Maksymilian Gierymski
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segunda-feira, junho 08, 2015
quarta-feira, junho 03, 2015
Über alles
Imaginemo-nos em 1488, data em que foi impresso o primeiro
livro em Portugal em português. Tratava-se do “Sacramental” da autoria de
Clemente Sánchez de Verdial . Imaginemos que os copistas lusitanos que nessa
época reescreviam à mão os livros então disponíveis se organizavam para
contestarem a oferta ao público de livros impressos alegando que se trataria de
concorrência desleal e de uma prática perigosa por permitir uma divulgação
incontrolada de textos sabe-se lá escritos por quem. Imaginemos ainda que o rei
D. João II alinhava com os copistas e decidia proibir a venda de livros
impressos e ordenava mesmo a destruição das impressoras que existissem no
reino.
Felizmente não consta que nada disso tenha acontecido.
O frenesim que por aí vai contra o serviço de transporte
Uber parece-me uma indignação de copistas contra a letra impressa. Posso
compreender que os taxistas das nossas praças se incomodem com a novidade que
lhes perturba o remanso ou que os burocratas de pacotilha lamentem a eventual perda
de taxas, de alvarás e de licenças. Há dias esses mesmos falavam em criar uma
nova taxa de 20 euros a pagar pelos clientes dos táxis dos aeroportos. Se os
portuenses soubessem o que se passa e como se organiza o escalonamentos dos
táxis no aeroporto Sá Carneiro haveriam de corar de vergonha pois a coisa não é
muito diferente dos arranjos que vigoram no aeroporto de Luanda ou de outro
país do terceiro mundo. Mas o que parece extraordinário é que os poderes
públicos vigentes façam o que o D. João II não fez e alinhem nesta fantochada
de tapar o sol com uma peneira.
Sim, é verdade que não consta que um fornecedor da Uber
tenha espancado uma rapariga no centro do Porto ou enganado um turista
desembarcado em Campanhã ou em Pedras Rubras; sim, é verdade que um fornecedor
da Uber é classificado pelo utente após cada serviço; sim, é verdade que o
sistema Uber permite conhecer em tempo real o percurso do automóvel que foi
pedido e o tempo que vai demorar a chegar; sim, é verdade que o serviço Uber
não envolve troca de dinheiro vivo pois o pagamento é debitado directamente na
conta do titular do cartão de crédito; sim, é verdade que o serviço Uber tem
vantagens de preço e de custos ambientais muito interessantes. Enfim, tudo
inconvenientes gravíssimos e de alto risco!!!
Entretanto, bloqueiam à chinesa os sites da Uber, notificam
as operadoras telefónicas para cortarem as comunicações (operadoras que
sovieticamente se vergam à ordem) e até o Banco de Portugal estuda a maneira de
congelar os pagamentos. Estamos-nos a transformar num país de treta, essa é que é essa. Podem
vender a TAP, os comboios, a Efacec, os bancos, a PT, a Galp, a Cimpor, as
águas, o Metro e a STCP, os hospitais e as escolas, mas os táxistas hão-de ser
nossos!!! Olarilolé!
Pensando bem, devíamos
era acabar com os computadores e voltar à lousa e ao lápis de carvão. Isso é
que seria patriótico. E já agora, juntem-lhe um manjerico com uma quadra catita.
Palavras chave:
douro,
o progresso é perigoso,
táxis,
Uber
sábado, março 07, 2015
Uma coisa não é outra coisa
Ouviram-se recentemente algumas declarações sobre a
necessidade de descentralização das competências do Estado: o Governo acenou
com alguma delegação de competências para os municípios e o PS comprometeu-se a
fazer eleger os directores das CCDRs pelos autarcas das regiões.
Há tempos ouviramos um eurodeputado do PSD “afirmar-se” como
defensor da regionalização ao defender que os tais directores das CCDRs
deveriam ter o estatuto de Secretários de Estado.
O centrão é isto que tem para nos oferecer: uma amálgama de
conceitos e uma confusão de ideias que normalmente se reduz a um regateio de
cheques ou à concessão de uns penachos protocolares.
Obviamente nada disto tem a ver com a Regionalização e em
boa verdade, sendo apenas os seus travestis, são contra ela.
Uma coisa é a
necessidade evidente de os municípios se coordenarem sempre que nisso haja
ganhos mútuos de eficiência e de capacidade, outra coisa é pensar estrategicamente
sobre a gestão e o desenvolvimento de um espaço que, indo muito para além de
uns tantos concelhos, tem uma dinâmica social e económica própria e comum.
