
Vai para 3 semanas que me reinstalei no Porto.
Vou-me entretendo a remobilar o T1 que aluguei na Foz e talvez seja isso que me foi distraíndo da realidade que me cerca. Mas esta tarde, ao regressar da Baixa no 207, só consegui lugar sentado num banco de costas para o motorista. Ou seja, podia perscrutar tranquilamente os rostos dos meus conterrâneos companheiros de linha e, olhando pela janela, via a cidade às arrecuas.
É sobretudo gente feia, gorda, escura, zangada ou doente. Um tipo olha para fora e só vê lojas velhas, tapumes sujos, vidros partidos, lixo e mais gente com ar de vir do hospício ou ir ao cemitério. Bem sei que nos meus horários e nos meus trajectos é previsível encontrar os colegas reformados, as idosas em muletas ou a canalha em regresso de escola. Mas até os mais jovens e as crianças me parecem saídas de um filme negro e as risadas não respiram futuro.
Os arrumadores que afinal ainda arrumam não são homens nem são gente: são uns homúnculos em fase terminal, amarelos e esquálidos, de barba sem vitamina e de olhos escavados e pequeninos.
As ruas, sendo as mesmas onde cresci, parece que encolheram. Tudo é estreito e acanhado. Exactamente como sempre foi, há 50 anos ou há 100 ou 200. E deve ser essa permanência que as diminui, ou então se algo muda ou mudou terá sido para pior.
Claro que na Foz o tripeiro vinga-se desta agonia anunciada e é ver umas damas loiras e de óculos escuros ao volante de Jeeps e Suvs a buscar os pimpolhos à porta do Colégio Inglês ou do Lycée Français. Mas até o comércio se afunda entre confeitarias, pastelarias, cafetarias, quiosques, agências bancárias desertas e restaurantes que não passam de casas de pasto. Mas ao menos ali há mar, que é como quem diz, há um horizonte e uma promessa de outras costas. Deve ser por isso que aquela Av. do Brasil é invadida ao fim-de-semana por uma chusma de joguistas, ciclistas e outros passantes em fato de treino, todos a fugirem da semana passada e a ver se apanham algo que o oceano lhes traga da outra banda.
O Porto está morto mas esconde-se essa evidência. Mesmo as árvores que resistem de pé parecem abandonadas ou esquecidas de que lhes competia ceder o lugar a outras mais frescas. E apetece dizer em segredo aos jovens que se vestem de preto naquelas capas universitárias: fujam!
Ao regressar ao meu T1 e enquanto espero que o baixote da R. da Picaria me traga o estrado e o colchão que ali ontem encomendei, dou-me conta que esta é a minha Veneza e que agora cabe-me descobrir o meu Lido e deixar que ocorra o que tem de ocorrer. Escolhi bem.