dois exemplos ilustram bem a relatividade dessa campanha tao anunciada pelo Presidente Xi Jinping nos seus discursos:

Numa conversa com um membro de uma NGO que ensina jornalismo a redactores de jornais oficiais, este mesmo referiu-me como se admirara dos salarios extremamente ridículos que recebiam . Face ao seu espanto um redactor explicara-lhe : “ O salário que recebemos é suposto ser completado com os “envelopes “que somos suposto ir recebendo no decurso do trabalho que fazemos para o jornal !” 

Recentemente os jornais anunciaram a tentativa de compra do hotel Waldorf Astoria em Nova Iorque pelo grupo de Seguros Anbang, . Ora este grupo tem como dirigente principal  um membro da familia de Deng Xiaoping. 

A pergunta que o Prof.Zha e muitos outros se fazem é a seguinte: “Mas donde lhe vem todo esse dinheiro que lhe permite fazer esta compra?”

Maria
Novembro 2014

quinta-feira, novembro 13, 2014

Por um país livre


Não me importo nada de subscrever o que hoje escreve Francisco Assis no Público: o comunicado do PCP sobre os 25 anos da queda do muro de Berlim é bem revelador da natureza fascizante, opressiva e revisionista da História que caracteriza aquela agremiação.
Para o PCP, o bloco soviético era o melhor dos mundos e o seu desmoronamento terá sido um desastre.


Mas há uma afirmação de Assis que não acompanho: a de que aqueles comunistas portugueses não andam a enganar ninguém. Não é verdade! No meu entender, o aspecto respeitável do Sr. Jerónimo de Sousa, as respostas prontas dos seus deputados e o discurso melífluo alegadamente em defesa dos trabalhadores engana muitos incautos que não se apercebem de que o poder nas mãos daquela gente transformaria o país num Estado policial cuja primeira vítima seria a liberdade. 

domingo, novembro 09, 2014

Café do molhe

                                 
                                                             Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

Que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

                                                    Manuel António Pina

sexta-feira, novembro 07, 2014

O Estado e o euromilhões


Se os meus cálculos não estão errados e as minhas informações estão correctas, o Estado recebeu 18 milhões de euros porque um português acertou num prémio do euromilhões. Ou seja, aquela lotaria não saiu apenas a um felizardo de Castelo Branco: o erário público arrecadou uma maquia sem nada ter apostado. Eu diria que se trata de um caso de dupla tributação, visto que já pagamos imposto no momento da aposta, mas seja.

O que eu gostava de saber é que destino vai o Estado dar a tal montante?
Vai cobrir as despesas do gabinete de um ministro? Vai pagar mais umas viagens ao Dr. Paulo Portas? Vai subsidiar os partidos? Confesso a minha ignorância, mas o que julgo saber é que nem um tostão vai apoiar a Cultura, seja a subvenção de uma orquesta, a contratação de professores para os Conservatórios, o enriquecimento de uma biblioteca ou o programa de aquisições artísticas de um museu nacional.

Em Inglaterra os proventos das lotarias revertem em 40% a favor da cultura (Arts and Heritage) e é graças a isso que os museus britânicos se podem orgulhar de renovarem regularmente as suas colecções e assim manterem um público interessado. Em Portugal exportamos Mirós porque o orçamento não tem um ou dois milhões para licitar um ou dois quadros. Ora parecer-me-ia mais que justo que quando o Estado é desta forma indirecta assim premiado fosse suficientemente transparente e lúcido para agarrar a oportunidade e valorizar, pelo menos numa parte do ganho, o património artístico da Nação.


E já agora, que o fizesse tendo em conta o país real, pois isso de concentrar na capital 10 museus nacionais, salpicando o resto do território com uns outros escassos e pobres seis é tique que merece uma acirrada crítica. Estarei a ver mal?

domingo, novembro 02, 2014

A cidade do Porto tem uma palavra a dizer sobre o Museu Soares dos Reis?