O presidente da Câmara do Porto faz muito bem em promover
uma frente atlântica com Gaia e Matosinhos, assim como deve ser encorajado na
sua ideia de uma Liga de Cidades que juntem esforços para objectivos determinados. Mas se todas essas formas de inter-municipalismo são proveitosas e bem vindas,
tal não significa que sejam passos a caminho da Regionalização, sob pena de
afinal serem apenas distracções ou, no pior dos casos, enganos.
Defender a ampliação do Porto de Leixões ou uma estratégia
para o aeroporto Sá Carneiro, isso sim são assuntos ligados aos respectivos
hinterlands e portanto de interesse regional. Seria ilusório pensar que uma
agremiação de municípios teria vocação ou capacidade política para interpretar
e defender esse tipo de interesses. De qualquer forma não foram eleitos para
tanto nem mencionaram isso nos seus programas eleitorais.
Não pretendo entrar nessa conversa de porteiras sobre se as
acrescidas competências que o governo se dispõe a conceder às autarquias são
delegações ou transferências e se vêm acompanhadas com os devidos envelopes ou
se afinal, como tudo parece indicar, são “presentes” envenenados a castrar as
finanças locais. Tampouco me parece valer a pena desmontar aquelas
originalidades de submeter os presidentes das CCDRs a votação de colégios
eleitorais restritos ou a colocá-los ao nível de um Maçãs ou de um Adolfo.
Pensar que truques desses constituem um progresso e seriam manifestações de
legitimação democrática é tão meritório como acreditar que o Sol ronda a Terra.
Dito isto, e acreditando que o país precisa urgentemente de
um nível intermédio político entre o município e o Governo, acho oportuno
apelar ao Presidente da Câmara do Porto que clarifique a sua posição sobre esta
matéria e que, se partilha desta ideia, a assuma coerentemente, chamando o nome
aos bois, porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Faço-me
entender?
sábado, fevereiro 21, 2015
À espera dos bárbaros (3)
Fazendo fé no que conta o jornal ‘Expresso’ de hoje, a ministra
Albuquerque “… espera que a maioria dos países não aceite facilidades em
excesso para Atenas”.
Desconfio que a Madame Maria Luís tem saudades do tempo em
que terá sido chefe de turma no colégio do bairro e do prazer que então lhe
dava indicar os faltosos. O síndroma do capataz é coisa conhecida desde há
muito tempo e essa “promoção social” leva o próprio a ser mais papista que o
papa e muitas vezes a fazer figuras tristes como aquela de ir a casa do mestre
para lhe servir de exemplo e assim receber um santinho de S. Firmino assinado
pelo cura.
Cada um tem as suas idiossincrasias e gere como pode os seus
traumas psicológicos mas se isso se repercute na vida de um povo e de um
Estado, então a coisa fia mais fino.
Se as “facilidades”
que venham a ser concedidas à Grécia viessem a ser extensivas a Portugal, isso
seria bom para nós ou não? É que chega-se a um ponto em que é muito difícil
perceber a racionalidade, se é que há alguma, nestas posturas de Torquemada de
aldeia.
segunda-feira, fevereiro 16, 2015
À espera dos Bárbaros (2)
Consta que a Comissão Europeia preparara um documento de
trabalho para a reunião do Eurogrupo de hoje, documento que o governo grego
considerava aceitável, e que haviam decorrido contactos construtivos antes da
reunião entre o governo grego e a Comissão.
Eis que o Sr. Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo , apresenta
na reunião um projecto de conclusão em que se exige aos gregos a extensão do
programa actual e que estes tal aceitem até ao fim desta semana.
Estamos claramente em atmosfera de ultimatos. Dir-se-ia que
há uma certa europa que pode flexibilizar qualquer coisa desde que previamente o
governo grego se ajoelhe.
Tá bonito!
segunda-feira, janeiro 26, 2015
"À espera dos bárbaros"
O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedoOs bárbaros que chegam as farão.
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.em seu trono, à porta magna da cidade?
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem ponto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretoreso chefe deles. Tem ponto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
de ouro e prata finamente cravejados?
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquencias.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêmPor que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?diz que não há mais bárbaros.
Ah! eles eram uma solução.
