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quarta-feira, abril 28, 2010

Novos vulcões



Ontem houve um vulcão que voltou a cuspir cinza: a declaração de que os títulos de dívida da Grécia equivalem a investimentos especulativos (junk bonds) e a de que os de Portugal também não são muito fiáveis. As respectivas bolsas vieram por aí abaixo e agora só podem voar os passarões de motor a hélice: um foi esta manhã a S. Bento levar milho a um outro pardal que por lá esvoaça.

Os piriquitos de Bruxelas agitaram-se mas não demasiado. Acham que é preciso uma reunião de "emergência", do género da emergência que sentiram quando havia 250.000 passageiros encalhados nos aeroportos e resolveram, passados 5 dias, macaquear por tele-conferência um esboço de qualquer coisa. Desta feita, e beneficiando da experiência 'calma e serena' de galinácios que se julgam falcões, marcam para 10 de Maio uma reunião extraordinária do Conselho Europeu. Tal é a emergência.

Claro que isso nada tem a ver com o facto de estarem previstas eleições na Alemanha para o dia 9. Cruzes canhoto, nada a ver. Entretanto, vamos ver quanto desce a bolsa hoje, para contentamento do "Grande Educador" de Luanda, que deve estar a esfregar as mãos de contente por abocanhar a Galp por tuta e meia.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Sirvam a vichyssoise


Imagino que logo ao fim da tarde e depois de mandarem fechar as portas, os dirigentes europeus ataquem uma vichyssoise como entrada de um repasto agitado donde é suposto saírem os nomes do Presidente do Conselho Europeu e do Vice-Presidente da Comissão e Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança.

A pomposa designação dos novos cargos (só o segundo comporta mais de 10 palavras) espelha, a meu ver, esta tendência moderna de carregar no embrulho sem curar muito de saber o que se põe dentro. Aliás, a profusão de candidatos e a regateirice inter-pares que a tem acompanhado demonstra pelo menos duas coisas: que não há nomes óbvios, pois são todos de uma medíocre mediania, e que esta barafunda é apenas o prenúncio da confusão que se lhe seguirá relativamente ao exercício das competências de uns e de outros. Nessa, como noutras matérias, o Tratado de Lisboa cumprirá os seus objectivos, isto é, complicar mais e afastar ainda mais o cidadão.

O debate de ontem na Assembleia da República sobre o dito tratado foi igualmente esclarecedor: uma chatice que desmobilizou mais de metade dos deputados e onde o ministro Amado repetiu uns lugares comuns para contento de um hemiciclo quase vazio que desesperava por ir tratar de outras coisas.

A presidência sueca encomendou pequeno-almoço, pois receia-se que as "negociações" de logo se prolonguem pela noite adentro e chegue a hora matinal de café e croissants sem que haja fumo branco.

Como diria David (salmo XLII, 8): "Abyssus abyssum invocat"

quarta-feira, outubro 28, 2009

Enquanto vendemos tapetes

Enquanto os responsáveis europeus se vão entreter amanhã e depois em Bruxelas a regatearem entre si os novos postos que o Tratado de Lisboa inventou para barafundar ainda mais a burocracia da União, ocorrem factos a leste que deviam merecer a melhor atenção.

A visita de Erdogan, o primeiro-ministro turco, ao seu vizinho iraniano Ahmadinejad na Terça 26 é um claro sinal de que a Turquia procura caminhos alternativos à sua comprometida adesão europeia, já que a Europa se tem comportado para com ela como um aldrabão que promete baldes de plástico em troca dos anéis de ouro.

Se a Europa falhar em arrimar a Turquia ao nosso espaço e aos nossos valores, será inevitável que aquele país e aquelas gentes se aliem ou aos persas ou aos russos. Sempre assim foi. E tal seria, na minha modesta opinião, um desastre para todos nós.

Sei bem que a adesão turca à União Europeia levanta dúvidas e reservas em muito boa gente, mas seria importante que essa questão fosse esclarecida de uma vez por todas e houvesse pelo menos a decência, já nem falo em coragem, de assumir resolutamente uma escolha, seja ela qual for. A Europa descredibiliza-se irremediavelmente neste teatro de sombras em que as negociações de adesão se transformaram por influência dos únicos interesses eleitoralistas franceses e alemães.

O nosso governo e o nosso ministro Amado acham que tudo isto não vale nada e estão prontos para o seguidismo do costume atrás do traseiro parisiense. Na verdade, no Palácio das Necessidades não há qualquer réstea de ideia sobre qual seja ou deva ser a nossa política externa nem quais são os nossos interesses estratégicos. São, ao mais alto nível, uns amadores a brincar com fósforos e escondem a sua ignorância com aquele tom enjoado e sofrido (ou será azia no fígado) com que preferem falar no eventual regresso da menina Alexandra.

