terça-feira, agosto 17, 2010

2666, ainda.

Este verão 2666 fez parte da minha bagagem de férias. Já andava há algum tempo pelos pendentes da sala, onde surgira no sapatinho do último natal, mas o marcador de páginas ainda não chegara sequer ao final da sua parte primeira, pois sempre outros (naturalmente mais pequenos) se lhe sobrepunham. No momento da partida olhou-me suplicante e lá o deixei saltar para o meu saco de viagem, onde se juntou a um outro de Adriano Moreira que já ali se tinha acomodado. Na curta (e refrescante) paragem pelos Pirinéus pus o marcador a trabalhar, que não só saltou rapidamente para o final da primeira das suas cinco partes como ainda foi entrando na segunda.

Indiferente aos apelos do nosso PR, continuei as minhas férias cá fora instalando-me de seguida na Côte D’Azur onde à tarde, depois da praia, me deleitava no jardim tipicamente provençal da casinha na encosta e com soberbas vistas sobre a baía, a folhear toda aquela montanha de páginas, fazendo apenas alguns pequenos intervalos para me refrescar, ora na piscina, ora com uma cervejinha. Ao cabo de seis tardes, e a uma média de cerca de cem páginas por tarde, o marcador atingiu a contracapa e foi descansar, agora abrigado dos mosquitos do anoitecer.

Tal como BLX, havia conseguido chegar ao final do livro, mas, ao contrário de BLX, não fiquei com a sensação de a obra perder sentido se não for lida até ao fim (ou se o for apenas numa ou em algumas das suas cinco partes), pela simples razão de o enredo que lhe justifica a epígrafe de Romance não ter propriamente um fim. Simplesmente acaba, como se de repente a bateria do portátil de Roberto Bolaño tivesse ficado descarregada e não houvesse por perto tomada onde a recarregar antes da chegada do empregado da Quetzal que o vinha recolher. Também como BLX, não terei ficado devoto de Bolaño, isto apesar de igualmente não ter dado por mal empregue o tempo que lhe dediquei. Antes pelo contrário. Reconheço mesmo que este escritor latino-americano, alinhadamente desalinhado, goste-se ou não, ficará na história na literatura contemporânea. Nem que só daqui a 656 anos se possa comprová-lo...

Não sei que polémica vai por aí sobre Bolaño. Tão pouco me preocupa. Na verdade, estas férias decidi não ler jornais, não ver tv, não ouvir rádio, não aceder à internet. Por outras palavras, decidi dar também algum descanso ao meu direito à indignação, que, justiça seja feita, este estado socratino me tem garantido a um nível de excelência. A única ligação que me permiti deixar aberta ao mundo foi a do meu telemóvel. Não obstante, pela simples observação do sol tinha a certeza que ele continuava a girar. Nestas duas semanas apenas me chegou um sms do Algarve, dizendo-me que a água estava como sopa, outro do Minho, informando-me que a água estava gelada, e outro curiosamente da Áustria, dando-me conta de o FCP ter ganho mais uma supertaça no futebol nacional. Ao atravessar depois a Suíça, notei ainda que uma rádio de língua alemã mencionara por duas vezes a palavra Portugal, tendo-me a minha mulher esclarecido que falavam de fogos e da detenção de 14 presumíveis incendiários. Perguntei-lhe se algum dos detidos se chamava Rui Pereira. Nenhum nome havia sido mencionado, disse-me ela.