Konstantinos Kavafis (1863-1933)
sexta-feira, novembro 21, 2014
Sentar-se na cidade do Porto
A cidade do Porto tem carácter e tem história.
Os portuenses saem hoje em dia à rua e frequentam os parques e jardins da
cidade com muita mais frequência do que há anos atrás.
Mas nem sempre encontram um local onde se sentarem, seja para descanso,
seja para leitura ou para simplesmente apreciarem a paisagem e o movimento.
É possível criar uma dinâmica que permita aos cidadãos envolverem-se eles
próprios nesse esforço de dotar a cidade e os seus jardins municipais de um
mobiliário elegante e prático onde o portuense e o visitante possa sentar-se e
conversar em família ou entre amigos.
Em várias cidades europeias está há muito tempo consagrada a prática de os
particulares oferecerem à cidade bancos de madeira mediante a aposição de uma
pequena e discreta placa em memória de um ente querido.
Isso permitiria multiplicar o mobiliário urbano sem qualquer despesa para o
município e evidente benefício para os citadinos, com as vantagens acrescidas
de promover nos munícipes o espírito de pertença ao espaço colectivo, de
fomentar a ideia de que a cidade do Porto funciona como elo de ligação entre
gerações e de estimular o convívio com a Natureza em meio urbano.
Um banco de madeira, tal como por exemplo o exposto na fotografia junta, é um
banco confortável pois tem um encosto ergonómico e apresenta-se numa matéria
nobre proveniente da actividade florestal portuguesa.
Um tal programa, patrocinado pelos serviços camarários, obedeceria a regras
simples, tais como:
1. O modelo de banco seria estandartizado
e encomendado pelos serviços camarários;
2. O tipo de placa evocativa
seria igualmente estandartizado e fornecida pelos serviços camarários; o texto
seria igualmente estandartizado (por exemplo “em memória de...”) apenas mudando
o nome da pessoa evocada;
3. Toda a despesa de
aquisição do banco, aposição da placa e colocação/fixação pelos serviços
municipais do banco no jardim ou passeio público ficaria a cargo do munícipe; o
município assumiria tão só as eventuais despesas de manutenção, acaso existissem,
por um prazo máximo de 15 anos;
4. A localização do banco
seria determinada pelos serviços municipais, tomando tanto quanto possível em
consideração, mas não obrigatoriamente, os desejos manifestados pelo munícipe
requerente; este teria, todavia, o direito de desistir do seu pedido no caso de
discordar totalmente de qualquer uma das localizações propostas pelos serviços
municipais;
5. O requerente deveria
demonstrar um laço de parentesco com a pessoa evocada ou um outro fundamento
aceitável para uma tal evocação. Competiria aos serviços municipais apreciar o
pedido e a sua adequação aos padrões de dignidade e valores democráticos e
históricos da cidade.
No dia 3 de Novembro solicitei audiência ao Sr. Vereador Dr. Filipe Araújo para lhe poder apresentar esta ideia e fornecer documentação sobre experiências deste tipo em várias autarquias europeias. Esse pedido foi registado sob o n° I/187161/14. Continuo a aguardar uma resposta mas não acredito que uma vereação que defende a cidadania e a proximidade e escuta dos seus eleitores se recuse a conceder 10 minutos de entrevista a um munícipe. Vamos esperar.
quinta-feira, novembro 20, 2014
2° Novo Postal de Pequim
Na esplanada da
universidade onde ensinou literatura e onde ainda tem o seu escritório , o Prof
Zha , guarda vermelho quando estudante de liceu e manifestante na praça Tian An
Men em 1989, explica -me : “Quando nos referimos aos detentores de poder na China,
importa distinguir entre a Segunda Geraçao de Vermelhos (Hong Er Dai) e a
Segunda Geraçao de Ricos (Fu Er Dai) .Estes são os os dois grupos da
sociedade únicos detentores do poder politico e económico “. E insiste:
“Mas a Segunda
Geração de Vermelhos, geralmente designados como “princelings” (pequenos
principes) , filhos de dirigentes da primeira geração do partido
comunista, heróis da revoluçao, são em ultima instancia os únicos verdadeiros
detentores do Poder.”
Por isso , quando
na recente reunião plenária do comité central do partido comunista , as
resoluções apelam à reformulação do sistema judiciario e insistem no combate à
corrupção, parece oportuno analizar o caminho percorrido pelo partido desde a
condenação o ano passado de Bo Xilai , “princeling” , filho de herói da
revolução ,e antigo dirigente do partido em Chongqing.
