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quarta-feira, setembro 17, 2008
Bolinha
Já viram um concurso da SIC chamado “Momentos de Verdade”? Imagino que não, mas eu ontem vi. A coisa funciona assim: temos um concorrente a quem vão sendo feitas perguntas, a que tem que responder com verdade, porque, se mentir, o polígrafo acusa, e perde. À frente dele, na primeira fila, senta-se a família. A apresentadora faz as perguntas que vão sendo cada vez mais difíceis, e o “examinado” vai subindo de nível, e ganhando cada vez mais dinheiro. O concorrente era merceeiro. Á frente tinha a mãe, a mulher, a filha e o filho. Primeira pergunta: Já alguma vez roubou no peso da balança aos seus clientes? Resposta: Sim. Polígrafo: Verdade. Concorrente feliz, família feliz, público feliz, quanto aos clientes, não sei…Segunda pergunta: Incomoda-o a presença permanente da sua mãe no estabelecimento? Resposta: Sim. Polígrafo: Verdade. Concorrente a achar que estava a fazer uma grande figura, mãe triste com a resposta, mas apesar de tudo a rir-se e a bater palmas, público apoteótico. Terceira, ou quarta pergunta, não me lembro: Já bateu na sua mulher? Silêncio. Possibilidade de mudar de pergunta. Muito mal estar no banco da frente. Um nível à frente: Tem orgulho no seu filho? Resposta: Não. Polígrafo: Verdade. O rapaz chora à frente das câmaras. Desliguei a televisão. Calculo que uns níveis acima, a violência das perguntas, e o impacto das respostas, tenha aumentado. Pergunta: Quem protege estas pessoas e as famílias contra elas próprias? Resposta: ninguém. Polígrafo: verdade. Pergunta: E a nós de ver em directo tamanhas obscenidades? Resposta: ninguém. Ao menos, ponham bolinha.
domingo, março 04, 2007
"Decida você"!
Aqui há uns tempos, ia eu a pé não sei para onde, e eis senão quando sou interpelada do alto de um outdoor publicitário de uma paragem de autocarro sobre se achava que o D.Afonso Henriques tinha sido mau filho ou bom rei. Achei a pergunta um bocado estranha, embora convenhamos que aquela história de fechar a mãe no castelo de Lanhoso não tenha sido das mais felizes, é verdade, mas não interiorizei… Dias mais tarde, voltei a ver-me envolvida pela intensidade da dúvida que rodeia a personalidade do Infante D. Henrique: empenhado ou interesseiro? Aí não houve como fugir. Tive a certeza. O concurso dos Grandes Portugueses estava mesmo apostado em transformar as nossas personalidades históricas em seres com graves conflitos existenciais e problemas sérios de bipolaridade, mas só sexta feira é que tive a verdadeira noção do que se tratava, ao ler, a propósito de um abaixo assinado de vários historiadores contra o programa, que nenhum dos concorrentes finalistas tinha escapado a esta divisão esquizofrénica da personalidade, pelo que, o que havia, era que decidir alegremente entre ditadores e alienados, corsários e salvadores, torcionários e poetas, maus filhos e salvadores, sanguinários e descobridores, aventureiros e iluminados, para o lugar de maior português. Suspeito que nem desconfiaram que a partir destas características nem um português escorreito se conseguia, quanto mais um “grande” português! Mas podemos ficar descansados: “Só há lugar para um”! “Decida você!”
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