Portugal teve as suas épocas áureas em que o país se enriqueceu e se equipou do ponto de vista cultural e artístico com o que de melhor se produzia cá e no estrangeiro. Mas o país foi ciclicamente pilhado por gente de dentro e de fora, quando não destruído por catástrofes naturais como o terramoto de 1755.

Um dos climaxes da pilhagem foi a saída de Junot que, a coberto de uma vergonhosa convenção apadrinhada pelos ingleses, levou centenas de carroças apinhadas de mobílias, bibliotecas, quadros, pratas, porcelanas, etc. Posteriormente, o taticismo militar do Duque de Wellington aquando da terceira invasão francesa pelas tropas de Massena queimou metade do país. Uns e outros roubaram ou destruiram o que de valor havia nas terras por onde passavam.

O cerco do Porto e as lutas fraticidas que se seguiram durante o liberalismo prolongou a devastação do património artístico nacional, com especial destaque para a região norte, tantas vezes abandonada ao pior banditismo e já então ao suganço de um centralismo crescente que importava os salvados para os palácios da capital.

Fialho d’Almeida denunciava veementemente nos “Gatos” em finais do séc. XIX a indiferença política do Estado perante o objecto de arte, quando não era esse mesmo Estado, através da corte ou dos seus agentes, que participava alegremente na espoliação dos bens da nação desviando-os para salões particulares ou desbaratando-os juntos de intermediários de museus estrangeiros que funcionavam mais como larápios do que como amantes de arte.  A este propósito, ficou na memória o testamento vergonhoso de D. Fernando, viúvo de D. Maria II, a favor de uma ex-cantora de ópera, mais tarde condessa d’Edla, e no qual incluia ou pretendia incluir bens da coroa e da nação, tais como o Castelo da Pena e o seu recheio para além de tantos pertences do Palácio das Necessidades.

No período em que se encerravam conventos aos seis ou oito por ano, foi um ver-se-te-avias pelas portas do fundo, a esvaziar os edifícios com a conivência de colegiadas e abadessas, lá ficando apenas algum penico rachado ou tapete esburacado. Registe-se que entre os mais aplicados da matilha estavam os próprios membros das juntas inventariantes que não perdiam a oportunidade de se servirem antes de fazerem uma lista pobre. Um regabofe!

Conclusão: o país não tem um museu decente de artes decorativas a não ser o Museu das Janelas Verdes (Arte Antiga; Lisboa) e, no Porto, uma ou duas salas tristes no Soares dos Reis.

Voltaremos para ver mais de perto este Museu Soares dos Reis, que sendo nacional mas sediado no Porto, é a meu ver revelador de uma visão empobrecida, senão provinciana, de um centralismo cultural que não deixa de ser indigente. A cidade do Porto talvez tenha uma palavra a dizer sobre o assunto.



quarta-feira, outubro 29, 2014

Questões de toponímia: Abaixo os Cabrais!


Se bem percebi, a actual Câmara do Porto decidiu reexaminar a questão de vir a dar o nome de José Saramago, o único Nobel português de literatura, a uma rua ou praça da cidade. Acho muito bem. Nestas coisas da toponímia há que pôr as simpatias e antipatias de lado e agarrarmo-nos a dados objectivos. Por muito que me possa incomodar a pessoa em si, reconheço no autor do “Memorial do Convento” um dos nossos maiores da língua portuguesa e o merecido galardoado do mais importante prémio da literatura mundial.

Mais a mais numa cidade que baptizou algumas das suas ruas com nomes da mais escassa honradez e da mais flagrante desonestidade. Um desses nomes é Costa Cabral.