Desde a sua condenação nenhum outro “princeling” foi perseguido ou condenado por corrupção.
Desde a sua condenação nenhum outro “princeling” foi perseguido ou condenado por corrupção.
Bo Xilai foi o
unico. Qual a razao? Muito simplesmente, foi o unico entre os princelings que
fez campanha e se propos ao cargo hoje ocupado por Xi Jinping: Presidente
da Republica!
Proibir aos membros
do partido o jogo do mah-jong, os hoteis de cinco estrelas, ou jantares
nos restaurantes mais luxuosos de Pequim,Shanghai ou Chongqing, e procurar
assim mostrar à grande massa da população chinesa a vontade por parte do
grande dirigente Xi Jingping, de combater os excessos da corrupção parece
ser uma resolução necessária e bem aceite por toda a população. Para além
de ser uma resolução que se impôs como essencial para a sobrevivência do
partido.
No entanto, ninguém
na China tem muitas ilusões sobre os resultados e objectivos de todo esta
campanha e do combate à corrupção anunciado pelos altos dirigentes do partido.
Pois ,muitos sabem
decifrar o objectivo principal para além desta campanha : Manter o poder
nas maos do pequeno grupo de dirigentes ligados à primeira geração de
vermelhos, isto é manter o poder na mao da Segunda Geraçao de Vermelhos.
Dois exemplos
ilustram bem a relatividade dessa campanha tao anunciada pelo Presidente Xi Jinping
nos seus discursos:
Numa conversa com
um membro de uma NGO que ensina jornalismo a redactores de jornais oficiais,
este mesmo referiu-me como se admirara dos salarios extremamente ridículos que
recebiam . Face ao seu espanto um redactor explicara-lhe : “ O salário que
recebemos é suposto ser completado com os “envelopes “que somos suposto ir
recebendo no decurso do trabalho que fazemos para o jornal !”
Recentemente os
jornais anunciaram a tentativa de compra do hotel Waldorf Astoria em Nova Iorque
pelo grupo de Seguros Anbang, . Ora este grupo tem como dirigente
principal um membro da familia de Deng Xiaoping.
A pergunta que o
Prof.Zha e muitos outros se fazem é a seguinte: “Mas donde lhe vem todo esse
dinheiro que lhe permite fazer esta compra?”
Maria
Novembro 2014
quinta-feira, novembro 13, 2014
Por um país livre
Não me importo
nada de subscrever o que hoje escreve Francisco Assis no Público: o comunicado
do PCP sobre os 25 anos da queda do muro de Berlim é bem revelador da natureza
fascizante, opressiva e revisionista da História que caracteriza aquela agremiação.
Para o PCP, o
bloco soviético era o melhor dos mundos e o seu desmoronamento terá sido um
desastre.
Mas há uma
afirmação de Assis que não acompanho: a de que aqueles comunistas portugueses não
andam a enganar ninguém. Não é verdade! No meu entender, o aspecto respeitável
do Sr. Jerónimo de Sousa, as respostas prontas dos seus deputados e o discurso
melífluo alegadamente em defesa dos trabalhadores engana muitos incautos que não
se apercebem de que o poder nas mãos daquela gente transformaria o país num
Estado policial cuja primeira vítima seria a liberdade.
domingo, novembro 09, 2014
Café do molhe
Perguntavas-me
(ou talvez não
tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu
ouvia)
porquê a poesia,
e não outra coisa
qualquer:
a filosofia, o
futebol, alguma mulher?
Eu não sabia
Que a resposta
estava
numa certa
estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon
que Poe
(acho que era
Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e
tudo.
Porém se o
soubesse
de pouco me teria
então servido, ou
de nada.
Porque estavas
inclinada
de um modo tão
perfeito
sobre a mesa
e o meu coração
batia
tão
infundadamente no teu peito
sob a tua blusa
acesa
que tudo o que
soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de
que me lembro,
essa tarde
parada, por exemplo.
Manuel António Pina
sexta-feira, novembro 07, 2014
O Estado e o euromilhões
Se os meus cálculos
não estão errados e as minhas informações estão correctas, o Estado recebeu 18
milhões de euros porque um português acertou num prémio do euromilhões. Ou
seja, aquela lotaria não saiu apenas a um felizardo de Castelo Branco: o erário
público arrecadou uma maquia sem nada ter apostado. Eu diria que se trata de um
caso de dupla tributação, visto que já pagamos imposto no momento da aposta,
mas seja.
