sábado, abril 30, 2011

Porque hoje é Sábado


“Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.”

Alberto Caeiro

sexta-feira, abril 29, 2011

Um boné escocês


A agricultura deve ter um ministério ou uma secretaria de Estado ?
Parece que há por aí umas pessoas, das tais que não sabem distinguir uma couve galega de um repolho mas que de vez em quando põem um boné na cabeça e vão petiscar chouriço ao campo, que se dão ares de grandes defensores do mundo rural por reivindicarem um ministro.

Julgam que a política agrícola é gerir os envelopes de Bruxelas e esticar quotas. Sentam-se nessa visão burocrática e corporativa da mesma maneira que se sentam no tractor emprestado para a foto, a ajeitar o colarinho. E entendem que essa força de vontade de irem de vez em quando dar uma palmada no rabo de uma vaca os transforma por si só em campeões da bosta.

Nunca lhes passou nem passará pela cabeça questionar o modelo intensivo e extensivo da dita agricultura ‘moderna’, das armadilhas dos auto-denominados produtos fitossanitários (o nome catita das químicas com que encharcam a terra e contaminam as napas), da progressiva destruição dos nossos pinhais por esse eucaliptal monstruoso que suga e seca, e ainda menos de uma PAC europeia atrofiante.

Políticos de aviário, diria eu.

Avaliação dos profs

Aqui está uma boa notícia. Estava a fazer-me impressão ver o Mário Nogueira a mandar em toda oposição (em rigor, só devia conseguir mandar em parte da oposição...)

Novas tarefas II - contol+alt+del

O Douro lançou há dias o desafio de repensar a Constituição.

Gosto e acho apropriado que no estado em que se está se ponha tudo em causa, nem que seja para concluir que o que existe está bem. Mas parece que existe a necessidade de voltar às grandes questões e às primeiras perguntas. Parece que estamos na altura de perguntar

- O que é o Estado?
- Para que serve o Estado?
- Que Estado queremos?
- Que Estado podemos ter?

Parece que o modelo que existe não serve, fundamentalmente porque está desadequado. Os accionistas (que são aos cidadãos) todos os anos necessitam de se endividar para suportar uma tremenda máquina despesista. Os números não são fiáveis, mas parece que se gasta a mais entre 12 mil e 20 mil milhões de euros por ano. E isto não vai lá com congelamentos de salários, ou perda de 13º mês. É todo o esquema, toda a arquitectura, que necessita de ser repensada.

Tem de ser repensada a arquitectura do Estado Social que a Constituição defende. Mas, em simultãneo, tem de ser repensada a arquitectura fiscal e a proporcionalidade dos impostos sobre o trabalho. Também em simultâneo tem de ser reprensada a arquitectura organizativa do Estado, que gerou um modelo centralista e desertificador do país. Também o modelo de funcionamento parlamentar e partidário tem de, em simultãneo, ser revisto, já que este tem gerado uma dose significativa de protagonistas de qualidade desadequada às exigências destes tempos.

Claro que o modelo semi-presidencialista também tem de ser posto em causa, ou pelo menos revisitado. A Constituição não soube reagir à crise. A Constituição está pensada para momentos de estabilidade. Com bom tempo, o governo (com legitimidade democrática indirecta...) vai ao volante do carro. No lugar do morto vai o PR (com legitimidade democrática directa...), e que só pode fazer advertências ao condutor.

Se não fizermos o reset, se não repensarmos tudo, se não se partir para um novo paradigma (como agora se diz...), daqui a 5 anos estamos novamente neste estado, a pedir ajuda.

sexta-feira, abril 22, 2011

Esta é a nossa oportunidade.

O País sabe que devia dar relevância ao CDS, mas só agora, a pouco e pouco, a tem dado.

A credibilidade, o estatuto de preponderância, tem sido um caminho de pedras.

Umas vezes o percurso fez-se bem, outras mal. A primeira hipótese é a única.


Aqui chegados, temos, pois, de não perder o norte e de não esquecer, politicamente, como actuar .


O CDS, tendencialmente, sempre que está centrado na sua matriz democrata cristã, tem razão.


Fez, por isso, bem Paulo Portas, no último CN, sublinhar que não há nenhuma deriva de valores e que o CDS está onde diz e escreve que está.

Não há margem para desvios ou equívocos. Somos um partido fiável!

Assim foi quando o CDS, isolado, não embarcou em ventos de ocasião e votou contra as propostas radicais da constituição ainda em vigor. Agora, por força da então maioria, colhemos tempestades.


Assim foi quando se opôs aos desmandos dos governos cavaquistas e socialistas. Foi, na altura, ignorado.


Assim foi quando o CDS votou contra as leis do aborto e demais propostas "fracturantes". Pareceu acantonado.

O País sabe que deve dar relevância às propostas do CDS e que agora a vai dar.


Aos poucos vai confiando, reconhecendo, identificando e há mesmo cada vez mais gente a pensar como nós.

Se para se ter voz é preciso ter votos, para se ter votos é preciso ganhar cada vez mais gente. Somar dentro e fora.

É esta é a nossa oportunidade Portugal!

Disse no último CN do Partido, sem acesso a sondagens, que os nossos adversários nem sonham onde podemos chegar. Agora, semanas depois, corrijo. Eles acordaram e perceberam onde podemos e vamos chegar!


Saibamos, com coerência, estar à altura das nossas responsabilidades.

Já que o tempo tem vindo dar razão e razões ao CDS, continue o CDS a dar razão e razões ao nosso tempo!

quinta-feira, abril 21, 2011

FCP na LUZ

No final do jogo de ontem a bancada afecta ao FCP cantava:


-" Fecha a porta, apaga a luz....""

Uma doçura!!!

E viva o Telmo!

Lastimo a perda de autonomia política e financeira associada ao pedido de ajuda internacional. Mas estamos a ficar inimputáveis. Então o PS propõe o Telmo do Big Brother como candidato a deputado pelas listas de Leiria? Não que tenha alguma coisa contra o Telmo, não, que até concordo com ele quando diz que convém “agarrar os desafios”, e que é necessário que os jovens se mantenham na política, e que está na hora de dar o seu contributo, claro, mas desconfio que o cargo de deputado não se deixa adequar muito a um marmanjo que se auto intitula “jovem” quando já deve ter passado a casa dos trinta, cujas qualidades essenciais são, segundo o líder do PS da Batalha, ser “um jovem empresário que facilmente pode ser reconhecido por ter participado num programa da televisão”, e que domina o português e os conceitos com a mestria e fluência que demonstram as seguintes frases utilizadas por ele quando ascendeu ao estrelato: «A pessoa mais próxima é a que descarrego mais tudo; «Uma pessoa vira-se para um lado e se for preciso desvira-se»; «Quem é que quer esta lata de atum mais eu?»; «O antebraço? Como o próprio nome indica é o que está antes braço, ou seja, o ombro».
Eu cá também tenho expressões fetiche. Aqui vai uma: Céus!

Santa ignorância

Vim passar uns dias à terra, que é como quem diz à Póvoa de Lanhoso, para descansar o espírito, e o corpo, que se vai entretendo à cuidar das árvores, das sebes e do jardim. Hoje de manhã, fui tomar o meu café e comprar o jornal, e aproveitei para saber, católica que sou, dos horários das cerimónias da Semana Santa. Já no café, escolhi a menina que me pareceu mais responsável, gerente de há anos do dito estabelecimento, o mais central e movimentado da terra, e perguntei:
- Olhe, diga-me, por favor, uma coisa. O enterro do Senhor, amanhã à noite, sai a que horas da Capela do Horto?
A menina era toda ela concentração. As sobrancelhas ergueram-se, os lábios cerraram, a fronte elevou-se em sinal de esforço, suspirou, aproximou-se de mim, e respondeu então num tom de voz baixo ao que lhe tinha perguntado….
- Quem? respondeu ela. Quem morreu? Não sei de nada….
Não se pode pedir ao FMI que leve o PSD?
Aceitamos qualquer partido de centro direita da Europa, só não pode é ter dirigentes históricos.

