domingo, dezembro 07, 2014

O circuito da Boavista, uma marca da cidade

Tinha pensado em escrever hoje sobre o circuito da Boavista mas a carta aberta do Nuno Nogueira Santos no facebook "Salvar o Circuito da Boavista" fez-me redobrar “as vontades” de o fazer.



Faço desde já uma nota prévia: fiz a assessoria mediática do circuito da Boavista no ano passado o que muito me honrou. Vivi por dentro uma organização intensa e dedicada. Percebi como uma cidade inteira se animava e se envolvia. Duas ou três pessoas mais revoltadas e que ano após ano aproveitavam para aparecer nos jornais. Nada de mais. Possuo informação sobre os valores do retorno mediático que tanto se fala, mas como isso acontece fruto da relação cliente-fornecedor não o vou revelar. E sim sou um amante da manutenção do circuito.

Voltemos então ao circuito da Boavista na ótica de portuense mas também na de quem olha o dia-a-dia pelo prisma da comunicação. Vou fazê-lo por pontos para ser mais fácil a exposição.


Os custos e as receitas deste circuito

Desde a primeira hora que assumi a defesa do circuito, mesmo que ele acarretasse custos para a autarquia. Não vale a pena tentar enganarmo-nos. Há eventos que se devem realizar mesmo que representem um custo. São investimento. E o circuito da Boavista encaixa perfeitamente nesse perfil. Era importante do ponto de vista de projeção da cidade no exterior, do assumir de uma marca, de fomentar o turismo e a dinamização do comércio local. E hoje ainda faz parte de toda uma imagem que foi sendo construída ao longo dos últimos anos. Ou o Porto virou destino turístico apenas porque as pessoas acordaram todas injetadas por uma mosca?

Para a imagem positiva do porto contribuíram os “popós” do Rio, mas também os aviões da red-bull, como contribuíram as obras no aeroporto ou a construção da casa da música ou a Porto 2001 do Fernando Gomes. É feita de um somatório de eventos, de ícones arquitetónicos, de gastronomia, de cultura, de transmissão de afetos e de despertares de paixões. O porto hoje é um somatório de públicos. Com pés mais descalços ou mais bem calçados.

Todos sabemos que existem custos e receitas no circuito da Boavista. E em ambas as rubricas encontramos itens mais ou menos mensuráveis. Se nos concentramos nos mensuráveis diria que o circuito apresenta custos de organização na casa dos 500 mil euros em compras a fornecedores (valores que me foram indicados e não sendo eu sabedor por via da relação cliente-fornecedor) mais todos os que acabam por ser responsabilidade da autarquia pelo envolvimento dos recursos humanos e físicos da mesma que rondariam os 600 mil euros. O WTCC representa um custo de 700 mil euros, transmissão inclusive. Teríamos assim custos globais de 1 milhão e 800 mil euros. Arrendondemos para cima e ficamos nos 2 milhões.

Ao nível de receitas o circuito gerou cerca de 600 mil euros por via de patrocínios e bilheteira. Mais os 700 mil euros que o turismo dava e que pagava diretamente ao WTCC. Sublinhe-se que o Turismo de Portugal dava e dá outras verbas à cidade e que não se esgotam nestes 700 mil euros. 

Assim teríamos um défice dos 600/700 mil euros valores que em parte são assumidos “internamente” pela autarquia, sendo que muitos destes trabalhos acabam por ser benefícios na via pública, custo de horas de trabalhadores que terão que ser sempre pagos e de imobilizado que agora ficará arrumado num armazém da câmara sem utilização. Ao menos que os cedam a Vila Real.

Se fossemos agora olhar para os custos e receitas não mensuráveis diria que estas são bem maiores do que os custos. Existem transtornos para os moradores? Sim existem. Mas não existem outros tantos com o Primavera Sound? Ou com a queima das fitas? Ou com as maratonas? Ou com o S. João. Sim existem. Não há belas sem senão.

E do lado das receitas não mensuráveis? A tal mediatização além-fronteiras com a transmissão da eurosport? Imagens fantásticas que passaram no mundo inteiro. E repetições em muitos e muitos outros canais. Era só ver a lista de credenciais passadas a jornalistas estrangeiros. Apenas interessa olhar para elas quando nos convém ou vamos descobrir que existem as “boas e as más”?