O que eu gostava
de saber é que destino vai o Estado dar a tal montante?
Vai cobrir as
despesas do gabinete de um ministro? Vai pagar mais umas viagens ao Dr. Paulo
Portas? Vai subsidiar os partidos? Confesso a minha ignorância, mas o que julgo
saber é que nem um tostão vai apoiar a Cultura, seja a subvenção de uma
orquesta, a contratação de professores para os Conservatórios, o enriquecimento de uma biblioteca ou o programa de
aquisições artísticas de um museu nacional.
Em Inglaterra os
proventos das lotarias revertem em 40% a favor da cultura (Arts and Heritage) e
é graças a isso que os museus britânicos se podem orgulhar de renovarem
regularmente as suas colecções e assim manterem um público interessado. Em
Portugal exportamos Mirós porque o orçamento não tem um ou dois milhões para
licitar um ou dois quadros. Ora parecer-me-ia mais que justo que quando o
Estado é desta forma indirecta assim premiado fosse suficientemente
transparente e lúcido para agarrar a oportunidade e valorizar, pelo menos numa
parte do ganho, o património artístico da Nação.
E já agora, que o
fizesse tendo em conta o país real, pois isso de concentrar na capital 10
museus nacionais, salpicando o resto do território com uns outros escassos e
pobres seis é tique que merece uma acirrada crítica. Estarei a ver mal?
domingo, novembro 02, 2014
A cidade do Porto tem uma palavra a dizer sobre o Museu Soares dos Reis?
Portugal teve as
suas épocas áureas em que o país se enriqueceu e se equipou do ponto de vista
cultural e artístico com o que de melhor se produzia cá e no estrangeiro. Mas o
país foi ciclicamente pilhado por gente de dentro e de fora, quando não destruído
por catástrofes naturais como o terramoto de 1755.
Um dos climaxes
da pilhagem foi a saída de Junot que, a coberto de uma vergonhosa convenção
apadrinhada pelos ingleses, levou centenas de carroças apinhadas de mobílias,
bibliotecas, quadros, pratas, porcelanas, etc. Posteriormente, o taticismo
militar do Duque de Wellington aquando da terceira invasão francesa pelas
tropas de Massena queimou metade do país. Uns e outros roubaram ou destruiram o
que de valor havia nas terras por onde passavam.
O cerco do Porto
e as lutas fraticidas que se seguiram durante o liberalismo prolongou a
devastação do património artístico nacional, com especial destaque para a região
norte, tantas vezes abandonada ao pior banditismo e já então ao suganço de um
centralismo crescente que importava os salvados para os palácios da capital.
Fialho d’Almeida denunciava
veementemente nos “Gatos” em finais do séc. XIX a indiferença política do Estado
perante o objecto de arte, quando não era esse mesmo Estado, através da corte
ou dos seus agentes, que participava alegremente na espoliação dos bens da nação
desviando-os para salões particulares ou desbaratando-os juntos de intermediários
de museus estrangeiros que funcionavam mais como larápios do que como amantes
de arte. A este propósito, ficou na memória
o testamento vergonhoso de D. Fernando, viúvo de D. Maria II, a favor de uma
ex-cantora de ópera, mais tarde condessa d’Edla, e no qual incluia ou pretendia
incluir bens da coroa e da nação, tais como o Castelo da Pena e o seu recheio para
além de tantos pertences do Palácio das Necessidades.
No período em que
se encerravam conventos aos seis ou oito por ano, foi um ver-se-te-avias pelas
portas do fundo, a esvaziar os edifícios com a conivência de colegiadas e
abadessas, lá ficando apenas algum penico rachado ou tapete esburacado. Registe-se
que entre os mais aplicados da matilha estavam os próprios membros das juntas
inventariantes que não perdiam a oportunidade de se servirem antes de fazerem
uma lista pobre. Um regabofe!
Conclusão: o país
não tem um museu decente de artes decorativas a não ser o Museu das Janelas
Verdes (Arte Antiga; Lisboa) e, no Porto, uma ou duas salas tristes no Soares
dos Reis.
Voltaremos para
ver mais de perto este Museu Soares dos Reis, que sendo nacional mas sediado no
Porto, é a meu ver revelador de uma visão empobrecida, senão provinciana, de um
centralismo cultural que não deixa de ser indigente. A cidade do Porto talvez tenha
uma palavra a dizer sobre o assunto.
quarta-feira, outubro 29, 2014
Questões de toponímia: Abaixo os Cabrais!