No caminho, 2666 voltou à minha mente e entretive-me então a imaginar Roberto Bolaño a pegar numa grande caixa de cartão onde guardava todas as fichas que fora anotando ao longo da sua vida, contendo múltiplos pensamentos seus, registos e críticas das leituras que devorou, observações dos locais por onde vagabundeou, dos meios literários que frequentou, de gente que conheceu e do mais que experimentou, tudo despejando à toa sobre uma grande mesa.
Depois foi agrupando aquelas fichas como quem faz um puzle, começando por colocar uma linha a meio da mesa, qual fio condutor donde partiam inúmeras ramificações para ambos os lados, umas como pequenos galhos de árvore, outras como grandes cachos de uvas, em cujas pontas, ou bagos, ia encaixando as suas fichas à medida que inventava personagens a quem atribuir as observações, pensamentos ou ambientes de cada uma delas. Como a mesa fosse exígua para tanta ficha, quebrou aquela espinha dorsal em quatro pontos, do que resultaram cinco partes que dispôs paralela e obliquamente de modo a conseguir um pouco mais de espaço para ordenar as todas as fichas numa mesa que já não admitia mais tábuas. No final, em vez de um romance tinha cinco e agora era só dar-lhes forma final. Mas já não viveu para tanto e quem depois lha deu olhou para aquele emaranhado de fichas numa única mesa e entendeu ser antes de formatá-las também num só livro. No chão ficara ainda caída uma ficha que mencionava um gelado de três sabores. Sem saber donde caíra, atiraram-na para o fim da linha.

Entretanto em Munique, onde agora já me refresco à chuva, voltei a “conectar-me” ao mundo, assim recomeçando também a alimentar o meu direito à indignação. Com relatos de fogos e de festas no Pontão. Mas não com a nova derrota do SLB...

domingo, agosto 15, 2010

FSM

"Não me temo de Castela,

Donde a guerra ainda não soa.

Mas temo-me de Lisboa,

Que ao cheiro da Canela

O reino nos despovoa".

Dias de Agosto

Óleo de Frederic Bazille "Cena de Verão" - 1869

quarta-feira, agosto 11, 2010

NEM 8 NEM 2666

À falta de assunto corre por aí uma pequena polémica de Verão acerca do Roberto Bolano. Não percebo porquê.
Gostei mais de “Os Detectives Selvagens” do que do “2666” mas em todo o caso, a falta deve ser minha, não fiquei devoto de Bolano. “2666” é uma obra desnecessariamente extensa e demasiado delirante e virada para o umbigo do autor para merecer ficar no meu panteão. Talvez a culpa seja do mescal.
Seja como for, há também partes fantásticas e deliciosas que li com gosto e a obra perde naturalmente sentido se não for lida até ao fim. Cada vez mais me preocupo com a falta de tempo para ler o que quero e o que devo, pelo que não sou nada a favor de insistir numa leitura penosa apenas para levar um livro até ao fim mas, apesar de tudo, não dei por mal empregue a longa dedicação a Bolano.
A verdade é que, perdoe-se-me a opinião, Bolano não merece a discussão nos termos exaltados em que está a ser feita. Não me posiciono em nenhuma das trincheiras. Atribuo o tema e o empenho dos gladiadores à época do ano mas se é para discutir livros e autores, vivos ou mortos, estou em crer que haverá outros porventura mais interessantes para entreter o ócio dos eruditos.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Centro Materno-Infantil do Norte

Sobre a atitude irresponsavel e de guerrilha pessoal que Rui Rio e a Camara Municipal do Porto estão a ter relativamente ao "futuro" Centro Materno Infantil do Norte e que prejudica os portuenses, transcrevo um artigo de opinião do Dr. Sollari Allegro (ex. Presidente do Centro Hospitalar do Porto) publicado no JN de domingo, que demonstra bem a situação:

DOBRE DE FINADOS PELO CENTRO MATERNO-INFANTIL DO NORTE

Soubemos esta semana que a Câmara do Porto não autoriza a construção do Centro Materno-Infantil do Norte. Após serem ultrapassados os obstáculos que tinham e ver com o PDM e com a distância aos edifícios vizínhos “inventou” a Câmara novos obstáculos, estes mais etéreos e surrealistas e assim continuará até a obra ser inviável.
A população do Centro do Porto e a população ribeirinha do Douro que recorrem, e recorreram sempre historicamente, às três antigas instituições do centro da cidade, o Hospital de Santo António, a Maternidade Júlio Diniz e o Hospital Maria Pia, não têm direito a uma assistência médica digna na qualidade e nas infra-estruturas hoteleiras. A Câmara do Porto, por motivações de pequena política regional, condena as crianças do Porto a atravessar a cidade ou a ir para Gaia para receber assistência médica. Não fosse o Sr. Secretário de Estado da Saúde futuro candidato à Presidência da Câmara e teríamos certamente um tapete vermelho até à inauguração do equipamento em questão. Basta aliás ver as construções da Reitoria para o ICBAS e a Faculdade de Farmácia, os Edifícios Les Palaces ou os Edifícios Mota-Galiza, na mesma freguesia de Miragaia, para ver como são ridículas as alegações da Câmara.
O Hospital de S. João por mais que melhore o seu funcionamento não conseguirá nunca abarcar e tratar toda a população materno-infantil da cidade, nem é esse o seu destino. Ou mantém a diferenciação ou é submerso pelo habitual. Ninguém é ao mesmo tempo especialista e generalista.
O Hospital de Gaia serve uma enorme população em crescimento e não comportará também o acréscimo de movimento que resultaria da concentração da área Materno-Infantil.
Se estas duas instituições organizarem bem as respectivas áreas “materno-infantil”, em espaço próprio, terão o seu “Centro Materno-Infantil” e dispensarão com facilidade o aumento de volume de trabalho que significam as sessenta mil consultas pediátricas do Hospital Maria Pia e do Hospital de Santo António, os quatro mil partos e os onze mil e quinhentos internamentos da Maternidade Júlio Dinis (números de 2009).
O Centro Materno-Infantil do Norte não representará qualquer aumento da capacidade instalada. Substitui um hospital velho e degradado, apesar das melhorias introduzidas recentemente, e mais que duplica a área útil do atendimento da mulher na Maternidade Júlio Dinis, emprestando-lhes, outro sim, dignidade e conforto. Centraliza numa única instituição toda a área da mulher e da criança em condições dignas e humanas. Não tira nada a ninguém. Soma apenas a experiência e o movimento das três instituições.
É isto que a Câmara recusa á cidade, é isto que a Câmara rouba à sua população mais pobre e vulnerável.

P.S. o problema da propriedade de 800m2 faria dó se não fosse mais uma “guerrinha de alecrim e manjerona”.

domingo, agosto 08, 2010

FCP de AVB

Porto, Porto, Porto és a nossa glória. Cá recebemos mais uma vitória.

Pois bem, eis que em pouco tempo recebemos de AVB um FCP revigorado.

Grande organização, futebol de ataque, superioridade física e técnica!

Um Porto que apresenta fio de jogo, preparação física, raça, jogadas pensadas e melhor executadas, lançamentos laterais que mais se assemelham a cantos, jogadores que só pensam em jogar. Que grande Porto!

Obrigado AVB!!!

sexta-feira, agosto 06, 2010

DISPARATES DE VERÃO

O primeiro prémio do meu concurso pessoal de disparates de Verão vai direitinho para a RFM. Esta rádio, por motivos que estão fora do meu alcance, decidiu, de um dia para o outro, passar a tratar toda a gente por tu. Não sei o que se pretende com esta medida, talvez seja uma desastrada forma que encontraram para parecerem jovens, modernos e igualitários. Como é bom de ver, a coisa não resulta bem e muitas vezes os próprios locutores se vêem atrapalhados durante as conversas com os ouvintes. Os ouvintes da RFM não constituem um pequeno nicho de pessoas com características idênticas, estão espalhados pelo país e são muito variados em termos de idade e características sócio-culturais. É tão tonto “tutuzar” toda esta gente como tratá-los todos por V. Exa.. Cada um saberá de si mas, quanto a mim, para lá de ser ridícula esta prática da RFM irrita-me. Vejo isto como uma forma totalitária de impor aos outros a adopção de comportamentos sociais uniformes. Vou fazer greve e esperar que quem dirige esta rádio caia em si e determine o regresso às formas de tratamento admitidas pela língua portuguesa em uso na sociedade em geral.