E as receitas indiretas? Quantos estrangeiros aqui chegavam para ver as corridas? Mais ou menos do que traz o Primavera Sound? Admitamos que menos. Mas com mais ou menor poder de compra? Aqui claramente com mais, pois basta olhar para o cartaz do Primavera Sound e visitar o recinto para perceber que são muitos os que aqui chegam mas pouco o que aqui vão deixar. Ou mesmo muito pouco. Mas o circuito é importante como importante é o Primavera Sound ou o S. João. Uma vez mais o somatório de públicos é que farão do Porto uma cidade a visitar. Uma cidade cosmopolita. Quantos mais chegarem melhor. A economia e a iniciativa privada encarregar-se-á de dar resposta e criar mais camas. Ou alguém acha que é ao contrário?


 Mas e o circuito sem WTCC?
A outra grande questão é porque não manter o circuito da Boavista mesmo sem a realização do WTCC? Se não há dinheiro do turismo não há WTCC. Certo e ninguém discutia o assunto.
Mas o 1º fim de semana e parte do 2º podiam perfeitamente ser realizados. Ou não?
Eu sou defensor da prova em dois fins de semana de forma a maximizar o investimento feito. E atenção que a presença do WTCC implica um caderno de encargos mais exigente e que a sua não realização poderia assim permitir algumas poupanças.
Voltemos então aos custos e às receitas. Admitamos por bom que haja um ligeiro baixar de custos, mesmo que insignificante pois o grosso tem que se manter. Eu arriscaria a dizer que as receitas pouco baixariam pois os patrocínios eram todos de marcas portuguesas e poucas com “vocação de internacionalização” e como tal não era a Eurosport que lhe interessava, e a bilheteira não acredito que tenha tido um peso muito grande, pois infelizmente os portugueses estão sempre à espera de uma borla. E assim iria acontecer no futuro.
Como ficaria agora o deve e o haver? Bem mais equilibrado.


Como consegue Vila Real suportar estes custos

Tal como Nuno Nogueira Santos também eu me questionei sobre a capacidade financeira da câmara de Vila Real para suportar o WTCC. Terá conseguido reduzir os custos? Conseguiu reunir apoios privados? Resolveu apostar na dinamização da cidade através de uma aposta de alto risco? Envolveu concelhos vizinhos?
Pelas notícias que têm vindo a público o WTCC tem colocado algumas condições contratuais e de logística, nomeadamente ao nível do número de camas disponíveis para o “circo” que o compõem. 500 camas é o que se fala. Vila Real não tem. Terá que ser num raio alargado de cidades. O Porto será seguramente uma delas a beneficiar. Como toda a região duriense.
Será que o circuito da Boavista não representava também um ganho para Matosinhos e Vila Nova de Gaia? Se houve conversas não sabemos. Se ninguém se tinha lembrado aqui fica a dica, que mais vale tarde do que nunca.


Conclusão

Como referi sou um defensor do circuito da Boavista. Tenho muito pena que ele tenha  sido interrompido. Sim, interrompido, porque nada na vida é definitivo para além da morte.

A decisão tomada foi política/financeira e a autarquia está no seu perfeito direito de a tomar. Se considerou que não era estratégico para a cidade apenas podemos discordar mas nunca questionar a sua legitimidade. Mas a autarquia deve assumi-lo com frontalidade e não arranjar como bode expiatório os 700 mil euros que o turismo e o governo central deixaram de dar. Pois a verba que o turismo disponibiliza até aumentou mas, em acordo com a autarquia, foi redirecionada para outros apoios diretos e o melhor exemplo disso mesmo é a subvenção à base da Easy Jet.

Pode voltar a haver vontade política de fazer renascer o Circuito da Boavista e voltarmos a ter os carros a roncar na Av. da Boavista.


Perceber que se errou e emendar é sinal de inteligência e grandeza humana. E eu considero o atual presidente um homem inteligente. Tenhamos por isso esperança.

4 comentários:

  1. Esquece isso pá e topa-me esta cena: Todo o apoio à petição pública em curso:

    Petição para que Jorge Sampaio se recandidate e Indulte José Sócrates

    Jorge Sampaio enquanto Presidente da República indultou Otelo Saraiva de Carvalho; pode muito bem indultar Sócrates. Coragem não falta ao velho leão. Vamos apoiar a ideia lançada por António Costa da recandidatura de Jorge Sampaio.

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  2. Tal como a carta aberta do Sr. Nuno Nogueira Santos, o seu texto elucida bem os mecanismos que estão por detrás de um evento desta envergadura (Circuito da Boavista). Estou em crer que todos faremos, cada um de nós à sua escala, de tudo para que as corridas regressem à Cidade do Porto em força, com ou sem WTCC.

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  3. Comecei a lêr interessado. Mas tanta concordância com o falfadado acordo ortográfico, tirou-me a vontade de prosseguir. Fico por aqui.

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