sexta-feira, outubro 30, 2015

all hallows eve

Aqui fica, a propósito do momento, em post artigo em http://rr.sapo.pt/opiniao_detalhe.aspx?fid=34&did=127620 de Aura Miguel

Halloween

30 Out, 2013
Os motores da poderosa máquina comercial aí estão, de vento em popa! Quem quiser, ainda vai a tempo de se mascarar.

De olhos postos nesta sexta-feira, é vê-los a pedir aos pais os objectos mais incríveis, para se vestirem de bruxas, vampiros, monstros e seres medonhos, de preferência com sangue e marcas de crimes. O que está a dar mesmo é exaltar o medo, o terror, as almas penadas e todo o universo de criaturas tenebrosas. Mas esta opção pelos símbolos do mal e da morte não atinge apenas os mais novos. Veja-se a quantidade de jovens e adultos que se pintam e transformam em zombies – ou lá o que é – para, supostamente, se divertiram na “noite das bruxas”. Qual noite?
Segundo a lenda pagã dos celtas, é a noite do Jack O’Lantern, que ofereceu a alma ao diabo e cuja alma penada fica reduzida à famosa abóbora vazia iluminada por dentro. Mas é também – desde sempre e ainda hoje - uma noite importante para rituais satânicos, encontros esotéricos e sessões com druidas e magos.
Os primeiros cristãos substituíram-na pelo culto de todos os santos – como, aliás, sugere a tradução original da palavra “Halloween” (all hallows eve – véspera de todos os santos). Originariamente, esta solenidade celebrava-se a 13 de Maio, mas o Papa Gregório IV, no ano 834, deslocou a festa de todos os santos para 1 de Novembro (com vésperas litúrgicas dia 31 de Outubro), exactamente para erradicar superstições e ocultismos pagãos ligados a esta data.
A tradição cristã convida pois os seus fiéis a celebrar os santos e aponta-os como modelos de vida. É que os santos recusaram as trevas e optaram pela luz e pela verdade; são homens e mulheres de todas as idades e origens que não se deixam reduzir a abóboras vazias nem a cabos de vassoura.

segunda-feira, outubro 26, 2015

Arrivistas, Fantoches & Travestis

Ontem, na televisão, assisti a esta coisa extraordinária: perguntaram a Ferro Rodrigues se preferia ser presidente da Assembleia da República ou ministro da coligação de esquerda que António Costa estava a preparar. Um político com alguma qualidade - leia-se, capaz de mentir mantendo um ar imperturbável - teria respondido à pergunta do jornalista com qualquer coisa como "num ou noutro desses dois lugares irei servir o meu país o melhor que souber e puder". Era a resposta politicamente correcta. Mas Ferro Rodrigues, sem surpresa, respondeu de outra forma! Disse ele "fico naturalmente dividido mas em qualquer das situações irei ficar na História". Em boa verdade, ele já tinha entrado na História. Mas quer mais História. A ele, a todos eles, é exactamente, exclusivamente, isto que os move: "ficar na História". Seja a que preço for. Mas há mais, percebe-se nas entrelinhas: está em idade de começar a tratar de assegurar o futuro. E, presidente da Assembleia da República ou ministro, que importa?! O que verdadeiramente o preocupa não é servir o país, como deixou bem claro na resposta. Esta sua "entrada para a História", é a garantia de um lugar de administração num qualquer banco e, depois, uma reforma milionária. É preciso "entrar na História" para chegar a esse patamar. E, isso sim, é o que verdadeiramente lhe interessa. Quanto ao mais, como brincava um velho amigo meu sobre a postura dos políticos ,"o povo que pague a crise! são muitos mais e já estão habituados"!