Educação Sexual II

Muitas vezes ouvimos que os Pais se demitem da educação dos seus filhos, que não se interessam, que ninguém se interessa verdadeiramente e que não há debate.

Outras vezes que não são verdadeiramente escutados.

Pois bem, no que ao tema da educação sexual diz respeito cá está uma iniciativa interessante.

Vai decorrer uma Sessão de Esclarecimento e Debate sobre o tema "Educação Sexual – actuação dos Pais, como?".

Data: 9 de Setembro de 2010 Horário: 21h 30m
Local: Auditório da Universidade Católica do Porto
Destinatários: Pais, Encarregados de Educação e Professores.

Mais uma iniciativa promovida pela "Vida Norte".

Aqui http://www.vidanorte.org/site/

E QUEM SALVA A PGR?

Aqui no Nortadas estamos muito preocupados em salvar o Tua e o Norte talvez porque, digo eu, pensemos que o país já não tem remédio. E de facto, aparentemente não tem.
Todos os dias somos confrontados com acontecimentos que consideraríamos inaceitáveis e impensáveis pouco tempo antes.
Este trágico desabamento da Procuradoria Geral da República a que temos assistido - gravíssimo por imensos motivos políticos, judiciais e institucionais que me dispenso de enumerar - , está a transformar-se numa novela que chega mesmo a ter contornos cómicos que só dão vontade de chorar. Ninguém sai bem desta história desde o topo da hierarquia até aos procuradores, passando pelo sindicato. Isto já não é uma questão de mudar pessoas, embora seja óbvio que o Procurador Geral deixou de ter condições para exercer o cargo, é muito mais sério do que isso. A mudança de pessoas não recupera uma instituição cuja credibilidade se evaporou. Quem salva a PGR?

terça-feira, agosto 03, 2010

Salvar o Tua


Ali: http://pelonorte.blogspot.com/#

Educação sexual

O novo ano lectivo está à porta.

Em breve teremos os programas de educação sexual "no terreno" e os Pais em protesto à porta das escolas. Preparem-se.


Voltarei ao tema.

segunda-feira, agosto 02, 2010

E O QUE DIZ O MANUEL ALEGRE SOBRE ISTO?

O Ministério da Educação é, para certas coisas, de uma eficiência notável. Os ministros vão-se sucedendo ao longo dos anos e, independentemente da formação, personalidade e ideologia de cada um, mais tarde ou mais cedo vão sendo formatados provavelmente por alguém que existe no ministério para essa função. É por isso que não fiquei surpreendido com a recente posição da Ministra sobre os “chumbos”.
Estas teorias esotéricas já não podem ser atribuídas a ideologias, ilusões, ingenuidades ou voluntarismos. Isto é perfídia, pura e simples, pois de outra forma não se compreende. Esta gente deu cabo do ensino oficial e nós fomos deixando mas imaginava eu que agora já todos tinham aberto os olhos. Acabar formalmente com os “chumbos” (uma vez que na prática eles quase não existem) ou com as retenções ou lá como a coisa se chama em eduquês significa, quer se queira que não, mais um avanço decisivo na política da diminuição da exigência, da desincentivação do mérito, da promoção do facilitismo, destruindo-se a capacidade de estudo e de aprendizagem dos estudantes. Só não percebe isto (para além dos iluminados do Ministério da Educação) quem nunca foi estudante, não teve filhos ou nunca contactou com o sistema educativo. Assim não vamos a lado nenhum e quem sobretudo não vai a lado nenhum são precisamente aqueles a quem mais útil seria a competitividade, o mérito e o esforço.

Vou de férias



A partir de hoje e até ao dia 18 não darei noticias. A chave fica debaixo do tapete da porta. Tomem bem conta da casa. Até ao meu regresso.

Trinitá



A mais nova da minha filha queria saber que filmes eu via quanto tinha a idade dela. Lembrei-me de imediato do velho trinita e do seu inseparável amigo. Mostrei-lhe esta peça. Ela ficou com pena de mim e eu com saudades dos meus 10 anos.