terça-feira, junho 23, 2009

TGV e conceito estratégico nacional

Num dos pontos deste artigo de Rui Moreira, n'o Público de ontem, afirma-se que Portugal não tem um conceito estratégico nacional e que isso prejudica a definição das prioridades nacionais, neste caso em matéria de política de transportes.

Peço licença para discordar. Portugal tem um conceito estratégico nacional, que o centrão, à direita ou à esquerda, sempre promoveu quando está no Poder. É um conceito que se aproxima desta ideia simples: imaginemos um pai de cinco filhos; este pai consegue dar um curso a cada filho; ou então, um doutoramento ao mais velho. Este pai pensa, reflecte e decide que fica melhor se der o doutoramento ao mais velho, os outros que se desenrasquem que o mais velho há-de lhes vir dar uma mãozinha.

No nacional-deslumbramento, este conceito, moralizador como se há-de perceber, consiste em dar prioridade à capital, na ilusão de que esta há-de "puxar" pelo resto do País...

As asneiras a que este conceito deu origem estão à vista de toda a gente. A começar por Lisboa, que perdeu qualidade de vida, cidadãos e sustentabilidade económica. Para não falar na bomba relógio (social) que são muitos dos arredores da capital.

É este conceito irresponsável que permite que se tenha conferido prioridade à ligação luxuosa de Lisboa a Madrid, em prejuízo da promoção de uma rede ferroviária moderna que contribuísse para alavancar a capacidade exportadora das nossas empresas, libertar o país de parte da sua dependência energética (e petrolífera em especial) e afirmar os nossos portos atlânticos no contexto ibérico - senão mesmo no contexto europeu.

É de tal forma gritante este desconchavo, que o próprio concurso para a linha Poceirão-Caia, primeiro troço da rede de alta-velocidade em bitola europeia, prevê uma terceira linha, paralela e em grande parte do seu percurso, em bitola ibérica tradicional - supostamente para ligar Sines e Setúbal ao Caia. Mas para quê, se a tal linha Poceirão-Caia é mista? O que quer dizer que é pensada para passageiros (o luxo) e mercadorias (a necessidade)...

Por uma razão simples: porque a modernização da rede ferroviária nacional não foi pensada, os investimentos feitos não a tiveram em conta e, por causa disso, é necessário manter as duas redes em paralelo.

Eles, os tais irresponsáveis que Rui Moreira denuncia, e bem, pensavam que assim enganavam os pacóvios (os tais irmãos, na minha parábola) e conseguiam tornar irreversível quer a ligação a Madrid, quer a terceira travessia do Tejo, quer o próprio aeroporto de Alcochete. E os meus filhos que as pagassem...

É possível um Portugal melhor. Basta querer.

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