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segunda-feira, março 01, 2010

O nosso caminho

O assunto pode parecer complexo e desinteressante, mas é fundamental compreender o que se passa à cabeceira da Grécia, se quisermos antever o que nos espera e perceber quem metemos na nossa cama.

Mais de 2/3 da dívida grega está nas mãos da Alemanha, da Holanda e da França.
Se a Grécia não conseguir reunir até Abril cerca de 23 mil milhões de euros, arrisca uma suspensão de pagamentos cujas vítimas serão em primeira linha os próprios gregos, mas que provocará muita dor e ranger de dentes naqueles outros países.

Ou a Europa mostra o que vale e avança com um plano credível e solidário para tratar o assunto, ou a Grécia pede ajuda ao FMI e resolve provisoriamente a situação à semelhança da Hungria que a enfrentou em Novembro de 2008 através de um "standby loan" que esvaziou a pressão dos mercados.

A política do megafone e da encenação visual, palmadinhas nas costas com discursos contraditórios, "ajudo mas não pago", que Merkel, Sarkozy, Junker e outros vêm protagonizando são afinal a demonstração do que vale a tal Europa: pouco ou nada.

Seja por cálculos mesquinhos (o FMI é dirigido por Stauss-Khan, provável adversário de Sarkozy nas próximas eleições presidenciais), seja por jogos de "trompe l'oeil' eleitorais (Merkel quer sossegar os bávaros e não só), seja por desconfianças sobre o que ainda está escondido, enfim, por isto ou por aquilo, diz-se uma coisa hoje diferente da de ontem, desdiz-se ao microfone o que se garantiu 'intra muros' e cava-se a confusão e o desnorte.

A nível interno, é patente que não temos nem Governo nem Ministro à altura da situação. O silêncio à volta do PEC, mais os apelos à união à volta do PEC, qual novo e "patriótico" orçamento, mais a convicção de que não somos gregos e de que a Europa há-de estar connosco, são a pomada de feira que está disponível mas que não nos vai safar da cirurgia pesada.

É importante acompanhar o caso grego para percebermos o quanto temos de mudar de médicos. E de abrir janelas, com euro ou sem euro, com PECs ou sem PECs, para encontrar um caminho, o nosso.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

9,3%

9,3% de défice.

Significa que em cada 100 euros que o Estado gasta, 9,3 euros tem de ser pedidos a alguém.

As hipóteses são poucas. Ou nos pede a nós, contribuintes, rendimento-minimistas, funcionários públicos e pensionistas, ou tem de os pedir aos credores. Ao preço que estes estiverem dispostos a aceitar. E estes aceitam preços mais altos, quando consideram que a capacidade de pagar é mais duvidosa, quer dizer, quando o risco é maior.

Confuso? Não. Se um vosso primo vos pedir dinheiro emprestado, a primeira coisa que vos virá à cabeça é, naturalmente, a capacidade desse primo pagar (e, paralelamente, a credibilidade dele, que é como quem diz, se é pessoa de palavra, ou não). Depois, podemos pensar noutras coisas: para que é o dinheiro, a urgência do pedido, se é para investir ou para consumir, etc. etc.

Perante isto, custa a compreender como é que os projectos de despesa do governo se mantém quase inalteráveis, em especial nas obras públicas. Sobretudo, como é que não se reavaliam as consequências da crise que se está, ainda, a viver.

E, porventura mais importante, como é que não se filtram essas intenções de investimento pelo impacte que tenham na capacidade futura do País criar riqueza, mais riqueza e mais depressa, para poder deixar de pedir emprestados 9,3 euros por cada 100. E se possível, para poder criar algum excedente para pagar parte da dívida entretanto acumulada...

Ora, mesmo para quem considere que as intenções de investimento dos privados são praticamente inexistentes - e portanto que o Estado deve intervir para assegurar que alguém investe -, a verdade é que muitos dos investimentos que estão previstos não passam esse crivo. Pior ainda, muitos deles eram dificilmente justificáveis antes da crise e são completamente anti-económicos agora (auto-estradas sem procura e o novo aeroporto de Lisboa) ou não correspondem às soluções que poderiam maximizar a respectiva rentabilização (terceira travessia do Tejo e rede de Alta Velocidade).

Confuso? Não. A minha avó resumia a coisa assim: quem não tem dinheiro, não tem vícios. Que é como quem diz, em época de aperto cortam-se as despesas inúteis, reduzem-se as necessárias e evitam-se as supérfluas; investe-se cautelosamente e rentabilizam-se os activos já existentes. Exactamente o que o Governo se propõe fazer... não é verdade!?!

A pergunta que todos nos devemos colocar, perante a situação actual, é a seguinte: QUANTO É QUE ESTOU, EU PRÓPRIO, DISPOSTO A PAGAR, DAQUI A UM ANO, CINCO, DEZ, 25 OU 50 ANOS, POR CADA 100 EUROS QUE O ESTADO VENHA A GASTAR agora (ou a induzir os privados a investir, que é o mesmo)?

Sublinhe-se que por cada 1 euro que o Estado projecta investir, irá estimular os privados a investir 3 euros, dizem muitos entendidos. Nos projectos de obras públicas. Fora do Orçamento de Estado - que é como quem diz, à margem do debate e controle parlamentar... (cerca de 6% do PIB, coisa pouca).

Privados esses que, como é evidente, o farão a bem da Nação!!!

E depois digam que a culpa é das agências de rating...

É possível um Portugal melhor. Mas é preciso querer.