António Bernardo da Costa Cabral terá sido sem dúvida um político marcante do liberalismo na primeira metade do século XIX mas poucos terão sido tão corruptos e trauliteiros como ele. Homem de uma ambição desmedida, assumiu todas as posturas, por mais contraditórias, que lhe fossem permitindo alcandorar-se ao poder. Ali chegado, e com a protecção de uma rainha D. Maria II complacente a ponto de constar uma relação equívoca entre os dois, locupletou-se a seu belo prazer com os dinheiros públicos fazendo sua a receita de impostos que criou e obrigando empresas públicas e privadas a oferecerem-lhe fortunas ( só entre 1842 e 1845 arrecadou para o seu património pessoal 15% da receita pública anual), tendo-se transformado em poucos anos num dos homens mais ricos de Portugal .

Costa Cabral cometeu e fez cometer todo o tipo de fraudes, falsificou resultados eleitorais, roubou, violentou a nação, fez-se conde e depois marquês, arbabatou-se com o Convento de Tomar, perseguiu e censurou, lançou o país numa guerra civil destruidora de tanta gente e de tanta riqueza, foi um verdadeiro campeão do nepotismo e da arbitrariedade, enfim, deixou o país na miséria e no caos.

Como dizia alguém seu contemporâneo, “ninguém lhe pode apertar a mão sem corar de vergonha”. Este homem esperto, alguns diriam brilhante, de uma vivacidade invulgar e de uma brutalidade única, que veio a morrer no Porto, mais precisamente na Foz do Douro, era afinal e apenas um ladrão e um cacique de baixo estofo.
Por isso atrevo-me a afirmar que a cidade do Porto não precisava deste insulto de dar a uma das suas vias mais importantes o nome de um desavergonhado perigoso e que este caso assenta em factos suficientes para que os serviços de toponímia da Câmara revejam a história e nos limpem desta desconsideração.


Abaixo o cabralismo! Mil vezes um Saramago!

terça-feira, outubro 28, 2014

Os auto-denominados anti-populistas


Andam por aí uns políticos a acusar os seus críticos de populismo.
É natural que os políticos profissionais se defendam e todos conhecemos o princípio de que na verdade não há que perder o bébé no despejo da água do banho. Nem todos os políticos são uns aldrabões ou uns calaceiros. Mas se a vox populi hoje desconfia da generalidade dos políticos a culpa é destes, que não souberam ou não quiseram arrumar a casa e limpar a soleira. E sobretudo não quiseram corrigir o regime que os serve e de que se servem.

É muito salutar e democrático que o povo questione os seus representantes. E esperar-se-ia que estes, se na verdade são, como se auto-denominam, campeões da democracia, aceitassem esse controlo como desejável e necessário. A verdade todavia é que preferem pôr o acento tónico e o dedo acusador numa alegada deriva populista que estaria a contaminar a sociedade. Nessa senda, despejam um discurso moralisante fastidioso cuja mensagem subliminar é a de que eles são o sal da pátria e os críticos uns fascistas em potência.

Nunca explicam bem o que é o populismo mas o que se conclui do seu pensamento é que se alguém defende a redução do número de deputados ou crítica a perda de soberania resultante da prática quotidiana das instituições europeias, esse alguém devia ser posto firmemente de quarentena, visto ser seguramente um populista-ébola que nos quer levar ao desastre. Um desses profissionais arautos do federalismo europeu classifica mesmo estes contaminados de ‘terroristas ideológicos’ embora, conceda-se, ainda não nos acuse de candidadtos à militância no Estado Islâmico.

Esta cruzada alegadamente anti-populista parece-me o negativo de uma outra cruzada que se limita a berrar contra o neo-liberalismo, outro saco roto onde pode cair tudo mas cujos contornos ninguém explica. É a mesma engrenagem, ainda que de outro sinal. Julgam que com anátemas destes liquidam o crítico mas o que fazem é fugir a sete pés do debate pelas portas do fundo, para se refastelarem nas suas poltronas protegidas de ‘europeístas convictos’ (outro cliché) e de beatos canonizados do situacionismo. E nós é que somos ‘terroristas’?