Se bem percebi, a
actual Câmara do Porto decidiu reexaminar a questão de vir a dar o nome de José
Saramago, o único Nobel português de literatura, a uma rua ou praça da cidade.
Acho muito bem. Nestas coisas da toponímia há que pôr as simpatias e antipatias
de lado e agarrarmo-nos a dados objectivos. Por muito que me possa incomodar a
pessoa em si, reconheço no autor do “Memorial do Convento” um dos nossos
maiores da língua portuguesa e o merecido galardoado do mais importante prémio
da literatura mundial.
Mais a mais numa
cidade que baptizou algumas das suas ruas com nomes da mais escassa honradez e da mais flagrante desonestidade. Um desses nomes é Costa Cabral.
António Bernardo
da Costa Cabral terá sido sem dúvida um político marcante do liberalismo na
primeira metade do século XIX mas poucos terão sido tão corruptos e
trauliteiros como ele. Homem de uma ambição desmedida, assumiu todas as
posturas, por mais contraditórias, que lhe fossem permitindo alcandorar-se ao
poder. Ali chegado, e com a protecção de uma rainha D. Maria II complacente a
ponto de constar uma relação equívoca entre os dois, locupletou-se a seu belo
prazer com os dinheiros públicos fazendo sua a receita de impostos que criou e
obrigando empresas públicas e privadas a oferecerem-lhe fortunas ( só entre
1842 e 1845 arrecadou para o seu património pessoal 15% da receita pública
anual), tendo-se transformado em poucos anos num dos homens mais ricos de
Portugal .
Costa Cabral cometeu
e fez cometer todo o tipo de fraudes, falsificou resultados eleitorais, roubou,
violentou a nação, fez-se conde e depois marquês, arbabatou-se com o Convento
de Tomar, perseguiu e censurou, lançou o país numa guerra civil destruidora de
tanta gente e de tanta riqueza, foi um verdadeiro campeão do nepotismo e da
arbitrariedade, enfim, deixou o país na miséria e no caos.
Como dizia alguém
seu contemporâneo, “ninguém lhe pode apertar a mão sem corar de vergonha”. Este
homem esperto, alguns diriam brilhante, de uma vivacidade invulgar e de uma
brutalidade única, que veio a morrer no Porto, mais precisamente na Foz do
Douro, era afinal e apenas um ladrão e um cacique de baixo estofo.
Por isso
atrevo-me a afirmar que a cidade do Porto não precisava deste insulto de dar a
uma das suas vias mais importantes o nome de um desavergonhado perigoso e que
este caso assenta em factos suficientes para que os serviços de toponímia da
Câmara revejam a história e nos limpem desta desconsideração.
Abaixo o
cabralismo! Mil vezes um Saramago!
terça-feira, outubro 28, 2014
Os auto-denominados anti-populistas
Andam por aí uns
políticos a acusar os seus críticos de populismo.
É natural que os políticos
profissionais se defendam e todos conhecemos o princípio de que na verdade não
há que perder o bébé no despejo da água do banho. Nem todos os políticos são
uns aldrabões ou uns calaceiros. Mas se a vox populi hoje desconfia da
generalidade dos políticos a culpa é destes, que não souberam ou não quiseram
arrumar a casa e limpar a soleira. E sobretudo não quiseram corrigir o regime
que os serve e de que se servem.
É muito salutar e
democrático que o povo questione os seus representantes. E esperar-se-ia que
estes, se na verdade são, como se auto-denominam, campeões da democracia,
aceitassem esse controlo como desejável e necessário. A verdade todavia é que
preferem pôr o acento tónico e o dedo acusador numa alegada deriva populista
que estaria a contaminar a sociedade. Nessa senda, despejam um discurso
moralisante fastidioso cuja mensagem subliminar é a de que eles são o sal da
pátria e os críticos uns fascistas em potência.
Nunca explicam
bem o que é o populismo mas o que se conclui do seu pensamento é que se alguém
defende a redução do número de deputados ou crítica a perda de soberania
resultante da prática quotidiana das instituições europeias, esse alguém devia
ser posto firmemente de quarentena, visto ser seguramente um populista-ébola
que nos quer levar ao desastre. Um desses profissionais arautos do federalismo
europeu classifica mesmo estes contaminados de ‘terroristas ideológicos’
embora, conceda-se, ainda não nos acuse de candidadtos à militância no Estado
Islâmico.