Tal como o seu nº 2, "entrar na História" é, já todos tínhamos percebido, a ambição desmedida do Costa. E, em "bom" político, foi preparando cuidadosamente o seu plano para lá chegar. Incapaz de um rasgo de génio, copiou a papel químico Jorge Sampaio e candidatou-se à Câmara de Lisboa para se dar a conhecer ao país. Farto de Lisboa - onde nem sequer vive porque não quer e não gosta - e não sendo, aliás, uma missão que o entusiasmasse mas apenas um meio para atingir um fim, quando achou que chegara o momento certo, rasteirou pelas costas o colega Seguro e, da forma lamentável a que todos assistimos, chegou a líder do PS. Quando a abstenção - o "partido" que venceu com maioria absoluta - demonstra estar cansado da baixa politiquice e não reconhece a menor credibilidade aos profissionais da política, António Costa - que agora surge como o grande analista e intérprete da vontade dos portugueses nas eleições - fez na campanha a triste e deplorável figura do político no seu pior: mentindo a torto e a direito, não hesitando sequer em recorrer ao supremo descaramento e desonestidade intelectual de responsabilizar Passos Coelho pela vinda da Troika no debate com que todos vimos na televisão. Vale tudo!!! Quando todos os analistas de serviço lhe deram a vitória no debate, comentei para mim mesmo "perdeu aqui as eleições!" . Não me enganei! Perdeu, de facto, em toda a linha: pediu aos eleitores uma maioria absoluta e teve o desastroso resultado que se viu. Apesar de quatro anos de medidas duras e impopulares mas, não tenho dúvida, absolutamente necessárias, Passos Coelho e Paulo Portas ganharam-lhe, ainda assim, as eleições - que Costa dava como favas contadas porque dificilmente entende que um povo sério saiba que era inevitável ao devedor respeitar as exigências do credor e à coligação não restava alternativa senão gerir a tenebrosa herança que recebeu de Sócrates. E por isso mesmo lhe deu novamente a maioria do seu voto. Qualquer outro político teria apresentado imediatamente a demissão perante o descalabro desta derrota do partido que lidera. Mas Costa não apresentou, também sem surpresa e também sem vergonha nem dignidade. Para "salvar a honra do convento", houve vozes discordantes no PS que revelaram uma dignidade que faltou ao líder e deram disso público testemunho. Mas Costa assobiou para ao lado e tal como o seu número 2, também ele quer "ficar na História", seja a que preço for. Ainda o veremos um deste dias a telefonar à mãe: "Mamã, sou primeiro-ministro!"

Vai conseguir, aparentemente, "ficar na História". Pelos piores motivos, direi eu. De facto, corremos todos sérios riscos de o ver chegar a primeiro-ministro. Se isso acontecer, para a História ficará como o político que, depois das nossas lutas na rua para evitar que os comunistas tomassem o poder, faz-nos agora regressar aos lamentáveis e de triste memória tempos do PREC, do alucinado Vasco Gonçalves e dos seus amigos comunistas, sentados no governo a nacionalizar tudo a eito e a destruir a economia com o exclusivo objectivo de provocar pobreza e, com isso, ganhar votos entre os empobrecidos. Onde estava o Costa quando nós, democratas, estávamos na Alameda ?... Muito provavelmente do outro lado da barricada, ao lado do pai, um comunista irredutível, como bem recordou o irmão Ricardo Costa outro dia.

É esta a figura que se perfila como possível futuro primeiro-ministro de Portugal. Se for esse o nosso triste destino, deixo já aqui o desafio: no dia da eleição do novo presidente da república, seja ele quem for, vamos todos manifestar-nos na rua! "Eleições já!" é a palavra de ordem que sugiro. Antes que ele e os novos (ou nem por isso?...) amigos comunistas - que só sobrevivem eleitoralmente com os votos dos mais pobres, incultos e desfavorecidos - tenham tempo de nos afundar outra vez e tenhamos o Costa (a copiar Sócrates como copiou Sampaio) pedindo, com aquele sorriso patibular que todos lhe conhecemos, o regresso da troika e um novo resgate e, com ele, mais quatro anos de austeridade, como lucidamente previu ontem António Barreto na sua intervenção na televisão.

"Ficar na História!!!...". É o que temos: os arrivistas desesperados pela única oportunidade que terão na vida para andarem de Mercedes com motorista "próprio" e garantir, para o futuro, uma reforma dourada que nunca teriam se prosseguissem no cinzentismo e na mediocridade das suas vidas pessoais e profissionais.

