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terça-feira, novembro 12, 2013

A propósito da moral e de Moçambique


Tenho sempre uma espécie de pavor quando me arrastam para assuntos de moral. Prefiro conversar sobre ética, mas às vezes a fronteira esbate-se e ouço afirmações peremptórias e absolutas cuja certeza não sou capaz de partilhar e sobre as quais prefiro assumir uma ignorância prudente ou uma dúvida que até pode parecer cobarde.

Vai um exemplo?

Quando o Mouzinho de Albuquerque aprisionou em Chaimite (1895) o régulo Gungunhana, foi este acompanhado pelas suas 7 mulheres, pelo filho mais velho e por outros dois personagens na viagem que os trouxe em condições abjectas para Lisboa, onde são encarcerados nas casamatas da prisão de Monsanto.

Como à volta daquele Forte se tivesse instalado um arraial de populares que todos os dias ali se deslocavam para vislumbrarem no pátio as “bestas”, e porque começavam a multiplicar-se nessa feira zaragatas e distúrbios, decidiu o governo de então desterrar o grupo para a ilha Terceira. Mas porque o facto da poligamia do prisioneiro incomodasse o moralismo católico da época, resolveram as autoridades separar as mulheres, as quais viriam dias depois a ser deportadas para a ilha de S. Tomé, onde a maioria viria a morrer na mais profunda miséria.

Gungunhana, o filho e os outros foram desterrados para os Açores, mais precisamente para o Castelo de S. João Baptista de Angra do Heroísmo. O Governador local, dando-se conta da tristeza e da saudade profundas de Gungunhana, intercedeu junto do Governo de Lisboa para que ao menos fosse autorizada uma das mulheres a vir viver com ele, mas nada feito. Em vez disso, foram dadas instruções oficiais para que aqueles homens fossem levados todas as semanas a um bordel da cidade onde se poderiam aliviar das suas mágoas e não só. E assim se salvava a moral e os bons costumes.
Como exemplo, dá que pensar. Ou não?

 

 

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

O problema moral...

Hoje o Público dava honras de "caixa" à decisão de um Tribunal português de não deixar engravidar a antiga namorada de um rapaz morto, por acidente, fazendo assim a vontade aos Pais do dito, que seriam, na ausência de testamento, os herdeiros do post-pai.

Para complicar as coisas, o rapaz vivia com a antiga namorada, antes de morrer, e estaria, então, empenhado em ser pai, pelo que "deixou" sémen congelado.

O editorial do Público chamava a atenção para os problemas morais que o caso envolvia; mas depois apenas falava da questão sucessória, como se o problema da "propriedade" do sémen fosse o âmago da questão.

NÃO É. O âmago da questão é moral, evidentemente, e é este: pode ultrapassar-se a natureza apenas porque a ciência o permite?
Existe um direito a engravidar de alguém, mesmo depois da morte desse alguém?
Aliás, existe um direito a engravidar?
Poderei congelar o meu sémen, para ser usado daqui a 50 anos ou 30 anos depois da minha morte, de forma a que um "filho" meu possa perpetuar o meu ADN?

Estas são as verdadeiras questões morais da situação; prendem-se com a natureza humana e os seus limites. Com as funções da técnica e da ciência, se ao serviço da humanidade se dos caprichos dos indivíduos.

Não tem nada, ou muito pouco, a ver com a posse e propriedade de um pedaço de ADN individual, congelado para além da morte do seu progenitor.