Passei cerca de dez dias sem ler jornais e sem internet. Não me parece que tenha perdido o que quer que seja de transcendente, mas quando voltei às minhas manhãs de café dei conta de que, para variar da intensa maré de incêndios que costuma assolar o nosso país nesta altura do ano (mas também ainda havia alguma coisa para arder?), o território nacional estava a braços com uma vaga de assaltos à mão armada, perseguições policiais e captura de reféns. Hoje de manhã a rádio noticiava o assalto a uma carrinha de valores na A2 com recurso a explosivos e ferimentos do motorista da carrinha. Um casal em Gaia escapou por um triz a uma tentativa de carjacking. Sinais da crise? Claro. Surgimento de novas formas de criminalidade mais violentas próprias de sociedades modernas? Talvez. Mas pode ser mais do que isso. Pode ser que aos poucos, assaltantes, meliantes, traficantes e afins, tenham vindo a tomar consciência de que a discussão que pouco mais era que teórica sobre a duração das penas e a eficácia ou falta dela do sistema criminal era de pôr à prova na prática, aproveitando os “furos” da máquina da justiça, e a realidade incontornável que significa sermos um país de vítimas fáceis, em que a maior parte das pessoas não reage nem anda armado, em que as leis limitam fortemente as possibilidades de legítima defesa, em que as penas de prisão ficam suspensas até cinco anos, onde a balança dos riscos e das vantagens do crime compensa estatisticamente o infractor, pelo que nesse caso corremos o perigo de estarmos apenas no princípio de uma longa metragem de bang-bang. Mas pode ser que não. Que seja só uma fase. Ou efeito da falta de notícias que a silly season sempre traz.