Esta cruzada
alegadamente anti-populista parece-me o negativo de uma outra cruzada que se
limita a berrar contra o neo-liberalismo, outro saco roto onde pode cair tudo
mas cujos contornos ninguém explica. É a mesma engrenagem, ainda que de outro
sinal. Julgam que com anátemas destes liquidam o crítico mas o que fazem é
fugir a sete pés do debate pelas portas do fundo, para se refastelarem nas suas
poltronas protegidas de ‘europeístas convictos’ (outro cliché) e de beatos
canonizados do situacionismo. E nós é que somos ‘terroristas’?
Ide pentear
macacos.
segunda-feira, outubro 27, 2014
La Grande Belleza
Um filme que me fascinou.
Talvez a si também.
domingo, outubro 26, 2014
A bravata engravatada dos novos corvos velhos
Consta que em
recente entrevista a uma televisão, o advogado Miguel Júdice anunciou o seu
apoio a António Costa.
Esta esperteza de
um dos advogados que mais dorme com o poder e com o Estado, seja este qual for,
faz-me lembrar aquela história divertida contada pelo historiador romano
Macrobius sobre Octávio César, mais tarde imperador Augusto, quando este
regressava da sua vitória sobre Marco António (e as forças de Cleópatra) na
batalha de Actium no ano 31 AC.
Octávio cruzou-se
na estrada com um homem que segurava um corvo/papagaio domesticado o qual saudava:
“ Salvé o nosso César, o nosso comandante vitorioso”.
Octávio ficou tão
impressionado que logo ali decidiu dar ao homem 20 mil sestércios de prémio. O
problema é que o domesticador tinha um sócio que, não tendo recebido a parte do
prémio a que se julgava com direito, foi ter com Octávio e sugeriu-lhe que este
exigisse conhecer o outro corvo a que também tinham ensinado a saudar o Marco
António, just in case.
Octávio achou
graça ao assunto mas, excepcionalmente, não reagiu com violência embora tenha
obrigado o primeiro a repartir o prémio com o segundo.
Estes escritórios
de advogados não precisam de ensinar corvos. Eles próprios se assumem como
papagaios a saudar o poder que julgam despontar ao longe na estrada, cientes de
que a seu tempo haverá retorno de sestércios. E revelam outra coisa: é que, de
facto, seja um Passos ou um Costa que assuma o poder, a dinâmica do regime
mantém-se pois nada muda e as conivências sucedem-se. Salvé César!
sexta-feira, outubro 24, 2014
O orçamento hermafrodita
Amanhã, Sábado
25, reune-se a Comissão Política Nacional do CDS.
Consta que é para
analisarem a proposta de orçamento já aprovada pelo governo de que aliás fazem
parte. Assim sendo, o que vão lá fazer os comissários que aparecerem? Provavelmente
debitar umas vacuidades do género “podia ser pior” ou “é melhor alguma coisa do
que nada”.
Não há novidade
nisto. O partido do irrevogável já nos habituou ao pisca-pisca que aponta para
o lado contrário daquele para onde vira. O vermelho das linhas inultrapassáveis
desbotou e fica-se pelo discurso do soldadinho disciplinado que mete a viola no
saco depois de cantar um fado corridinho nas tabernas do bairro. Ou então
encenam o “agarrem-me que senão eu bato-lhe”, pensando que o pagode vibra com o
melodrama e não se dando conta do enorme e irónico bocejo que percorre toda a
plateia.
Esta história do “Quem?
Eu? Foi o outro” já cansa. E entretanto servem de colchão a este orçamento
hermafrodita, excitados com a dupla sexualidade do bicho, uma confusão de tira
aqui e põe ali, e ora diga lá onde está a bolinha escondida, debaixo de que
copo. O apostador perde sempre, claro. O apostador somos nós, cidadãos
aparvalhados com aquele jogo de mãos, crédulos na primeira impressão e
desprevenidos, a tirar conclusões antes de bem verificar os dois lados da questão.
É macho ou fêmea? Nem um nem outro: é hermafrodita. Irra! E há quem goste? Pelos
vistos...