Em 1974, Portugal era um país do terceiro mundo. (Para dourar a pílula, chamava-se a isto, país em vias de desenvolvimento). Absurdo que possa parecer às gerações actuais, em pleno final do século XX, uma das primeiras medidas do Conselho da Revolução que nos governou a seguir ao 25 de Abril - já ninguém se lembra disto! - foi mandar a tropa para a província ensinar o povo a ler e a escrever! Imaginam os magalas, esmagadoramente vindos das berças, a dar aulas de português aos analfabetos? Mas foi exactamente assim, honra lhes seja feita, coitados!. Não conseguiram, obviamente, ensinar o povo a ler e a escrever que, por isso mesmo, continuou tão analfabeto e inculto como era antes, por mais uns bons pares de anos. Graças à Democracia, os filhos deles já foram à escola, aprenderam a ler e a escrever e vários deles até chegaram a ministros. Mas se não ensinaram o povo a ler e a escrever, ensinaram-no seguramente a assinar o nome. E por esta via, ficou facilitado o recenseamento eleitoral. Não surpreende, por isto, a importância que nessa época o partido comunista conseguiu alcançar. Os comunistas, bem o sabemos, inexistentes nos países civilizados e avançados, só sobrevivem em países de terceiro-mundo e a falta de cultura e a pobreza do povo é, para eles, a única garantia de sustento e sobrevivência. "Quanto pior, melhor", como bem pensaram e bem executaram enquanto puderam.

Quando, em 1989, caiu o muro de Berlim e começou a escancarar-se o absoluto horror catastrófico do comunismo que governou a Europa de Leste depois da II Guerra, todos os partidos comunistas europeus se apressaram a mudar de nome para tentar passar entre os pingos da chuva e assegurar a sobrevivência futura (e o tacho dos subsídios estatais que os mantem à tona). Na Europa, despareceram em todo o lado. Menos em Portugal. Álvaro Cunhal, sempre irredutível - à insistência no erro chamam os seus devotos "coerência"! - e tão incapaz de entender o futuro como Salazar (de tão igual a ele em tantas coisas, parece tê-lo tido por mestre nas artes de manipular o povo!), insistia que Gorbatchov era um traidor, que a Perestroika era uma catástrofe para o "povo unido" e Marx e Lenine continuariam, até à morte, a ser, para ele, os seus deuses na terra. Contrariar a opinião do "grande ditador do proletariado" era garantia absoluta de despedimento do partido com justa causa e poucos foram os que ousaram fazê-lo. No leito de morte, os que lhe sucederam devem ter-lhe jurado fidelidade até ao fim e continuam talvez por isso, quais "robertos", fantoches em teatros de rua, a reproduzir a mesma cassette que ele deixou escrita para ser lida e repetida "ad eternum" e "ad nauseam". A União Europeia é, para eles, a razão de todos os males do mundo e advogam, para a alegria e bem-estar do povo que os sustenta, a saída da Europa, do Euro, da NATO e, deduzo eu (porque nunca explicaram que apoios têm fora destas duas organizações...), proponham uma união com a Coreia de Norte que tanto devem apreciar. De facto, não vejo outros países - talvez a Venezuela dos nosso dias, não sei... - que defendam os mesmos princípios e objectivos nem lhes sobre muito mais na escolha de parceiros, graças a Deus. A China, agora convertida ao capitalismo mais feroz, foi sempre para eles um ódio de estimação, não porque fosse substancialmente diferente no conteúdo e na forma mas simplesmente porque lhes roubava a clientela. E nesta altura, até já nem com Cuba podem contar, agora que o irmão do Fidel se rendeu aos encantos dos Estados Unidos e do mundo ocidental e anunciou até, pasme-se!, a sua possível conversão ao catolicismo! A velhice, a senilidade, - o homem está com 84 anos! - tem coisas destas quando o fim se aproxima... "Yo no creo en Dios pero que hay Dios, hay..." dirá o velho ditador para os botões da sua farda de general.