Ide fazer pirogas para o carago!

Com a devida vénia, recomenda-se a leitura deste artigo de opinião do Jorge Fiel no DN. É sobre o espírito "tuga", uma parábola divertida sobre a nossa forma de reagir à adversidade.

Vem isto a propósito da sondagem da Marktest para a TSF, de hoje, a que pomposamente chamam "barómetro". O PS aparece à frente do PSD, com os dois virtualmente empatados. Não percebo nada de técnicas de sondagem, mas percebo isto.

1. Os tugas estão a dizer ao PSD para ir fazer pirogas para o carago. A mensagem resulta de já ter ficado claro que o PSD não sabia o que estava a fazer, nem o que queria fazer depois, quando decidiu vetar o PEC 4. Pior ainda, nem sequer soube salvaguardar a honorabilidade de não aceitar a forma como o governo o quis impor.

2. O voto útil à esquerda vai ser muito relevante nestas eleições. Como indica a descida do Bloco, que ainda assim não compensa a subida do PS.

3. A Nação não quer que as coisas mudem. Como ontem me dizia pessoa amiga, "para quem ainda tem salário nada mudou"... Pois, parece. Mas não é bem assim, pois não!? O único facto relevante desta sondagem parece ser a incapacidade dos eleitores perceberem ou assumirem que os erros das últimas décadas foram particularmente agravados nestes últimos 3 anos, sobretudo ao nível da Dívida pública. Bem fala o CDS de parar o endividamento... Os outros só lhes interessa saber com que parcela de poder vão ficar. E o Povo, pelos vistos, está mais interessado em saber a quem vai dar qual parcela. Pelos vistos, vai querer que o PS e o PSD a dividam. Merecemos a crise e merecemos as suas consequências.

4. O desafio maior é para quem se sente parte da "elite esclarecida". Provavelmente esta é uma das últimas oportunidades para assumirmos um papel de "liderança" no esclarecimento da Nação. Com dignidade. Ou aceitarmos estas variantes modernas de protectorado, financeiro ou de inimputabilidade, tanto faz, definitivamente, como uma condição da nossa natureza. A não ser que se descubra um novo ouro noutro Brasil, para podermos continuar a fingir que somos gente esclarecida e governada. Ou governável.

TREINADORES

Sempre me interroguei sobre qual seria a característica mais importante de um treinador de futebol. É mais importante ser um bom preparador físico ou um especialista em táctica? Ou não ser nada disto e apenas dizer aos jogadores, como um antigo treinador nacional, “vamos a eles que nem uns tarzões!”.

Acho que já sei a resposta. Se tivesse de escolher um treinador para uma equipa de futebol, em primeiro lugar teria em conta a sua personalidade e carácter, porque me parece que são estas características que vão influenciar decisivamente os jogadores.

Evidentemente que o ideal seria ter um treinador completo, como o José Mourinho, por exemplo. No entanto, o perfil pessoal é, quanto a mim, fundamental.

Por exemplo: eu acredito que o Jorge Jesus não saberá menos de futebol e de esquemas tácticos do que o André Villas Boas ou que não perde para este em capacidade de leitura de jogo.

No entanto, as equipas de um e de outro são muito distintas mesmo considerando a eventual diferença de qualidade dos jogadores.

A equipa de Villas Boas joga à sua imagem: alegre, jovial, confiante, motivada, humilde, tenaz e esforçada. Quando cai levanta-se, quando está de pé segura-se.

Já a equipa de Jorge Jesus, pese embora toda a sua qualidade técnica, que será muita, reflecte algumas das piores características aparentes do seu treinador: arrogante, nervosa, presunçosa, receosa, mentalmente frágil, indecisa, desorientada sob pressão, forte com os fracos e fraca com os fortes e, por tudo isto, incapaz de reagir à adversidade.

Não estou a dizer que um é melhor do que o outro ou que o FC Porto é melhor do que o Benfica, embora tenha a minha opinião, porque num certo dia todos nós podemos perder.

Digo simplesmente que prefiro André Villas Boas como treinador de futebol.

quarta-feira, abril 20, 2011

Novas tarefas


Por razões seguramente muito sábias, decidiram in su momento os constituintes de 76 e seguintes consagrar um sistema semi-presidencialista, em que um governo saído de eleições legislativas governa e um presidente saído de eleições directas e universais preside, dizem, a república, embora o que isso significa ou contém seja matéria mais ou menos elástica ainda que curta.

Entre o invocado “magistério de influência” (audiências, reuniões, discursos e recados) e a chamada “bomba atómica” (decisão de dissolução do parlamento) sobram “presidências abertas”, “roteiros” disto e daquilo, e toda uma actividade excurcionista em que o Presidente disputa ao chefe de governo honras inaugurais, microfones, câmaras de televisão e solidariedades várias.

Tivémos de tudo: a guerrilha soarista ao primeiro Cavaco, o despedimento abrupto do Santana e mais recentemente esta condescendência teimosa face ao descalabro socratino. Entretanto, onde uns dizem ‘Faça!’, outros clamam ‘Não pode’. E andamos nisto: um ping-pong de Belém a S. Bento, em que uma maioria parlamentar esbarra numa maioria presidencial ou o inverso.

A recente sondagem sobre as responsabilidades pela crise, em que o cidadão reparte culpas entre o Governo e o Presidente, demonstra a dimensão do equívoco, para o qual aliás muito contribuem as sucessivas campanhas presidenciais em que os diferentes candidatos prometem mundos e fundos alimentando a ilusão de que têm dentes afiados e omnipotentes.

As monarquias europeias e a maioria das repúblicas do continente há muito que se deixaram destes jogos florais em que se acusa o ‘árbitro’ de se esconder atrás de arbustos, tendo optado por sistemas parlamentares em que o Chefe de Estado é uma figura protocolar que não merece eleição directa. Outros preferiram regimes presidenciais, como o americano e o francês, em que se sabe claramente quem é o patrão e, portanto, quem é o responsável.

Não tenho opinião formada que me conforte na escolha entre o presidencialismo e o parlamentarismo, mas estou cada vez mais convencido que a pior das soluções, porque fonte de quesílias e de incertezas, é este semi-presidencialismo rocócó e sorvedor de energias.

Por uma nova Constituição.

terça-feira, abril 19, 2011

A ajudinha grega

Parece que os gregos não andaram só a receber a nossa ajuda, também se lembraram de demonstrar, a nós e aos nossos putativos ajudantes, que não basta a ajuda. É preciso investir, para que a ajuda faça sentido.

O problema é tão mais sério quanto já se percebeu que tanto PS, irremediavelmente comprometido com a cegueira de sentido único de Sócrates, como o PSD, irremediavelmente comprometido com a sua cegueira 'tout court', não têm qualquer ideia sobre o que fazer para nos tirar do buraco em que nos meteram.

Ambos já perceberam que terão de aceitar os cortes, quaisquer cortes, para ter acesso ao dinheiro. Ambos já perceberam que os cortes serão a doer, independentemente de quem tenha as culpas ou das soluções, e que doerão por muito tempo. Ambos já perceberam que não sabem o que fazer com o dinheiro que vier com os cortes.

Resta-nos confiar que o CDS tenha algumas ideias. Pelo menos tem sabido manter o recato. E como a imprensa não sabe o que fazer com o silêncio, é bom que se vá lembrando quem tem estado responsavelmente em silêncio - aliás, não será por acaso que se "andam" a descobrir submarinos relatórios de 2004!!!!! Quem quizer que tire as suas conclusões. Esperemos é que esse silêncio fale alto onde interessa. Sim, porque a alternativa ao CDS é a revolução, como já andam por aí a clamar os heróis do nosso outro extremo, o esquerdo.