Nota: fotos da escultura romana do séc. II, exposta no Museu do Louvre, Paris ('O hermafrodita adormecido')
Novo postal de Pequim
Recentemente,
durante uma simpósio em Pequim, Xi
Jingping, actual presidente da China,
fez um discurso centrado na importância da arte e dos valores culturais
chineses. Fazendo eco a citações de Mao
Tsé Tung, referiu que a arte e o património cultural devem servir o povo e a causa socialista.
Mas a realidade
que encontro no terreno conta outra história:
“Para que possa perceber melhor a situação, imagine o pessoal
dos armazéns do Museu do Palácio da Cidade Proibida que para comer as “noodles”
durante o período de descanso, se serve das taças antigas em depósito no museu
. E se e por pouca sorte parte uma, das 20 que existiam passam a existir 19,
sem que haja qualquer reacção ou controlo por parte dos responsáveis .” -
comenta o jovem restaurador Qian He com
quem falo.
« Existem 20.000 pinturas chinesas
antigas nos armazénsdo Museu , armazenadas
em condições de manutenção
extremamente precárias e sem que haja especialistas suficientes para
levar a cabo o trabalho de restauro.” - acrescenta Qian He, que procura
apoios para a criação de uma escola de formação de restauradores para trabalharem nos Museus na China e assim evitar
que muito do património artístico e cultural se perca ou seja destruido.
O bisavô, Liu Ting Zhi , era em Shanghai o restaurador
mais solicitado e apreciado da dinastia Qing. Em 1949 , quando Mao chegou
ao poder, a família foi obrigada a entregar
ao museu de Shanghai a valiosa
colecção de pinturas chinesas que possuía e em 1966, aquando da revolução
cultural, foi obrigada a ir trabalhar no
campo . Aí sobreviveu até que, ainda
durante a revolução cultural, Liu Ting
Zhi foi chamado para Pequim para se encarregar do restauro das pinturas
num túmulo . Por lá ficou com toda a familia , onde as gerações futuras
continuaram a trabalhar como restauradores de pintura chinesa no Museu da
Cidade Proibida. E agora Qian He , quarta geração desta familia , com um tio
ainda a trabalhar no Museu, perante o desinteresse dos responsáveis no departamento
cultural da administração pública da cidade face à urgência em melhorar as
condições de restauro e conservação
deste património , projeta partir com a familia para os EUA. A universidade de Michigan
convidou-o para ir trabalhar no restauro das pinturas chinesas nos museus
americanos.
Ao falar com Qian
He e perante a tristeza que sente face
ao desinteresse das autoridades pela preservação de um património cultural tão
importante como o que se encontra arquivado nos armazéns do Museu da Cidade
Proibida , pergunto-me como interpretar o discurso do presidente Xi
Jingping.
Será que o presidente Xi , na
linha do presidente Mao, também agora projecta instrumentalizar cultura e
património cultural numa nova campanha de controlo da criação artística em
função dos interesses do Partido Comunista Chinês, para a qual o rico património
de caligrafia e pintura tradicional chinesa
do Museu do Palácio da Cidade Proibida não são suficientemente
importantes ?
Maria
Outubro de 2014
segunda-feira, outubro 13, 2014
O Salgado de lá
O Público de
Domingo dá notícia de mais uma especialidade do regime político vigente na
Madeira: a prorrogação antecipada e sem concurso da concessão ao grupo Sousa da
ligação marítima Funchal-Porto Santo, apimentada por novos benefícios e
regalias para o empresário.
Há dias soube-se
que o Ministério Público decidira arquivar o processo relativo às manobras
denunciadas a seu tempo pelo Tribunal de Contas de escamoteamento da dívida da
Madeira.
Com o Jardim é um
bailinho constante e o dano que ele vai deixar aos madeirenses será assunto que
há-de manchar todos os dirigentes nacionais que se foram sucedendo no PSD
assobiando para o lado enquanto lhe davam umas palmadinhas nas costas.
Às vezes
pergunto-me se o papel dele não será o de, pelo seu exemplo, dar aos
centralistas da capital um bom pretexto para adiarem a regionalização no espaço
continental do país.
domingo, outubro 12, 2014
O urinol
Portugal participa
com a colossal fortuna de 25 mil euros para a reconstrução de Gaza.
Consta que o
Presidente Cavaco vai ser convidado para inaugurar o urinol que as autoridades
de Gaza vão reconstruir com tão generoso donativo. Difícil vai ser decidir se a placa a assinalar o evento é fixada por cima ou por baixo da louça. Eu diria em baixo.
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