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quinta-feira, março 08, 2012

Dizem que anda aì a gripe


Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças

Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.

Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer

António Lobo Antunes - (Sátira aos HOMENS quando estão com gripe)

sábado, abril 30, 2011

Porque hoje é Sábado


“Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.”

Alberto Caeiro

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Ter pressa


"O valioso tempo dos maduros
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!"
Mário de Andrade

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Fábula de Carnaval (mete lebres e coelhos)


Atrás de uma lebre a correr e agarrado à cauda dela postou-se um coelho branco a aproveitar o balanço da outra. Apercebendo-se da fadiga da lebre, julgou o coelho branco que podia transformar-se ele em lebre, tanto mais que olhando para o lado via um coelho pardo, em passos apressados, a fazer-se de lebre.

Eis quando duma toca longínqua sai uma verdadeira lebre que deixa os coelhos branco e pardo a carpirem a sua decepção: "Não há direito nem justiça: era a nossa vez. Unamo-nos. Mais vale ser lebre por um dia que coelho a vida inteira". E assim decidiram que mantinham as suas máscaras de lebre, apesar de serem meros coelhos: um branco, outro pardo.
Quando o caçador viu as 3 lebres teve de decidir a que duas disparava, visto a arma só ter dois canos. PUM, PUM: ora bolas, dois coelhos!

domingo, janeiro 24, 2010

Sem mais

"Tenho sono

Eu sò quero a ùltima palavra
Aquela que fecha a pàgina
Apaga a luz
E sorri nos meus làbios
Antes de adormecer."

Maico, 2006 in 'As primeiras horas'

sábado, janeiro 16, 2010

Nós também

"Pó

Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa.O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas
que sussurram)
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também."

Pedro Mexia, in "Duplo Império"

domingo, janeiro 10, 2010

Uma parede de quarto


“Não sei onde estàs, se falas
ou se apenas olhas o horizonte,
que pode ser apenas o de uma
parede de quarto. Mas sei que
uma sombra se demora comigo,
quando me pergunto onde estàs:
uma inquietação que atravessa
o espaço entre mim e ti, e
te rouba as certezas de hoje,
como a mim me dà este poema.”


Nuno Jùdice in 'Movimento do mundo' - 1996

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Devagar

Há um manto branco na cidade.

O frio ficou mais seco e o ar mais leve. Os passos na neve têm um som especial. Tudo vai mais devagar e é menos barulhento. Demora-se mais a chegar onde se quer mas chega-se lá e, afinal, esse mais tempo não cria problema nenhum. Se calhar, porque tudo o mais também baixou de ritmo. As ruas estão mais vazias e os casais dão-se os braços ao atravessá-las. As pessoas tocam-se mais, talvez porque simplesmente se desejam boas-festas ou se despedem até para o ano, mas eu acho que este branco ajuda.

E, como dizia a Ana, entra-se na cama com a sensação de que há um barbudo que vai descer pela chaminé.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Luz de la noche

Estoy pensando, es de noche,
en el día que hará allí
donde esta noche es de día.
En las sombrillas alegres,
abiertas todas las flores,
contra ese sol, que es la luna
tenue que me alumbra a mí.
Aunque todo está tan quieto,
tan en silencio en lo oscuro,
aquí alrededor,
veo a las gentes veloces
—prisa, trajes claros, risa—
consumiendo sin parar,
a pleno goce, esa luz
de ellos, la que va a ser mía
en cuanto alguien diga allí
«ya es de noche».
La noche donde yo estoy
ahora,
donde tú estás junto a mí
tan dormida y tan sin sol
en esa
noche y luna del dormir,
que pienso en el otro lado
de tu sueño, donde hay luz
que yo no veo.
Donde es de día y paseas
—te sonríes al dormir—
con esa sonrisa abierta,
tan alegre, tan de flores,
que la noche y yo sentimos
que no puede ser de aquí.
//
Pedro Salinas

sexta-feira, agosto 07, 2009

Espera.


La nube que trae un viento,
las palabras que traen pena,
otras palabras las limpian,
otro viento se la lleva.

Si unos ojos se te niegan
cuando les das tu mirada,
tú no dejes de mirarlos,
espera.
……………………
Si es que tu besar se encuentra
sin lábios que le besaban,
no es que tu boca se esté

ya para siempre soltera.
Los pájaros tienen alas
que del árbol se los llevan.
Pero las ramas
de donde arrancó ese vuelo
saben lo que va a pasar
cuando echen las hojas nuevas.
…………………………..

Pedro Salinas in "Confianza" 1955

domingo, julho 19, 2009

Sonhar

1.

“Ayer soñé que veía
a Dios y que a Dios hablaba ;
y soñé que Dios me oía...
Después soñé que soñaba.”

2.

“Anoche soñé que oía
a Dios gritándome: Alerta!
Luego era Dios quien dormia,
y yo gritaba: Despierta!”

"Proverbios y Cantares" de António Machado in Campos de Castela
Foto de Madeleine Guenette

sábado, março 21, 2009

Sim, està tudo certo

Sim,está tudo certo.
Está tudo perfeitamente certo.
O pior é que está tudo errado.
Bem sei que esta casa é pintada de cinzento
Bem sei qual é o nome desta casa –
Não sei mas poderei saber como está avaliada,
Nessas oficinas de impostos que existem para isto.
Bem sei, bem sei.
Mas o pior é que há almas aí dentro
E a tesouraria das Finanças não conseguiu livrar
A vizinha do lado de lhe morrer o filho.
A Repartição de não sei quê não pôde evitar
Que o marido da vizinha do andar mais acima lhe fugisse com a cunhada...

Mas, está claro, está tudo certo...
E, excepto estar errado, é assim mesmo, está certo...

Fernando Pessoa , 5 de Março de 1935

terça-feira, junho 03, 2008

Ele é doido

Não estou a falar de nenhum politico nem de nenhum treinador de futebol. Estou a falar de Orlando Castro. Jornalista de profissão 24 horas por dia e 7 dias por semana, autor do blog Alto Hama que não contente arranjou mais lenha para se queimar: Artoliterama, o seu blog dedicado a poesias.

Dá-lhe Orlando. Mas és mesmo doido homem.