Portugal talvez tenha tido nas últimas décadas
um ou outro ministro de Negócios Estrangeiros com valor, mas sinto-me incapaz
de mencionar um nome. Assim, de repente e muito pressionado, era capaz de
referir o Medeiros Ferreira, mas não consigo acrescentar mais nada, talvez por
perda de memória, talvez porque ninguém mais sobressaíu do cinzentismo crónico.
Em contrapartida, tivémos verdadeiras
nulidades ambulantes embora inchadas de vento e de prosápia e o nome de Deus
Pinheiro salta-me de imediato à frente pela vacuidade lustrosa da personagem. A
verdade, e como atenuante dessa sequência de acácios, é que o Estado português
não tem há décadas uma política externa com contornos definidos e objectivos
determinados. Anda-se alegremente na
molhada e fazem-se as vénias do costume, mas não há um pingo de ideia sobre o
médio ou o longo prazo, isso da estratégia nem se sabe o que é ou para que
serve e a táctica resume-se a dar a impressão que se procuram mercados e que se
trazem uns envelopes de Bruxelas.
Nas embaixadas há um ou outro adido que se
esforça por enviar análises para Lisboa mas no palácio das Necessidades ninguém
tem pachorra para ler esses papéis. Nós não temos embaixadas, temos uns
edifícios com bandeira na varanda que albergam um salão mais ou menos
apinocado, que convém aspirar de vez em quando para ali receber os terceiros
secretários das outras representações, onde bebericam enjoadamente um
copito de espumoso e fingem apreciar uma pindérica exposição de fotos sobre os
vales onde os ingleses plantam videiras, os espanhóis colhem azeitonas e os
chineses semeiam batatas.
Ante-ontem ouvi o actual titular da pasta
insurgir-se contra o facto de haver umas investigações em Portugal sobre certas
personalidades angolanas, conhecidas como branqueadoras de capitais e vulgares
trapaceiros.
Dizia o ministro que não admitiria que a justiça portuguesa se imiscuísse
nos assuntos internos de um país amigo onde vivem cem mil portugueses e
trabalham milhares de empresas. Nada me surpreende neste ministro que já se fez
notar pela bajulice face aos corruptos de Luanda, mas registo a noção que tem
do que é um Estado de Direito.
Queriam um MNE que tivesse um projecto para a
Europa e para o papel do nosso país nela? Queriam um MNE que soubesse que
propôr para reformar o Conselho de Segurança da ONU? Queriam um MNE que
definisse os nossos interesses políticos e estratégicos na participação na
OTAN? Queriam um MNE capaz e credível que fosse a expressão externa dos nossos
valores democráticos e de defesa dos direitos do homem? Queriam um MNE que
tivesse uma posição autónoma e portuguesa para os principais problemas da comunidade
internacional? Parece que seria querer demasiado.
Coube-nos na rifa um MNE que nem para director
do ICEP serviria pois mais parece um mero caixeiro viajante de chapéu na mão. E
é com isto que por enquanto nos temos de contentar.
Queriam um prémio? Pois
este é o nosso castigo!