Ide pentear macacos.




segunda-feira, outubro 27, 2014

La Grande Belleza

                 

Um filme que me fascinou. 
Talvez a si também.

domingo, outubro 26, 2014

A bravata engravatada dos novos corvos velhos


Consta que em recente entrevista a uma televisão, o advogado Miguel Júdice anunciou o seu apoio a António Costa.
Esta esperteza de um dos advogados que mais dorme com o poder e com o Estado, seja este qual for, faz-me lembrar aquela história divertida contada pelo historiador romano Macrobius sobre Octávio César, mais tarde imperador Augusto, quando este regressava da sua vitória sobre Marco António (e as forças de Cleópatra) na batalha de Actium no ano 31 AC.

Octávio cruzou-se na estrada com um homem que segurava um corvo/papagaio domesticado o qual saudava: “ Salvé o nosso César, o nosso comandante vitorioso”.
Octávio ficou tão impressionado que logo ali decidiu dar ao homem 20 mil sestércios de prémio. O problema é que o domesticador tinha um sócio que, não tendo recebido a parte do prémio a que se julgava com direito, foi ter com Octávio e sugeriu-lhe que este exigisse conhecer o outro corvo a que também tinham ensinado a saudar o Marco António, just in case.

Octávio achou graça ao assunto mas, excepcionalmente, não reagiu com violência embora tenha obrigado o primeiro a repartir o prémio com o segundo.

Estes escritórios de advogados não precisam de ensinar corvos. Eles próprios se assumem como papagaios a saudar o poder que julgam despontar ao longe na estrada, cientes de que a seu tempo haverá retorno de sestércios. E revelam outra coisa: é que, de facto, seja um Passos ou um Costa que assuma o poder, a dinâmica do regime mantém-se pois nada muda e as conivências sucedem-se. Salvé César!


sexta-feira, outubro 24, 2014

O orçamento hermafrodita


Amanhã, Sábado 25, reune-se a Comissão Política Nacional do CDS.
Consta que é para analisarem a proposta de orçamento já aprovada pelo governo de que aliás fazem parte. Assim sendo, o que vão lá fazer os comissários que aparecerem? Provavelmente debitar umas vacuidades do género “podia ser pior” ou “é melhor alguma coisa do que nada”.

Não há novidade nisto. O partido do irrevogável já nos habituou ao pisca-pisca que aponta para o lado contrário daquele para onde vira. O vermelho das linhas inultrapassáveis desbotou e fica-se pelo discurso do soldadinho disciplinado que mete a viola no saco depois de cantar um fado corridinho nas tabernas do bairro. Ou então encenam o “agarrem-me que senão eu bato-lhe”, pensando que o pagode vibra com o melodrama e não se dando conta do enorme e irónico bocejo que percorre toda a plateia.


Esta história do “Quem? Eu? Foi o outro” já cansa. E entretanto servem de colchão a este orçamento hermafrodita, excitados com a dupla sexualidade do bicho, uma confusão de tira aqui e põe ali, e ora diga lá onde está a bolinha escondida, debaixo de que copo. O apostador perde sempre, claro. O apostador somos nós, cidadãos aparvalhados com aquele jogo de mãos, crédulos na primeira impressão e desprevenidos, a tirar conclusões antes de bem verificar os dois lados da questão.

 É macho ou fêmea? Nem um nem outro: é hermafrodita. Irra! E há quem goste? Pelos vistos...


Nota: fotos da escultura romana do séc. II, exposta no Museu do Louvre, Paris ('O hermafrodita adormecido')

Novo postal de Pequim

Recentemente, durante uma  simpósio em Pequim, Xi Jingping, actual  presidente da China, fez um discurso centrado na importância da arte e dos valores culturais chineses. Fazendo eco a  citações de Mao Tsé Tung, referiu que a arte e o património cultural  devem servir o povo e a causa socialista.