Até lá, resta-nos agradecer aos gregos por andarem a mostrar a finlandeses e outros alemães que:
1º não se pode esconder a verdadeira dimensão nem do défice, nem da dívida.
2º não há reembolso sem recuperação económica.
3º pior do que não receber a dívida toda com o seu juro punitivo é perder 10 milhões de consumidores.

E agradecer ao FMI que, afinal, parece que sempre sabe o que anda a fazer quando aparece para ajudar os países a sair dos buracos em que os mete a inépcia de dirigentes e povos.

segunda-feira, abril 18, 2011

DE MALUCOS NÃO PERCEBO NADA

Entendo muito bem os finlandeses que não querem contribuir para o nosso bail out. Como merece ser ajudado um país irresponsável que vai encher o Algarve na Páscoa e cujos principais partidos dão um triste espectáculo de ping pong político em que discutem o acessório e aparentemente não se concentram no essencial? Não temos líderes à altura. Sócrates até pode ter determinação mas tem-na usado metodicamente para destruir Portugal. Só quer saber de si próprio e da sua sobrevivência. Um homem com esta “lata” e com tal capacidade de ilusionismo e de encenação é perigoso e nefasto, como a experiência demonstrou. Passos, ao contrário, até pode ser bem intencionado e admito que mais honesto politicamente mas é completamente errático e fica-se com a impressão que não sabe o que se passa nem o que tem a fazer. Não iremos longe. Este lamentável drama real, que tenderá a piorar com o tempo, é impossível que não tenha efeitos no eleitorado. Existem condições, creio eu, para que surjam resultados completamente inesperados que poderão mudar a tradicional arrumação partidária em Portugal.

domingo, abril 17, 2011

Bola preta


O PSD re-apresenta o hífen dos 3% como cabeça de lista pelo Porto.
Trata-se seguramente de uma evolução na continuidade, até porque o Sr. Aguiar afirma-se um convicto regionalista às Terças e Quintas e o Sr. Branco um arauto do situacionismo nos outros dias da semana. Em nobreza, o Porto não podia ficar atrás.

Terminou a sesta


A actual Constituição desempenhou o seu papel.
Importa não esquecer que esta Constituição substituiu uma outra cuja qualidade democrática seria, numa escala de 1 a 10, zero. Por muitos defeitos ( e eram mesmo muitos) que a Constituição dos cravos tivesse à nascença, corporizou um enorme progresso político e social.

Entretanto foi sendo remendada e burilada num ou noutro capítulo, umas vezes para melhorar, outras para piorar, conforme o ponto de vista de cada um.

Ao longo das décadas que correram por debaixo das pontes e à medida que as crises políticas se foram sucedendo por cima ou por baixo de crises económicas, aquele texto foi acumulando rugas e banhas, a ponto de ser hoje legítimo perguntar se não é chegado o momento de o arrumar na prateleira e de o substituir por um texto moderno, simples, curto e democrático, expurgado dos equívocos, perversidades e vícios do anterior.

Lá em casa, chegava o momento em que se percebia que já não valia a pena cerzir o fato ou remendar as calças. Em termos histórico-constitucionais, nós não somos nem a Inglaterra nem os Estados Unidos. Convinha começarmos a pensar numa ida ao alfaiate, até porque nestas coisas não há pronto-a-vestir que nos convenha.

Tentarei em posts ulteriores expôr algumas ideias-mestras para um novo texto constitucional.

sábado, abril 16, 2011

As novas diuturnidades



Consta que o D. Basílio vai encabeçar a lista do « engenheiro » por um círculo qualquer.
O CDS tem sido ao longo dos anos um fornecedor incansável de personagens (não digo personalidades) para uma agremiação que dá pelo nome de Partido Socialista e que nos vem afundando alegremente.

Será então verdade o tal dito francês “qui se ressemble, s’assemble” ?
Os ingleses diriam “birds of a feather flock together”.
Nós cá poderiamos dizer “os submarinos são como o azeite”

Porque hoje é Sábado

Óleo de Jackson Pollock "Os guardiões do segredo" - 1943

sexta-feira, abril 15, 2011

VOLTO JÁ

Sempre me irritaram estes letreiros que por vezes encontro na porta do quiosque e me obrigam a ir comprar o jornal mais longe, ou a voltar mais tarde, enquanto a lojista toma café e tagarela com a colega da loja ao lado.

Mas agora chegou a minha vez de a ele aqui recorrer, assim aprendendo a calar que desta água não beberei, como sugere a sabedoria popular.

Será uma ausência de duas semanitas que, em época pascal, provavelmente nem se notaria se aqui não colocasse o dito letreiro. Mas não escrever com desculpa sempre me livrará de umas bocas.

Na última revisão, os médicos descobriram uma peça avariada na minha máquina e que a prudência aconselha a tirar, pelo que lá terei que voltar ao estaleiro para mais umas obritas.

É engraçada esta coisa de nos irem tirando peças e a máquina continuar a trabalhar. Já é a segunda que me tiram, para além de uma outra que me colocaram fora de serviço.

Por vezes também avaria uma peça no meu carro, mas aí tenho de a substituir. Mesmo que não faça falta ao andamento, o carro não passaria na próxima inspecção.

Felizmente para mim que o Sócrates ainda não se lembrou de criar inspecções para as pessoas. Seria certamente mais uma atraente fonte de rendimento para as finanças públicas. Mas, e os que não passassem, ficariam impedidos de caminhar na via pública?

Bem sei que poderia continuar a observar o mundo pelo meu tv e a comunicar pelo meu pc, mas por certo até iria ansiar por voltar a ver um “volto já” na porta do quiosque.

Até já, espero!

"Saídas para a crise"

Há 4 saídas para a crise e não sei qual delas a pior:

1. Não pagar parte da dívida (=Argentina) e sair do Euro com empobrecimento abrupto do país mas com possibilidade de aumento da competitividade após desvalorização significativa da moeda;

2. Reestruturar a dívida (alguém me explica como é politicamente possível?); estamos sem dinheiro para pagar os salários de Maio...

3. Maior integração orçamental europeia com a criação de Euro-Bonds em que os países ricos assumem parcialmente as dívidas dos pobres! Não estou a ver a Merkel a aceitar essa hipótese...

4. Por fim, a nossa escolha actual: o Come e Cala que basicamente é cumprir o ajustamento orçamental ditado pela Alemanha e não sair do Euro, maltratando a Economia.


O Euro foi criado para países financeiramente responsáveis. Talvez tenhamos que esperar um novo governo alemão para vermos uma saída sustentada ao fundo do túnel e a partir daí, oxalá, tenhamos aprendido com os nossos erros....

Miguel Lume"

É preciso serem os estrangeiros

Porque por cá parece que ninguém quer enfrentar o óbvio; es este não é qualquer um: Nouriel Roubini avisa que Portugal não vai poder pagar tudo o que deve. Tal como a Grécia, possivelmente a Irlanda e, pelo sim pelo não, vai dizendo que a Espanha não é assim tão diferente...

Confirmar aqui no Diário Económico.

Neste contexto destravado em que vivemos, alguém percebe porque é que o GOVERNO AINDA NÃO CONGELOU OS REEMBOLSOS DE DÍVIDA EMITIDA E VENCIDA? Hoje foram só 4,3 mil milhões (notícia do Público); coisa pouca... (parece que a um juro de 5,15%, provavelmente mais baixo do que o que iremos pagar aos FMIs deste mundo, quando E SE vier a dita "ajudinha"!!!).

Entretanto, algumas notícias são boas. A Alemanha, certamente por causa do que parece estar a passar-se na Finlândia, já percebeu que vai ter de mudar de discurso e explicar aos seus próprios cidadãos que a culpa não é só daqueles mediterrânicozinhos e, principalmente, que é do interesse dos próprios alemães contribuir para uma solução - isto é, um resgate que permita que as economias resgatadas possam crescer. Mesmo que isso signifique perdoar alguma dívida...

Foi tão só isso o que significou a afirmação do seu Ministro das Finanças, esta semana, quando admitiu que a Grécia não poderá pagar tudo o que deve. O resto é folclore para entreter os povos. Como o futebol.

