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sexta-feira, julho 03, 2009

Maria João Pires


Sempre gostei de ouvir tocar a Maria João Pires e sempre me impressionou como é que aquelas mãos pequenas conseguiam criar uma atmosfera de paixão e de transcendência pelo mero facto de discorrerem sobre um teclado de piano.

Tive um dia a oportunidade de a cumprimentar no camarim onde se refugiara depois de um concerto para si extenuante mas que fora um bálsamo para uma plateia entusiasmada e rendida. Era uma figura frágil a suportar um sorriso terno e um brilho quente nos olhos. Sim, era uma pessoa especial.

Esta notícia do ‘Público’ de que terá decidido renunciar à nacionalidade portuguesa deixa-me incrédulo. As pessoas especiais funcionam, pelos vistos, de uma maneira especial, mas eu, que nada tenho de especial, fico aparvalhado, sem lhe perceber as razões, embora a tentar não ver nisso uma birra de “enfant gaté”.

Não é o passaporte que lhe dá ou tira talento e mérito, é certo. Contudo, sinto essa sua decisão como uma bofetada que ela nos dá, mesmo que seja ao governo que ela a dirige, não sei se com fundamento ou sem ele. Em resumo, a Maria João Pires não quer que sejamos seus compatriotas. Esse é um seu direito. Mas se ela não o quer, eu também deixo de querer ser seu compatriota. Mas tenho pena. Mais por mim que por ela.