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domingo, novembro 02, 2014

A cidade do Porto tem uma palavra a dizer sobre o Museu Soares dos Reis?


Portugal teve as suas épocas áureas em que o país se enriqueceu e se equipou do ponto de vista cultural e artístico com o que de melhor se produzia cá e no estrangeiro. Mas o país foi ciclicamente pilhado por gente de dentro e de fora, quando não destruído por catástrofes naturais como o terramoto de 1755.

Um dos climaxes da pilhagem foi a saída de Junot que, a coberto de uma vergonhosa convenção apadrinhada pelos ingleses, levou centenas de carroças apinhadas de mobílias, bibliotecas, quadros, pratas, porcelanas, etc. Posteriormente, o taticismo militar do Duque de Wellington aquando da terceira invasão francesa pelas tropas de Massena queimou metade do país. Uns e outros roubaram ou destruiram o que de valor havia nas terras por onde passavam.

O cerco do Porto e as lutas fraticidas que se seguiram durante o liberalismo prolongou a devastação do património artístico nacional, com especial destaque para a região norte, tantas vezes abandonada ao pior banditismo e já então ao suganço de um centralismo crescente que importava os salvados para os palácios da capital.

Fialho d’Almeida denunciava veementemente nos “Gatos” em finais do séc. XIX a indiferença política do Estado perante o objecto de arte, quando não era esse mesmo Estado, através da corte ou dos seus agentes, que participava alegremente na espoliação dos bens da nação desviando-os para salões particulares ou desbaratando-os juntos de intermediários de museus estrangeiros que funcionavam mais como larápios do que como amantes de arte.  A este propósito, ficou na memória o testamento vergonhoso de D. Fernando, viúvo de D. Maria II, a favor de uma ex-cantora de ópera, mais tarde condessa d’Edla, e no qual incluia ou pretendia incluir bens da coroa e da nação, tais como o Castelo da Pena e o seu recheio para além de tantos pertences do Palácio das Necessidades.

No período em que se encerravam conventos aos seis ou oito por ano, foi um ver-se-te-avias pelas portas do fundo, a esvaziar os edifícios com a conivência de colegiadas e abadessas, lá ficando apenas algum penico rachado ou tapete esburacado. Registe-se que entre os mais aplicados da matilha estavam os próprios membros das juntas inventariantes que não perdiam a oportunidade de se servirem antes de fazerem uma lista pobre. Um regabofe!

Conclusão: o país não tem um museu decente de artes decorativas a não ser o Museu das Janelas Verdes (Arte Antiga; Lisboa) e, no Porto, uma ou duas salas tristes no Soares dos Reis.

Voltaremos para ver mais de perto este Museu Soares dos Reis, que sendo nacional mas sediado no Porto, é a meu ver revelador de uma visão empobrecida, senão provinciana, de um centralismo cultural que não deixa de ser indigente. A cidade do Porto talvez tenha uma palavra a dizer sobre o assunto.