O presentismo e o que está desoladoramente ausente das negociações - as três variáveis (I)


Dívida, recessão e "debt trap"

I. A Dívida 1978, 1983, 2011

1978
O défice público era de 10% do PIB. Com a intervenção do FMI, o poder de compra diminuiu 12%. O escudo foi desvalorizado em 27,6% entre 1977 e 1979, o que permitiu relançar as exportações (+27,2% em 1979). Não chegou a haver recessão.

1983
O défice público voltou aos 10%. A inflação chegara aos 34%, em grande parte devido à desvalorização monetária anterior, anulando parcialmente os efeitos positivos desta sobre a competitividade nacional, mas reduzindo também a dívida real. Com a intervenção do FMI (desvalorização da moeda, baixa dos salários reais, subidas de impostos e congelamento das prestações sociais), o poder de compra diminuiu 18% e a taxa de desemprego disparou para 8,8% (em 1985). Mas as exportações começaram a crescer 10% ao ano, ao ponto de a balança de transacções correntes passar a ser excedentária. O montante do empréstimo foi de $ 650 milhões, ou seja, 3,5% do PIB.

2011
Défice crónico da balança de transacções correntes (8-10% desde 2000). Desvalorização impossível (para já…). O défice do Estado ronda os 9%. Competitividade zero.

Há alguém no seu perfeito juízo ou de boa fé que imagine que esta dívida é pagável sem ser "ajustada"? 80 mil milhões de euros, metade do PIB? Em 1983, foram 650 milhões de dólares, 3,5 % do PIB.

Bartolomeu

O presentismo e o que está desoladoramente ausente das negociações - as três variáveis (II)



II. A recessão

Os números anunciados há dias pelo FMI são cândidos. Tendo em conta o impacto das medidas absurdas que nos são propostas, o crescimento negativo vai ser pelo menos duas ou três vezes superior ao previsto e prolongar-se durante muitos mais anos do que os dois previstos. Os cortes salariais e os despedimentos na função pública que são inevitáveis na lógica "assistencial" corrente, conjugados com as outras medidas que vão ser tomadas (fica para outro artigo), não podem ter outro efeito senão esse.

Bartolomeu

O presentismo e o que está desoladoramente ausente das negociações - as três variáveis (III)


III. A "debt trap

A "debt trap" é-nos ainda mais desfavorável que à Grécia. O resultado grego (quanto mais se paga nestas condições draconianas, mais o défice aumenta - o défice vai atingir 152% do PIB no fim do ano - prenuncia a evolução em Portugal. Remeto para o artigo do NYT de há dias já aqui assinalado
http://www.nytimes.com/2011/04/09/world/europe/09portugal.html?_r=2&ref=stevenerlanger


Aflige-me seriamente que, no rodopio da salvação imediata, não se fale nestas variáveis.

Bartolomeu

O presentismo e o que está desoladoramente ausente das negociações


Santo Agostinho dizia que o presente é a aresta da lâmina de uma faca entre o passado e o futuro e que não pode conter nenhuma medida de tempo. Outros mais tarde vieram contrapor-lhe a duração da experiência consciente (Bergson). William James sugere que o tempo é o curto período de tempo durante o qual estamos imediata e incessantemente sensíveis.

Na política portuguesa actual, o presentismo tudo domina. Com a aflição, há pouco espaço para o passado e nenhum para o futuro. No entanto, que bom seria que nos determinássemos hoje, mesmo na urgência, com uma consideração mínima, ainda que ténue, sobre as condicionantes que nos podem vir do futuro imediato – para não falar das perspectivas de saída a mais longo prazo.

Vou apontar, em três artigos seguidos, algumas condicionantes que me parecem óbvias mas que estão desoladoramente ausentes das negociações actuais e do debate público em torno delas: a nossa dívida e o que significa realmente, já neste momento; os imponderáveis económicos e os imponderáveis políticos.

Questão de estarmos pelo menos "imediata e incessantemente sensíveis" e, como tal, conscientes.

Bartolomeu

A base das negociações é o PEC 4. Porquê?

Precisamos dos fundos (vou usar o FMI por ser mais prático) porque não nos conseguimos financiar nos mercados. Pelo menos a preços razoáveis. Temos que reduzir a despesa, para podermos pagar o que devemos.

Até aqui, todos de acordo. Mas porque carga de água é que as negociações TEM de ter por base as medidas que o Governo escolheu, pelos vistos em autarcia intelectual e moral, para inserir no malfadado, e chumbado, PEC IV?

Porque é mais fácil?
Porque já lá estão e não precisam de ser repensadas?
Porque são as mais adequadas?
Porque são as mais eficazes?

Ou apenas, porque convêm ao governo? Na medida em que confirmam a bondade das escolhas do próprio?

NÃO TERÁ CHEGADO A HORA DA SERIEDADE?

Não será do interesse do FMI que Portugal escolha e assuma medidas que tenha VONTADE de cumprir, isto é que agradem aos partidos que têm possibilidade e interesse em integrar o próximo governo?

quinta-feira, abril 14, 2011

Bola, Portugal e a Europa

Portugal, na bola, dá cartas na Europa.


F. C.Porto, Sp. Braga e SLB estão a dar mostras de um futebol competitivo e ganhador.


O nosso País, infelizmente, do ponto de vista das contas públicas não tem sido um exemplo na Europa.


O problema está nos líderes e na forma como gerimos as nossas vidas e carreiras, como trabalhamos, ou nos "mercados"?

perfeito era ...DEMITO-ME

ÚLTIMA HORA

E tudo começou a acelerar, e de que maneira.

A reestruturação da dívida grega parece iminente, ou pelo menos é hoje claramente apontada como muito provável.
Schaueble, o ministro das finanças alemão fez declarações ao “Die Welt” (entretanto desmentidas por um qualquer funcionário), que aumentaram a carga dramática da situação, visto admitirem que uma reestruturação da dívida grega implicaria um acordo de credores, dando a entender que uma parte é para colar ao tecto. Peritos da Standard & Poors declararam ao “Die Zeit” que o perdão de dívida precisaria de corresponder a um mínimo de 50%.

Perante tudo isto, os ‘credit default swaps’(CDS), uma espécie de seguros contra o não-pagamento, dispararam relativamente à Grécia, e sobem relativamente a Portugal e Espanha.
Espanha pede socorro aos chineses. Juros aumentam.
Na Europa ninguém se entende e há pânico.

Por cá, a notícia de primeira página do JN é que o Renato Seabra mudou de cadeia. Pois...

Bartolomeu, por onde andas?

Em 1° classe


Ficamos a saber que o Sr. Nobre não quer ser deputado, mas sim Presidente da Assembleia.
Se tal não for possível, o cabeça de lista por Lisboa resigna e volta para casa.

Não será o primeiro nem o último a fazer isso. O Sr. Deus Pinheiro fez o mesmo nos dias seguintes a ter sido eleito como cabeça de lista por Braga: não voltou para casa, voltou para os tacos de golf. E o PS é igualmente exímio nestas lides: lembram-se das venerandas Elisa Ferreira e Ana Gomes? : ou a presidência ou nada. Porto e Sintra deram-lhes o troco merecido.
Bom, aquele ‘nada’ era qualquer coisa, era Bruxelas/Estrasburgo, naquele parlamento que recentemente rejeitou a proposta de pôr os euro-deputados a viajar em económica. “Queremos voar em 1° classe!”, olarilolé, acrescento eu.

Mas estou a desviar-me do assunto.
As barrigas de aluguer envolvem duas partes: a parte que abre as pernas e o(a) que por elas aproveita o colo, se preciso for renegando o que antes disse ou fez.

Algo me diz que vamos assistir a mais fenómenos destes na formação das listas partidárias. “É a vida”, dirão alguns. É o fim, digo eu.

quarta-feira, abril 13, 2011

Change, change, change, Yes we can!