Um nojo.

sexta-feira, junho 12, 2009

A próxima missa


Nas vésperas do Conselho Europeu de 18 e 19 de Junho, aquela coisa em que os dirigentes da União fazem uma enésima foto e saúdam algum novato ou se despedem de um apeado, manobra-se à tripa forra por causa dos lugares e dos poderes.

É evidente que vão preparar uns parágrafos a dar ideia que se ocuparam muito de questões ambientais ou que se debruçaram sobre a regulação dos mercados financeiros, mas tudo isso será para entreter o pagode com o blá-blá do costume.

Desgraçadamente, não acredito que façam sequer uma discussão séria e honesta sobre os resultados das eleições europeias, até porque esta gente o que quer é que nos esqueçamos o mais depressa possível que quase 60% dos cidadãos lhes virou as costas e deixou de acreditar neles.

As verdadeiras manobras centrar-se-ão em dois aspectos: o primeiro, que "garantias" oferecer à Irlanda para que esta organize o tal segundo referendo (voltar a uma Comissão com um nacional por Estado-Membro? renunciar a qualquer pretensão de harmonização fiscal? pôr travões à imigração?). Mas o busílis da coisa está na forma, pois não é líquido que um tal compromisso seja juridicamente válido por mera resolução de um Conselho Europeu e, por outro lado, avançar com um novo Protocolo pode obrigar a reiniciar em vários países os processos nacionais de ratificação do tratado de Lisboa.

O segundo osso a roer tem a ver com a designação do próximo presidente da Comissão e dos outros putativos postos, caso "Lisboa" veja a luz do dia. Contrariamente ao que diz a generalidade da imprensa portuguesa e os papagaios a soldo, os argutos perceberam que seria um erro político grave designarem já formalmente o Barroso (que seria assim chamado a submeter-se a um voto do Parlamento Europeu onde as negociatas ainda não terminaram) e a formar um colégio de apenas 18 comissários à luz das regras em vigor (tratado de Nice 'oblige'). Ora isso calha mal, pode irritar uns tantos e contradizer a tal promessa aos irlandeses.

Vai daí, esta pérola do apoio "sem ambiguidades" ao nosso artista, mas só de boca, nada de papel assinado, e com este recado: "vai ali conversar com o parlamento e volta com um programa escrito (que te vamos ditar)".

É a União Europeia, está bem?
O que não é, aliás, nenhuma novidade para o Durão, pois ele sabe bem que atrás de um claro apoio a um Vitorino se pode esconder um Zé Manel. Certo? Certo!

sábado, março 21, 2009

Obrigadinho




Terminou na Sexta, em Bruxelas, o Conselho da Primavera, reunião magna da União Europeia. À hora a que escrevo, e já são decorridas mais de 30h sobre o fim dos trabalhos, ainda não está disponível no site da União o documento oficial das suas conclusões. Isto é muito bom sinal, pois, se foram todos para fim-de-semana às 13h de Sexta, incluindo os funcionários que era suposto publicarem o documento, quer dizer que a situação não é grave e, portanto, não há pressas.

Entretanto, leio na imprensa portuguesa que o Sócrates ficou satisfeito, pois traz a promessa de uns exorbitantes 102 milhões (2%), que foi o que nos coube de um “impressionante” envelope de 5 mil milhões encontrados em fundos de caixa (isto dos orçamentos da União é como nas bodas de Caná: há sempre vinho).

Diz o Sr. Eng.° que com estes 102 milhões vai impulsionar a ligação da rede eléctrica com Espanha, ampliar a banda larga e desenvolver o meio rural. O Amado, que estava ao lado dele na conferência de imprensa, não se riu nem mugiu, pois sabe que o nosso Primeiro conhece o truque dos pães e dos peixes e por isso estamos safos.

Ora, tirados aqueles 102 para nós, o remanescente diz que é para capturar o dióxido de carbono e para trazer gás do mar Cáspio. Parece que há imenso carbono a capturar, visto que li na imprensa inglesa que esta coisa do Cáspio (o pipeline Nabuco) apenas beneficiará de 200 milhões, o que com sorte, e desde que se conheça o caminho das pedras, talvez dê para mais uns estudos de viabilidade e de consultadoria.

Sempre fui fraco em contas, que o diga a D. Maria da Graça que na primária me moía as orelhas por causas de uns tanques que tinham umas torneiras a jorrar e ao mesmo tempo a água a fugir por uns ralos, enfim, aquilo dava-me umas vertigens e eu bloqueava.

Mas tudo somado, diria eu, a medo, que o que sobra daquele pacote dos 5 mil não é despiciendo e ainda vai acabar nos pipelines concorrentes, o south-stream e o north-stream, ou seja, uns projectos imaginados pelo Putin, Schroeder e Berlusconi, e que hão-de ser a nossa felicidade energética, nossa deles.

Ah, já me esquecia: decidiram cancelar a reunião sobre o desemprego (parece que os 9% nem é tão mau como isso) e devem ter enterrado definitivamente a chamada “Agenda de Lisboa”. Lembram-se? Não faz mal.