Mas a realidade que encontro no terreno conta outra história:

 “Para que possa  perceber melhor a situação, imagine o pessoal dos armazéns do Museu do Palácio da Cidade Proibida que para comer as “noodles” durante o período de descanso, se serve das taças antigas em depósito no museu . E se e por pouca sorte parte uma, das 20 que existiam passam a existir 19, sem que haja qualquer reacção ou controlo por parte dos responsáveis .” -  comenta  o jovem restaurador Qian He com quem falo.

 « Existem 20.000 pinturas chinesas antigas nos armazénsdo Museu , armazenadas  em condições de manutenção  extremamente precárias e sem que haja especialistas suficientes para levar a cabo o trabalho de restauro.” - acrescenta Qian He, que procura apoios para a criação de uma escola de formação de restauradores  para trabalharem nos Museus na China e assim evitar que muito do património artístico e cultural se perca ou seja destruido.

O bisavô,  Liu Ting Zhi , era em Shanghai o restaurador mais solicitado e apreciado da dinastia Qing. Em 1949 , quando Mao chegou ao poder, a família foi obrigada a entregar  ao museu de Shanghai  a valiosa colecção de pinturas chinesas que possuía e em 1966, aquando da revolução cultural,  foi obrigada a ir trabalhar no campo .  Aí sobreviveu até que, ainda durante a revolução cultural,  Liu Ting Zhi foi  chamado para Pequim  para se encarregar do restauro das pinturas num túmulo . Por lá ficou com toda a familia , onde as gerações futuras continuaram a trabalhar como restauradores de pintura chinesa no Museu da Cidade Proibida. E agora Qian He , quarta geração desta familia , com um tio ainda a trabalhar no Museu, perante o desinteresse dos responsáveis no departamento cultural da administração pública da cidade face à urgência em melhorar as condições de restauro e conservação  deste património , projeta partir com a familia  para os EUA. A universidade de Michigan convidou-o para ir trabalhar no restauro das pinturas chinesas nos museus americanos.

Ao falar com Qian He e perante a  tristeza que sente face ao desinteresse das autoridades pela preservação de um património cultural tão importante como o que se encontra arquivado nos armazéns do Museu da Cidade Proibida , pergunto-me  como  interpretar o discurso do presidente Xi Jingping. 
Será que  o presidente Xi , na linha do presidente Mao, também agora projecta instrumentalizar cultura e património cultural numa nova campanha de controlo da criação artística em função dos interesses do Partido Comunista Chinês, para a qual o rico património de caligrafia e pintura tradicional chinesa  do Museu do Palácio da Cidade Proibida não são suficientemente importantes ?

Maria
Outubro de 2014



segunda-feira, outubro 13, 2014

O Salgado de lá


O Público de Domingo dá notícia de mais uma especialidade do regime político vigente na Madeira: a prorrogação antecipada e sem concurso da concessão ao grupo Sousa da ligação marítima Funchal-Porto Santo, apimentada por novos benefícios e regalias para o empresário.

Há dias soube-se que o Ministério Público decidira arquivar o processo relativo às manobras denunciadas a seu tempo pelo Tribunal de Contas de escamoteamento da dívida da Madeira.
Com o Jardim é um bailinho constante e o dano que ele vai deixar aos madeirenses será assunto que há-de manchar todos os dirigentes nacionais que se foram sucedendo no PSD assobiando para o lado enquanto lhe davam umas palmadinhas nas costas.


Às vezes pergunto-me se o papel dele não será o de, pelo seu exemplo, dar aos centralistas da capital um bom pretexto para adiarem a regionalização no espaço continental do país.

domingo, outubro 12, 2014

O urinol


Portugal participa com a colossal fortuna de 25 mil euros para a reconstrução de Gaza.

Consta que o Presidente Cavaco vai ser convidado para inaugurar o urinol que as autoridades de Gaza vão reconstruir com tão generoso donativo. Difícil vai ser decidir se a placa a assinalar o evento é fixada por cima ou por baixo da louça. Eu diria em baixo.