Quem não se recorda destes slogans repetidos até à exaustão pelo Sr. Barack Obama e que o conduziram a uma estrondosa vitória nas últimas presidenciais dos States?

Uma vez eleito, logo anunciou como primeiríssimo change o encerramento de Guantanamo, com um yes we can e um commitment agendado para final do ano seguinte, mas que tudo se traduziu num estrondoso no we couldn’t.

Um pouco por todo o mundo se geraram então fortes expectativas em tantos changes, até que a coisa se foi esfumando e o Sr. Obama se foi transformando num ilustre desconhecido.

Por cá ainda se falou do seu cão Bo e das vestes de sua mulher Michele.
Do Sr. Barack Obama pouco mais ouvimos, para além de um recente e inócuo apelo ao Sr. Kadafi, a ponto de o poder considerar o presidente americano mais apagado do meu tempo.

O Sr. Obama anunciou recentemente a sua recandidatura à presidência dos EUA, agora com o lema “tudo começa connosco”.

Resta saber se, com este, se pretende dirigir aos americanos, ou a si próprio.

A época dos convites

Quando chega a altura de fazer listas para eleições sejam elas autárquicas ou legislativas aparecem sempre cinco tipos de politicos: os que dizem ter sido convidados e que não aceitaram,os que foram efectivamente convidados e não aceitaram, os que foram convidados e aceitaram e os que querem ser convidados e não o são. E claro há uma quinta espécie que é os que foram convidados, não aceitaram e nada dizem.

Os primeiros normalmente são os politicos em "bicos de pé". Tanto tentam aparecer que qualquer coisa serve.

E agora?



O que nos vai trazer o 5 de Junho ?
Se nos trouxer o despedimento definitivo do senhor “engenheiro”, já é algo de considerável na coluna do “haver”, mas o seu governo e o seu partido escavacaram o país de tal maneira que os salvados estão bons para a sucata do Godinho.

Ora se o que resta são resíduos e detritos, então mais vale reconstruir as instituições e o país a partir da estaca zero, revendo tudo, sem tabús nem complexos. Para haver futuro tem de haver um recomeço. Há um país que quer viver.

The Dismal Science


Nunca a economia foi tão uma ciência tão triste!

E os tempos em que essa expressão nasceu eram bem sombrios. No final do século XVIII, o reverendo Malthus previa a fome em resultado de um crescimento demográfico superior à taxa de crescimento da oferta de alimentos. A receita que propunha era à medida do medonho da profecia.

Invertendo a expressão que inspirara a Nietzsche o título da sua compilação de poemas "The Gay Science" (a arte da poesia), Thomas Carlyle retorquiu ao reverendo algumas décadas depois nestes termos: "Not a gay science, I should say, like some we have heard of; no, a dreary, desolate and, indeed, quite abject and distressing one; what we might call, by way of eminence, the dismal science".

terça-feira, abril 12, 2011

A prova de que estas eleições são forçadas pelo pinóquio

Eu cá não tinha dúvidas nenhumas que estas eleições foram premeditadas e provocadas pela estratégia socialista. Já aqui o escrevi. Mas esta pequena nota de que o registo do dominio socrates2011.com foi feito logo em Fevereiro é a prova dos nove. E como estavam livres os dominios socrates2012. com e socrates2013.com eu tratei de os registar. Sabendo da dependência que a personagem tem pela imagem ficamos com a garantia de que não vai a mais nenhuma nos próximos tempos.

Triplicados

Por razões que me escapam, certamente da órbita das divindades internáuticas, cada vez que comento a nortada de algum companheiro, os comentários aparecem em triplicado. As minhas desculpas aos prejudicados.

PS. Se alguém me puder ajudar, agradeço desde já.

Depois de tanta chicuelina...

...a tourada acabou assim

À deriva...

Não basta querer o FMI. É preciso também que o FMI queira cá ficar.

Perante o que está a acontecer podemos ter três eixos de reflexão possíveis. Não são excludentes, mas sugiro que a todos se dê alguma atenção.

Uma é a reflexão sobre "as causas destas consequências". É preciso relembrar o que correu mal, desde 74 até agora. E sobre isto podemos falar do não aproveitamento dos fundos comunitários, da corrupção, ou de outras coisas "fortuitas". Eu, atalhando caminho, acho que a nossa Constituição - contra aquilo que era a vontade do legislador constituinte - gerou um sistema (de organização da estrutura do Estado, de organização do sistema democrático partidário e também de "organização" da economia) que ao fim de 35 anos mostrou a sua total incapacidade para responder aos problemas que, como Estado, temos pela frente.

Outra reflexão é sobre o que queremos que aconteça já nas próximas eleições, como primeira etapa para sairmos desta situação. Eu, atalhando caminho, acho que o mais positivo era uma maioria sólida de um só partido, com uma oposição forte e responsável. Continuando a atalhar caminho, acho que para além de uma maioria no Parlamento a suportar o Governo, deverá haver um acordo entre PSD, PS e CDS para uma revisão constitucional profunda, que permita põr os contadores a zero e tomar as medidas legislativas (pelo Governo e pelo Parlamento) necessárias à saída desta crise dentro de (talvez) 10 anos. Aqui, insisto que tem igual importância estratégica (i) o acordo para rever a Constituição, (ii) a oposição forte e (iii) o governo estável.

Outra reflexão é sobre aquilo que é possível que venha a acontecer. É bem provável que tudo fique como está (no parlamento e na Constituição), e que o FMI resolva ir embora perante a impossibilidade prática de implementar as medidas de que depende o empréstimo do caroço.

Viva o FMI

Ou o FEEF, como preferirem.

E viva por esta razão principal: tudo o que vier a passar-se daqui para a frente não é culpa dos fundos, nem das medidas que venhamos a aceitar como contrapartida das "ajudas" que nos venham a dar.

Não senhora, a culpa é nossa. Nossa e do que andamos a fazer nos últimos anos (décadas).

Será fácil, de ora em diante, culpar os fundos, mas a verdade é que fomos nós que nos metemos no buraco - até demos uma segunda oportunidade ao Sócrates -, que hipotecamos o nosso futuro com PPP e outras que tais, que desperdiçamos as oportunidades dos fundos europeus, da adesão ao euro, etc. etc. e, sobretudo, que permitimos a implantação de um modelo económico que não só não tem futuro como não é competitivo.

Viva o FMI, igualmente, porque é a nossa única garantia, e sublinho única, de que ficaremos a conhecer a verdadeira dimensão da desgraça e bem assim que nos obrigarão a cumprir as promessas que venhamos a fazer. E isto não é pouco, porque a avaliar pela irresponsabilidade da nossa elite política, somos bem capazes de fazer muito pior se não houver quem nos impeça...

Para quem tiver dúvidas sobre o que afirmo há duas leituras recentes e obrigatórias: a página central do Expresso Economia de sábado passado sobre os custos previsíveis das PPP e a entrevista do economista grego, Chrysostomos Tabakis professor da Nova, no i de hoje.

Culpar o Arbrito

Não vou escrever sobre futebol, mas a situação é parecida.


Refiro-me à culpabilização das Agências de Rating. Esses "malandros" que têm vindo a reduzir as "notas" dadas à obrigações de dívida soberana. Há mesmo um grupo de economistas (ligados aos BE) que acha que as Agências de Rating deviam ser processadas.


O meu primeiro comentário vai para o facto de nunca nos termos queixado das Agências de Rating quando tínhamos acesso fácil ao crédito e uma boa notação.


As Agências de Rating existem para anular eventuais assimetrias de informação nos mercados. São entidades especializadas que analisam profundamente um determinado título e divulgam a sua opinião sobre a sua capacidade de criar valor (no caso das acções) ou de cumprir o pagamento (no caso das obrigações). Para simplificação isto traduz-se numa nota.


A partir dessa nota os investidores farão as suas escolhas. No caso das obrigações exigindo taxas de juro superiores para notas de rating mais baixas e o inverso nas melhores notas.


