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sexta-feira, dezembro 07, 2012

Corta e cose


O parlamento aprova uma lei de reorganização administrativa que obriga  à extinção, por agregação, de um número considerável de freguesias (cerca de mil num universo de 4260).

Do meu ponto de vista, é necessário proceder a uma reorganização do mapa autárquico e, sobretudo, a uma reavaliação da forma como o poder local está funcional e territorialmente organizado. Qualquer mexida no mapa e nas competências autárquicas que não englobe a aplicação da obrigação constitucional de regionalizar o país, bem como de uma reforma profunda do actual sistema eleitoral, não passará nunca de uma falsa e desajustada medida de corte e costura que nos distrai do essencial, ou seja, da forma como entendemos que o poder político se exerce democraticamente e se enraíza junto das populações.

A discussão semântica a que ontem assistimos no parlamento sobre se se trata de uma extinção de freguesias ou de uma agregação é bem demonstrativa, a meu ver, das nuvens de fumo que uns e outros expelem para esconder o que verdadeiramente importa.

Esta auto-denominada reforma sofre além do mais de vários outros calcanhares de Aquiles que ajudarão ao seu insucesso. Desde logo, o facto de ser pilotada por um ministro que já há muito tempo devia ter deixado de o ser e que a cada dia está mais desacreditado. Em segundo lugar, pela maneira burocrática e receosa das populações como tem sido gerida pelos seus mentores. Em terceiro lugar, pela maneira cobarde e manipuladora como vem sendo apresentada como uma mera obrigação “troikiana”. Em quarto lugar, pela arrogância teimosa e brutal a que afinal se reduz uma alegada firmeza de propósitos da maioria parlamentar.

O Governo e a maioria bem podem levar avante as suas intenções e riscarem na agenda mais um item do plano de trabalhos, mas estão, no modo, a comprar lenha para se queimarem mais adiante. Já lá está uma granada ao retardador que rebentará a seu tempo: a definição ulterior, por um processo pouco claro, da sede das freguesias agregadas. Diga-se, por exemplo, que a ideia de sedes rotativas avançada pela UTRAT (Unidade Técnica para a Reorganização Administrativa do Território) me parece reveladora da fuga para a frente que apenas trará ressentimentos e confusões.
 
Custa-me, enfim, compreender a argumentação de quem se afirmando contra a extinção de freguesias aceita contudo dirigir aquela UTRAT: refiro-me obviamente ao Prof. Manuel Porto, pessoa que respeito mas que aqui me deixa absolutamente perplexo. Às vezes, há quem aceite cantar contrariado.