Tão ferozes contra a União Europeia (cuja única virtude parece assentar nos ordenados milionários que pagam aos deputados em Estrasburgo e sempre lhes ajudam a aliviar a falta de receitas pela quebra de militantes...), contra o euro e contra a NATO são os outros comunistas, estes mais envergonhados de o serem e que, por isso mesmo, se apresentam travestidos de "bloquistas", o que quer que isto signifique. Mas são, dizem eles, um "bloco", o que, segundo reza o dicionário, é um "conjunto cujos componentes dependem uns dos outros: doutrinas que formam um bloco inteiriço". No português do Brasil, mais pragmático e menos coloquial, bloco significa "grupo de carnavalescos", segundo o mesmo dicionário. Nada me parece mais apropriado para este grupo folclórico que, como os mascarados nos desfiles da Sapucaí, tentam a custo travestir-se de democratas e esconder a sua verdadeira identidade e ideologia. Uns e outros ainda vão conseguindo enganar os que, na famosa campanha de alfabetização de 74/75 não conseguiram aprender a ler e a escrever e, também por isso, continuam pobres e a comprar as fantasias e ilusões que lhes impingem. Mas, admito, já só mesmos esses e mais meia-dúzia de tontos ditos "independentes de esquerda" (ou "independentes de direita", que também os há e votam no bloco!). E, finalmente, admito, alguma juventude desempregada, desiludida e radicalizada, que por lá vai militando enquanto aguarda o visto e o bilhete de avião para a Turquia. E se hoje me atrevo a dar testemunho do que me vai na alma - vão chamar-me "anti-comunista primário", já prevejo, é afinal o único "contraditório" a que recorrem perante a falta de argumentos inteligentes!!!! - pretendo apenas aproveitar eles não terem ainda chegado ao poder. A partir desse dia, serei obrigado a emigrar ou a calar-me: a liberdade de expressão é o primeiro dos direitos que eles tentarão abater, como determinam aliás as cartilhas dos regimes que ambos, PC e Bloco, defendem. E a que o PS, para "ficar na História" e não perder a maioria parlamentar, não deixará de ceder quando o momento chegar. A isto como a tantas outras coisas que eles já estão a preparar... (Veja-se o ar de mal disfarçada alegria vitoriosa da Catarina Bloquista na entrevista a Maria Flor Pedroso. Vale a pena! Ficamos a saber que Costa disse a tudo que sim!...). Isto de "ficar na História" tem alguns custos, pensará o Costa para sio mesmo...

Não me surpreenderia, agora que alegadamente detêm a maioria absoluta no Parlamento, os dois partidos comunistas proponham - leia-se, imponham ao Costa - mudar o nome do país: em vez de Portugal, um nome que vem do "antigamente", logo, perigosamente de direita, se não mesmo fascista e, como contributo decisivo, venha a terreno a lucidez e a superior sabedoria do bloquista e historiador Fernando Rosas, explicar que o nome "Portugal não foi democraticamente escolhido pelos seus nacionais e deverá por isso ser mesmo alterado e eliminado dos dicionários", passando a chamar-se daqui em diante "Teoria". Neste novo país, a vida é um regalo, explicarão eles, com o ar convicto de quem, como é invariavelmente o dos grandes educadores do povo que detém a verdade suprema, tudo corre às mil maravilhas e "o Sol brilhará para todos nós" como todos eles insistentemente cantam, prometem e asseguram a quem (ainda) os queira ouvir e acredite numa palavra do que eles dizem!

Acabo já este desabafo: depois das lutas pela defesa e consolidação da Democracia que tantos como eu travámos, ver este grupo de arrivistas, fantoches e travestis - les beux esprits se rencontrent... - como nossos governantes; depois de tantos como eu termos dado o nosso voto à coligação que venceu de facto as eleições e que a "maioria de esquerda", em verdadeiro "golpe de estado" de inspiração estalinista - "filho de peixe sabe nadar"... - se propõe impedir que governe; depois de, pela mão de outro socialista que já assegurou a sua entrada "na História" por tantos e tão diversos motivos, José Sócrates de triste memória, termos passado pelo vexame de ser obrigados a chamar outra vez uma troika estrangeira para, uma vez mais, tentar ensinar os nossos políticos a governar um país, a sombria perspectiva de ver em pleno século XXI no governo do meu país dois partidos comunistas (que, como todos bem sabemos, por imperativo da sua própria doutrina, a primeira medida que tomam quando assumem o poder é abolir a existência de partidos políticos, leia-se, mandar a democracia às urtigas e decretar o regime de partido único como agora pretendem fazer um ensaio no parlamento, transformando os vencedores em vencidos e os vencidos em vencedores) é o atestado que nos faltava para sermos colocados na Europa ao lado da Grécia - que tanto trabalho nos deu a tentarmos afastar-nos - como o pior do "terceiro-mundismo", ambos irredutíveis na sua irremediável e óbvia incapacidade se auto-governarem. É "África no seu melhor!", como se comenta à boca pequena na Europa civilizada a que a maioria dos portugueses quer pertencer.

Tudo isto, com o único objectivo de conseguir a qualquer preço "entrar para a História", ficaremos a dever a António Costa. Deus lhe perdoe! Eu não.