É assim que o sistema funciona e faz sentido.


Não nego que o sistema não é perfeito em especial porque, aparentente, existem conflitos de interesse. Ainda porque, como em qualquer opinião, há uma margem de subjectividade nas notações das Agências de Rating. Ainda mais porque, objectivamente, as Agências de Rating se tem vindo a portar de forma quase "bipolar" e pouco credível quando classificam os titulos acima do seu risco e, recentemente, quando baixam abruptamente as suas notações.


O meu ponto é que faz pouco sentido reclamar com as Agências de Rating. Mesmo que elas não existissem nós teríamos o mesmo problema para resolver. Acrescento ainda que é provável que elas terão sido responsáveis por um adiar do problema, já que o que é incompreensível é a nossa nota de há um ano e não a que temos agora. Por isso eu acho que se não houvesse rating é natural que, há mais tempo, os nossos credores nos tivessem dito "basta".


Reclamar com as Agências de Rating é atirar ao lado na resolução do problema. É ainda arranjar uma desculpa, coisa muito habitual cá por esta terra.


A semelhança com o futebol é que também lá os arbritos são fracos. Também lá cada vez que um clube perde o seu discurso é o de culpar os arbritos. E também lá quem é bem sucedido (dentro e fora do país) é bom a jogar futebol com um bom ou mau arbrito.


Para nossa desgraça o arbrito foi péssimo porque nos perdoou um ou dois pénalties no primeiro tempo. Entretanto fomos sofrendo golos atrás de golos. Agora que ele marcou penalti numa jogada em que temos dúvidas legítimas. Mas não lhe podemos atribuir a responsabilidade de termos jogado de uma forma miserável.

Não, categoricamente não,

respondeu F. Nobre quando há cerca de 2 meses Judite de Sousa lhe perguntou se aceitaria vir a integrar uma lista partidária nas próximas eleições.

Com a posta do Bartolomeu, o Douro introduziu no nosso blog a técnica do suspense, hoje muito em voga nos nossos media (vem aí o Bartolomeu, não perca o Bartolomeu, faltam 10 horas para o Bartolomeu, ...).

Proponho agora introduzir também aqui a técnica do inquérito de opinião, que hoje, por dá cá aquela palha, os ditos logo fazem num quadradinho (na sua opinião, o penalti: a) foi penalti? b) não foi penalti? c) não sabe se foi penalti?)

E a pergunta que aqui começo por deixar:

Na sua opinião, para P. Coelho, F. Nobre poderá vir a ser:

a) uma espinha na garganta?
b) uma pedra no sapato?
c) um grão de areia no preservativo?

segunda-feira, abril 11, 2011

Império à deriva

Quem já leu este livro (de Patrick Wilcken, da Civilização Editora) recorda-se certamente de uma sugestão que foi dada ao nosso rei: mudar-se para o Brasil, e propor a Espanha a troca de Portugal pela Argentina e do Algarve pelo Chile. Mas essa sugestão, como se sabe, não foi seguida.

Estaremos a complicar?

Eu tenho o vicio de procurar simplificar os problemas que vejo pela frente. Faço-o com três técnicas principais. Uma é retirar emoção à análise e a outra é dividir o problema em partes e por fim, a última, é aceitar que há problemas insolúveis.


Na actual situação Politico-Económico-Financeira acho que poderemos usar as três técnicas em simultâneo.


Com a primeira, retirar emoção á análise, concluimos que temos uma divida pública que não conseguimos fazer parar de crescer e que dificilmente conseguiremos pagar. A razão deste acumular de dívida reside na escolha que, nós Portugueses, fizemos para o nosso modelo de desenvolvimento(totalmente baseado no papel do Estado) e que nos leva ao 2º problema que temos (pouco falado é certo) de uma balança de transacções completamente desequilibrada. Gastamos mais do que somos capazes de produzir. Essa diferença é suprida por empréstimos do exterior. É esta a razão para, tanto o estado como as famílias Portuguesas estarem sobre endividadas. Em resumo, ao longo de 30 anos gastámos mais do que produzimos, alicerçámos a maior parte da iniciativa económica no estado e estamos completamente sobreendiviados. Agora é o momento dos credores dizerem que basta e, pior ainda, dizerem o que temos de fazer sob pena de pararem de nos emprestar dinheiro.


A segunda "técnica" é partir o problema ao bocados. Eu sugiro que o partamos em dois bocados (muito grandes). Um é o sobreendividamento do Estado o outro é a nosso desquilibrio na balança de transacções correntes (a diferença entre o compramos ao exterior e o que lhe vendemos).



  • Para o primeiro, o do estado, eu sou adepto de uma fortíssima redução de custos. Sou ainda adepto de um modelo de baixa intervenção do estado na economia e de uma revisão completa dos critérios de investimento do estado. Sou adepto que a maior parte dos custos do estado deve ser canalizada para a assistência social e para a administração da justiça (reparem que não coloco aqui a Saúde e Educação que acho que não teremos recursos para garantir que seja gratuita para todos). Acho crítico que o objectivo seja termos um saldo positivo nas contas do estado para os próximos 10 anos no mínimo.


  • Para o segundo, o da balança de transacções correntes o problema é muito mais grave. Aqui estamos a falar de estímulos à nossa economia, tanto para incremento de exportações como para substituição de importações. Isto para uma economia pouco competitiva como a nossa, com baixa formação dos seus recursos humanos e com uma enorme limitação no seu endividamento. Aqui eu sugiro que se promova quem arrisca, empreende, inova e cria valor. E por promova não advogo a atribuição de qualquer subsidio. O caminho é longo e difícil.


Por fim a terceira técnica, aceitar problemas insolúveis. Teremos uma vida muito difícil em Portugal para, pelo menos, a próxima década. Temos de aceitar isto. Quem nos disser o contrário mente e leva-nos pelo mesmo caminho que nos trouxe aqui. Aceitar isto significa aceitar que temos de ter outras opções nos gastos públicos e privados. Mesmo que essas opções não sejam a nossa primeira escolha. O bom senso nos gastos tem de imperar e temos de deixar de nos portar como "filhos de Pai rico". Estamos a pagar a irresponsabilidade dos últimos 30 anos de governação com ênfase nos últimos 6.



Resolver este problema é algo que devemos aos nossos filhos.

É preciso ler isto

Hoje, no International Herald Tribune:

http://www.nytimes.com/2011/04/09/world/europe/09portugal.html?_r=2&ref=stevenerlanger

"...the indebted countries are not really getting bailouts, he (Simon Tilford, chief economist for the Center for European Reform in London) said, but loans at high interest rates. For these to be a real bailout, there would have to be a default."

e ainda

"...it is the taxpayers of Greece, Ireland and Portugal who are bailing out British, French and taxpayers and depositers - not the other way around"

Importa-se de repetir?


Estarei enganado ?
Há dívida pública e há dívida privada. A primeira é a do Estado e associados e a segunda é a das pessoas singulares, das famílias e das empresas privadas. E em ambas há a parte interna e a parte externa, ou seja, aquela cujos credores são nacionais e aquela cujos credores são estrangeiros. Eu pensava que isto era assim mas começo a ter dúvidas.

Há por aí uns ruídos, a começar pelo próprio Teixeira dos Santos ainda ministro das Finanças, que dá a entender que o empréstimo europeu a contrair pelo Estado Português (80 mil milhões ou o que valha) vai ser utilisado numa parte substancial para acudir aos bancos privados portugueses, sob pretexto que vai ser necessário evitar riscos sistémicos do sector.

Quer isso dizer que vão ser os contribuintes a suportar os prejuízos do negócio bancário privado dos senhores Salgado, Ferreira, Ulrich e companhia e respectivos accionistas? Importam-se de repetir para ver se percebo? Ou isto é segredo de Estado?
Será que vou ter de me naturalizar islandês?

domingo, abril 10, 2011

Nobre no PSD

O anúncio de Fernando Nobre como candidato do PSD por Lisboa e a promessa de vir a ser Presidente da Assembleia da República fez-me alguma confusão. Em termos de oportunidade de comunicação não podia ser melhor, pois ofuscou mediaticamente o final do congresso do partido socialista. Por aí a ideia é boa.

