Há uma outra reflexão que nos pode ajudar a perceber a renúncia de Bento XVI. É uma perspectiva simbólica, porque deduzida através dos símbolos.
A imagem de João Paulo II é a imagem do sofrimento, da renúncia, da aceitação conformada dos desígnios de Deus.
João Paulo II escolheu como símbolo (se é que se pode dizer assim) do seu papado uma imagem de Cristo na cruz. A cruz vergada pelo peso do sofrimento. O sofrimento como caminho para a Santidade.
Bento XVI, pelo contrário, escolheu uma cruz sem Cristo. Cristo ressuscitado, sinal de Esperança, já não está na Cruz. Ressuscitou e está entre nós.
Bento XVI não quer que o caminho da Salvação esteja necessariamente associado ao sofrimento. A mensagem da Igreja é uma mensagem de Esperança, própria do Cristo-Rei ressuscitado.
O Papa não quer ser ele próprio um sinal de velhice, de sofrimento, de caminho para a morte. Principalmente não quer a ideia de que o caminho para o Céu (seja lá o que isso for) tem de passar pela dor.
A renúncia surge numa altura de lucidez plena. A lucidez de quem sabe que o sucessor de Pedro tem de ser portador de Esperança.
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terça-feira, fevereiro 12, 2013
Bento XVI
Na minha muito humilde perspectiva, acho que é já possível tentar algumas reflexões sobre este papado de Bento XVI.
Por um lado, a escolha pelo Cardeal Ratzinger do nome Bento tem de ter um significado. Em especial, conhecendo o seu perfil altamente intelectual, a invocação de São Bento deve ser vista como um sinal. São Bento é o padroeiro da Europa. E a Europa apresenta-se, nos dias de hoje, como portadora de um conjunto de valores com vocação universal. Há, de facto, visões europeias que se espera que tenham acolhimento noutras zonas do mundo. O ponto é o da dignidade da pessoa humana. E é a partir daqui que, por exemplo, nasce a proibição da pena de morte e a igualdade entre homens e mulheres. Este é um património europeu, assente e construído sobre os valores (e a tradição, culturalmente falando) judaico-cristãos. Acho que foi a este património a que o Papa quis dar relevo quando escolheu ser Bento XVI.
Para o primeiro ano do seu papado, Bento XVI escolheu a figura exemplar de São Paulo. Sinto que é uma escolha que se insere na lógica da escolha do nome. São Paulo é o primeiro teólogo, com uma teologia verdadeiramente actual e, diria, europeia. O "não há grego nem romano" porque somos todos filhos de Deus, é um apelo forte à igualdade entre todos e, por isso mesmo, há defesa da dignidade da pessoa humana.
Neste ponto diria que Bento XVI esteve verdadeiramente na vanguarda.
Um outro ponto que pode ser objecto de balanço é que havia o receio de um retrocesso nas posições da Igreja. Dizia-se que este Papa era um radical, que era o guardião das posições radicais, e que se temia o pior. A verdade é que tivemos um Papa tolerante, embora firme.
A isto não é indiferente o seu elevado perfil intelectual. Ratzinger há muito que defende uma conciliação entre Fé e Razão, e coloca essa visão em prática. Sugiro, só para ter um cheirinho, o diálogo entre Ratzinger e Habermaas sobre os fundamentos do poder no Estado. Eu tive a oportunidade o de ler numa edição da Revista Estudos, do CADC. E vale a pena poder ver o elevando nível de uma discussão entre Ratzinger e um dos símbolos máximos do racionalismo contemporâneo.
Tivemos um Papa de grande profundidade de pensamento, e altamente consciente da realidade que o rodeia. É, provavelmente, essa consciência que provoca esta sua decisão.
Por fim, parece que ainda é cedo para medir todo o significado actual e futuro de uma renúncia papal, assente na avançada idade. Mas sinto que a partir de agora as coisas mudaram. Sinto que as escolhas recairão sobre cardeais mais jovens, e que a renúncia passará a ser a regra.
Por um lado, a escolha pelo Cardeal Ratzinger do nome Bento tem de ter um significado. Em especial, conhecendo o seu perfil altamente intelectual, a invocação de São Bento deve ser vista como um sinal. São Bento é o padroeiro da Europa. E a Europa apresenta-se, nos dias de hoje, como portadora de um conjunto de valores com vocação universal. Há, de facto, visões europeias que se espera que tenham acolhimento noutras zonas do mundo. O ponto é o da dignidade da pessoa humana. E é a partir daqui que, por exemplo, nasce a proibição da pena de morte e a igualdade entre homens e mulheres. Este é um património europeu, assente e construído sobre os valores (e a tradição, culturalmente falando) judaico-cristãos. Acho que foi a este património a que o Papa quis dar relevo quando escolheu ser Bento XVI.
Para o primeiro ano do seu papado, Bento XVI escolheu a figura exemplar de São Paulo. Sinto que é uma escolha que se insere na lógica da escolha do nome. São Paulo é o primeiro teólogo, com uma teologia verdadeiramente actual e, diria, europeia. O "não há grego nem romano" porque somos todos filhos de Deus, é um apelo forte à igualdade entre todos e, por isso mesmo, há defesa da dignidade da pessoa humana.
Neste ponto diria que Bento XVI esteve verdadeiramente na vanguarda.
Um outro ponto que pode ser objecto de balanço é que havia o receio de um retrocesso nas posições da Igreja. Dizia-se que este Papa era um radical, que era o guardião das posições radicais, e que se temia o pior. A verdade é que tivemos um Papa tolerante, embora firme.
A isto não é indiferente o seu elevado perfil intelectual. Ratzinger há muito que defende uma conciliação entre Fé e Razão, e coloca essa visão em prática. Sugiro, só para ter um cheirinho, o diálogo entre Ratzinger e Habermaas sobre os fundamentos do poder no Estado. Eu tive a oportunidade o de ler numa edição da Revista Estudos, do CADC. E vale a pena poder ver o elevando nível de uma discussão entre Ratzinger e um dos símbolos máximos do racionalismo contemporâneo.
Tivemos um Papa de grande profundidade de pensamento, e altamente consciente da realidade que o rodeia. É, provavelmente, essa consciência que provoca esta sua decisão.
Por fim, parece que ainda é cedo para medir todo o significado actual e futuro de uma renúncia papal, assente na avançada idade. Mas sinto que a partir de agora as coisas mudaram. Sinto que as escolhas recairão sobre cardeais mais jovens, e que a renúncia passará a ser a regra.
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