Larama

Nota: o texto foi enviado por pessoa amiga em momento de grande revolta pela situação política em que nos vemos envolvidos. Achei que merecia a pena a sua publicação. Tardou uns dias mas mantêm-se atual. Mas sei que 

sexta-feira, outubro 16, 2015

Reflexões sobre alguns resultados eleitorais e o futuro de Portugal

Várias considerações me suscitaram dúvidas perante os resultados eleitorais. A primeira foi tentar perceber quais foram as profundas escolhas do eleitorado. Para o entender melhor, elaborei o seguinte quadro, com base nas informações do excelente www.legislativas2015.pt:


A primeira conclusão que me parece evidente é que o PS não foi o principal beneficiário do castigo que os eleitores deram ao Governo e aos partidos que o apoiam, como foi sublinhado por todos os observadores; mas... (há sempre um mas), mais importante parece-me ser a seguinte conclusão, também apoiada nos mesmos resultados: se atribuirmos ao CDS um resultado proporcionalmente semelhante ao que obteve em 2011 (cerca de 23,24% do total da coligação), verificamos que o PS e o PSD ficariam em empate técnico, com cerca de 1,7 milhões de votos cada (e ligeira vantagem para o PS).

Ou seja: se por um lado a estratégia de concorrer coligado permitiu uma vitória (de Pirro?) aos dois partidos que apoiam o Governo, por outro lado se os partidos tivessem concorrido todos separadamente (e os resultados da coligação se tivessem mantido em proporção, o que não é liquido pois não seria surpreendente que o PSD tivesse sido menos penalizado que o CDS), seria de facto António Costa o vencedor, ainda que com um resultado fraco; ou possivelmente Pedro Passos Coelho, mas sem a possibilidade de formar governo só com o CDS...

O que me leva à segunda conclusão que também deveria ser evidente: o que os portugueses verdadeiramente quiseram foi um governo do Centrão, que aliás perdeu menos votos do que o Governo (10,26% a menos, comparado com a perda de 25,86% da PaF). A minha intuição diz-me que o queriam com PPC como primeiro-ministro, mas isso nunca saberemos...

Naturalmente, esta possibilidade de um governo do Centrão ficou prejudicada pela sageza do CDS (ou de Paulo Portas), quando impôs a coligação, garantindo que faria parte do futuro governo, mesmo que fosse liderado pelo PS... Ou assim parecia!, pois António Costa parece ter trocado as voltas a muita gente. Apesar de se poder também argumentar que o atual CDS também pertence ao Centrão, e portanto que esta opção seria mesmo a mais legítima (pois até aumenta a votação em 2,74%)!

Terceira conclusão: o crescimento da Esquerda extrema (aquela que tem assento parlamentar e não endossa o consenso que reune o centrão ou o arco da governação: UE, Euro, Nato, etc.), não foi assim tão espetacular comparado com o do PS (embora em percentagem tenham crescido 36,4% e o PS apenas 11,45%, em votos, cresceram pouco mais do que o PS: 266.047 votos contra 179.517).

Ou seja, mesmo que isto permita sustentar a grande vitória (em termos de crescimento) do Bloco e do PCP (marginalmente), a verdade é que é difícil disputar a liderança à esquerda de António Costa.

Finalmente, registo ainda que apesar da diminuição dos votos brancos ou nulos (11,38%), o grande beneficiário foram os pequenos partidos (os que não tinham representação parlamentar) que além de terem elegido 1 deputado pelo PAN, cresceram 62,86% (quando a Esquerda extrema "apenas" cresceu 19,38%).

Ou seja, parece-me que ainda estamos muito longe da "podemização" ou "syrização" do eleitorado português...

E esta última conclusão TEM de ser importante para quem, à esquerda, pretenda formar/apoiar a formação de um governo alternativo... pois implica que pode, e talvez deva, haver alteração de políticas, mas implica igualmente que NÃO pode haver ruptura de políticas!!!

Note-se que PS e PSD mantém 61,84 do total de votantes (contra 66,7 em 2011). O que confirma a legitimidade dos líderes dos dois partidos para formarem governo, com os apoios que encontrarem no Parlamento, mesmo que não se queiram entender os dois como parece ter sido a vontade do eleitorado (por causa do CDS estar umbilicalmente ligado à coligação?!?).

Numa palavra: não me parece que esteja em curso um golpe constitucional, ou de estado, ou seja o que for que se lhe quiser chamar... António Costa está apenas a fazer uma leitura utilitarista dos resultados eleitorais - e perfeitamente normal em países habituados a governos de coligação.

O que não impede que o PS, através de António Costa e da eventual coligação/acordo à esquerda), possa estar a preparar uma inversão da política nacional, com a proposta ruptura com as políticas do Governo ainda em funções. Essa sim, creio, é a grande questão para o futuro de Portugal.