Mas esse não é certamente o objectivo principal de PPCoelho, mas sim o de conquistar votos. Mas Nobre recolheu dois tipos de votos quando da sua candidatura a Presidente da República: os socialistas descontentes com Alegre e os que não se revendo nos candidatos dos partidos escolheram Nobre como opção.

Assim sendo parece-me que esta pesca não vai ser de sucesso absoluto. Os soaristas que queriam chatear o Alegre desta feita estiveram todos na Exponor.E zero de votos contra o PS mesmo daqueles que criticam em surdina o Sócrates. Restam então os que não se reviam nos candidatos e olhavam para Nobre como o candidato anti-sistema. Ok, não serão despreziveis não senhora.

Dessa forma PPC dá um ar de abertura à sociedade civil e vai buscar uns votos. Mas deve ter dado, ou vir a dar, ordens ao senhor Nobre para não falar durante a campanha. É que se o deixar virão ao de cima as suas ideias e essas são contrárias a tudo o que PPCoelho tem defendido. E lá terá que vir alguém explicar e peder tempo de antena. Veremos como o dominam.

A pergunta final é: vale a pena captar votos a troco de problemas e esquecer ideias e ideais?

sábado, abril 09, 2011

A nova brigada do reumático?


No mesmo dia em que prossegue em Matosinhos a operação de branqueamento neo-fascista (“Quem está comigo? Quem está comigo? Quem está comigo”- crescendo) de um gang de oportunistas, encavalitados nas costas inseguras de uma trupe acéfala a lançar hurras ao caudilhito da época, sai mais um Manifesto assinado por quarenta e tal senadores do sistema.

Pelos vistos, há quem pense que precisamos de uma dose de vaselina a ser aplicada pelas mãos pressurosas da nova brigada do reumático.

Todo o texto é suficientemente banal para contentar todos os que lhe emprestaram o nome, conseguindo dizer coisa nenhuma. Com excepção de um ou outro nome que lá deve ter entrado por caridade cristã ou por profundo tédio, é bem representativo da flor do regime que assim se resgata das culpas que não quer ter.

É o situacionismo no seu estado puro e é por isso que seria surpreendente que dali saísse alguma ideia de transformação, de ruptura ou de futuro. Desconfio que ainda vamos assistir a muitos andores deste tipo, mais deprimentes que mobilizadores. Que triste procissão!

O tanas!


A “Europa” diz que não deve ser feita nenhuma auditoria pública às contas públicas portuguesas.

A “ Europa” diz que quer o programa de austeridade aprovado até meados de Maio, ou seja, antes dos resultados eleitorais, recusando-se a conceder um empréstimo-ponte.

A “Europa” diz com toda a clareza que esse programa será baseado naquele que o parlamento português rejeitou.

A “Europa” considera que isso de se tratar de um governo de gestão é assunto que não lhe diz respeito.

A “Europa” considera, portanto, que os eleitores portugueses:
a) Não têm nada de saber o que se passa nem qual é a real situação do país;
b) E que se querem brincar às eleições, que brinquem, mas o programa de governo é ela que decide.

Que esta “Europa” tenha estes genes democráticos não constitui para mim surpresa alguma. Que o ‘tuga’ que lá anda a fingir que preside a uma comissão qualquer alinhe neste despautério, tampouco me surpreende.

Mas que a globalidade da classe política portuguesa encaixe estes insultos como fruto de um destino (sem dúvida merecido) e sem uma palavra de repúdio e de desmascaramento já é revelador da choldra a que chegámos.

Que ao menos isto sirva de lição para os ingénuos que ainda julgavam que a União era democrática. O tanas!

O contexto global da nossa crise particular

1. Por estes dias, como bem demonstra este mesmo blog, voltou a falar-se de política. Isso é bom, embora tenha acontecido por péssimas razões. Espero bem que este renovado interesse, ou preocupação como preferirem, se traduza numa maior participação nas próximas eleições e, sobretudo, numa maior pressão sobre os partidos políticos para assumirem com maior responsabilidade os seus papéis.

Uma pausa no congresso do PS

Ou será uma votação?

sexta-feira, abril 08, 2011

Dirigismo, empresariado e concorrência

Um pouco mais abaixo, um ilustre comentador (rabanadas) destas nortadas, Funes, o memorioso, discorda da minha discorrência sobre o fim do dirigismo porque "a ideia de que em Portugal existe uma classe empresarial autónoma e independente do Estado" é falsa; segundo ele, "não existe nem nunca existiu".

Facilmente se podem invocar argumentos empíricos, e históricos, para apoiar a tese funesta. Porém, peço licença para discordar.

Aceitar o bem fundado deste argumento é, como é conveniente para a elite que nos governa, confundir a classe empresarial com o empresariado do regime: estes últimos são aqueles de quem fala Funes, o memorioso (bem acompanhado pela generalidade da nossa elite comentadeira). O empresariado do regime consiste, normalmente, na generalidade dos administradores das "grandes empresas" nacionais, sobretudo as financeiras e as da construção civil e obras públicas; consistem ainda numa míriade de empresas oportunistas e bem relacionadas que aproveitam as necessidades de fornecimento ao Estado para acumular benesses que, no mercado, dificilmente conseguiriam alcançar. Não querendo ser repetitivo, trata-se das empresas produtoras dos "bens não transaccionáveis", de que agora toda a gente fala. Aliás, não muito diferente dos antigos protegidos do "corporativismo" pré-revolucionário.

Mas, felizmente, a classe empresarial portuguesa não se esgota nestes cúmplices do estado a que o Estado, e o País, chegaram.

Para além destes, felizmente, existem óptimos empresários e excelentes empresas, bem como outros menos bons e outras miseráveis, que, globalmente, têm conseguido continuar a aumentar as nossas exportações geralmente a ritmos bem superiores aos do crescimento da economia do País. E isto apesar de estarem sobrecarregadas com o excessivo peso do Estado na economia e com a ineficiência desse mesmo Estado, sobretudo no que respeita ao sistema judicial e legislativo. Qualquer economista atento sabe que o problema em Portugal não é a produtividade do trabalho, bem pelo contrário, é a produtividade do capital; nas suas duas vertentes: a gestão e os investimentos.

Estes empresários excluídos do regime, geralmente anónimos - apesar das raras excepções que o Funes bem aponta (Alexandre Soares Santos e Belmiro de Azevedo) - são muito melhores do que a classe política e a inteligência económica do País, a julgar apenas pelos resultados que apresentam. Basta ver os resultados das exportações e o sucesso das empresas na área das novas tecnologias.

Para além destes há, naturalmente, muitos outros empresários geralmente fracos. Por exemplo os empresários à sombra de privilégios corporativos, como é o caso das clínicas médicas ou dos advogados. Quero crer que mesmo nestas áreas se tem evoluído. Sei que vão ser obrigados a evoluir, agora que o Estado está demasiado fraco para os continuar a proteger. Estes são sobretudo prejudicados pela falta de formação e pelo mau funcionamento das instituições.

O que nos leva à "concorrência" que aludi em título.

A concorrência sempre foi maltratada pelas elites nacionais, sobretudo as políticas, mas igualmente a dos empresários dependentes do Estado. E era, como bem sabemos, dificilmente demonstrável. Digo era, porque depois do favor que a Sonaecom nos fez a todos com a sua OPA à PT, e a consequente separação entre a Zon e a dita PT, qualquer residente em Portugal sabe o que a concorrência pode fazer por nós, por muito desatento que tenha estado.

E uso a concorrência para sublinhar o ponto que quis marcar com o post sobre o fim do dirigismo. É que em Portugal temos sobretudo um défice institucional. As nossas instituições funcionam mal, para não dizer pessimamente. Por exemplo, se a Autoridade da Concorrência desempenhasse livremente as suas competências e promovesse verdadeira concorrência nos mercados, muitas áreas da nossa economia seriam mais eficientes (vide Zon). Inevitavelmente, pelo menos a prazo. Se os nossos Tribunais fossem verdadeiramente independentes e eficientes, a nossa economia seria muito mais competitiva. E por aí adiante.

Só não vê quem não quer ver. Esta aposta caudilhista que sistematicamente fazemos, procurando o homem certo para nos governar, em vez das ideias que nos tirem do lodo, é o legado mais pesado que nos deixou a primeira e a segunda República; a primeira por ter criado condições para a segunda; esta última por ter confirmado que só um homem forte e determinado poderia "endireitar" o País. A forma como tanto PS como PSD sempre exploraram este nosso sentimento caudilhista, ou sebastianista se preferirem, é que permitiu que o regime democrático se tivesse transformado nesta quinta partidária, onde o Estado é gerido como uma propriedade ao serviço de poucos com o pretexto de servir a muitos. Onde a economia passou a ser um instrumento da satisfação das prioridades de grupos e clientelas. Onde as empresas são instrumentalizadas para a prossecução das visões desligadas da realidade dos detentores do poder, a troco dos lucros de alguns. E por aí fora. E agora já conhecemos, ou começamos a conhecer, o verdadeiro preço que teremos de pagar por isto...

Quem tiver dúvidas do que afirmo, que se recorde dos argumentos sistematicamente usados para combater os diferentes projectos de regionalização, deliberadamente confundindo a reorganização do Estado, único verdadeiro objectivo de qualquer regionalização quando não há problemas políticos para resolver (como em Espanha), com a "recriação de quintas mais pequenas e mais difíceis de controlar"...

É obviamente no reforço, e melhoria, das Instituições que temos de apostar. E para o fazer só nos restam duas alternativas: ou a revolução ou os partidos descomprometidos com o sistema.

A crise dos outros

Permitam-me, no mesmo post onde dou as minhas sinceras boas vindas ao recém-chegado Bartolomeu, uma palavra de indignação, ou seja lá o que for que lhe queiram chamar, pelo chumbo dos nossos eurodeputados à emenda 3, do relatório Fernandes, que defendia a alteração dos critérios de pagamento de viagens de modo a que as deslocações de duração inferior a quatro horas deixassem de ser feitas em classe executiva para o passarem a ser em classe económica. Diga-se que a proposta contemplava excepção em função da idade e do estado de saúde do viajante. Lembre-se que Bruxelas não fica no fim do mundo. Sublinhe-se, por fim, que Portugal está como está, e que o comum dos cidadãos não vai ter que discutir se faz as suas viagens em executiva, mas apertar o cinto em coisas essenciais como alimentação, medicamentos e ensino dos filhos. Até um deputado conservador da Hungria da Comissão do Orçamento ironizou com o resultado da votação à luz da situação de crise que se vive em Portugal. Notou, digamos, apercebeu-se, como se fosse coisa difícil, da estranheza da situação. Que se repetiu no âmbito da votação sobre subsídios, abonos e salários dos senhores eurodeputados. Mas não vale a pena dizer mais nada, pois não?!

Portugal e a Europa - Portugal e o Mundo

"Regarde les hommes tomber", sugeria Audiard no seu belo filme dos anos 90.

Eu vejo-os, mas vejo também os que se erguem e a redenção toca-me mais do que a queda. Foi o que me veio ao pensamento com o anúncio de ontem. A realidade política em Portugal parece-me desfilar ao retardador. Anuncia-se agora um pedido de financiamento - recuso-me a chamar "ajuda" ao que é na verdade uma operação prestamista corriqueira – que já fazia parte da realidade matemática das contas públicas há pelo menos 8 meses.

Quem é o 'Bartolomeu'? (2)

Conheço-lhe o desassombro, a inteligência e a competência. Admiro-lhe a frontalidade e a capacidade de olhar o mundo de frente, sem preconceitos e com uma objectividade e uma limpidez a que já nos desabituámos.
Aceitou partilhar connosco os seus pontos de vista fundamentados sobre a situação do país e o futuro. Por razões que compreendo (e acredito que os nossos leitores o compreenderiam também), assinará a sua contribuição com um pseudónimo.

Vale a pena ouvir este ‘Bartolomeu’. Pode chocar alguns ou assustar outros, mas quando se pensa e escreve fora do quadrado é isso que acontece, não é verdade? É disso que mais precisamos: de dobrar os bojadores de hoje e de reinventar a boa esperança.

Daqui a 10 horas.

quinta-feira, abril 07, 2011

Quem é o 'Bartolomeu'? (1)

Trá-lo uma boa nortada.
Estejamos atentos.

Ainda há boa esperança? Há!

Dobrar os cabos


Vêm aí novidades no Nortadas.
Estejamos atentos

Espanha aqui ao lado

De espanha nem bom vento nem bom casamento,mas de quando em vez dar uma olhadela ao que por lá se passa é obrigatório. E assim num forum sobre politica e comunicação dei de caras com este comentário de um profissional da comunicação. Nada de mais.

"El panorama político español, refleja el pésimo nivel político existente, fiel reflejo del desajuste del propio sistema español, un senado inoperante y 17 mini-estados fagotizando al estado central."

O fim do dirigismo

O pedido de ajuda que o governo agora decidiu apresentar à Europa (tanto faz se foi aos amigos europeus ou à Comissão) significa várias coisas.

Uma das menos dispiciendas é o fim do dirigismo. Ao contrário do que clama uma certa esquerda militantemente protestante, a política tem dominado a economia nas últimas décadas portuguesas. De facto, sobretudo neste último governo, acreditou-se e viveu-se numa realidade em que os governantes se empenhavam em "inventar" negócios que propunham aos "privados", oferecendo-lhes "crédito" barato por parte da banca - obviamente mediante fartas contrapartidas que agora se acumulam para desenhar a verdadeira dimensão da nossa dívida pública.

Isto para não falar desse dirigismo mais directo que se aplicava às empresas públicas ou detidas pelo Estado, a quem se impunham objectivos de investimento e operação (por exemplo às transportadoras), facilitando-lhes a acumulação de dívida com a convicção de que não teriam de ser pagas ou seriam quando o crescimento económico o permitisse.

Obviamente, este modelo esgotou-se. E mesmo que a nossa classe política não o tenha percebido, aí virão os fiscais dos fundos que nos emprestem para o lembrar sempre que for necessário.

Isso é bom. É mesmo muito bom, porque a economia deve ser regida por critérios de criação de riqueza e, salvo raras e justificadas excepções, de maximização dos lucros actuais e futuros de quem investe. Nem sempre esses critérios e objectivos estarão alinhados com as prioridades políticas do País, seja de política social, como agora está na moda, redistributiva, ou qualquer outra. E essa é a principal função da política na "condução da economia": fixar o enquadramento das decisões dos agentes económicos. Com estabilidade, porque se as prioridades se alterarem ao sabor dos momentos, obviamente ninguém pode tomar decisões económicas sãs.

Por conseguinte, este recurso aos credores de último recurso acarreta também a grande vantagem de matar esse mito de que os governantes sabem melhor do que os gestores o que é bom para a economia. Talvez por confiarem nesse mito é que tantos governantes acreditaram que seriam bons gestores e/ou confiaram nos seus colegas políticos para gestores. Pagarão agora o preço que merecem.

Só não se compreende como é que tantos gestores se deixaram levar na conversa. E se se compreende é por suspeitarmos de razões pouco apresentáveis. O que também é bom que acabe.

Em todos os desafios há oportunidades. Oxalá sejamos capazes de aproveitar os actuais.

Ainda as SCUT

Aquando da transformação das SCUT do Norte em CCUT, ficou o compromisso que as demais SCUT também virariam CCUT a partir de 15 Abri 2011. Com isto, o Norte acabou por se calar.

Não se tratou pois de promessa socratina em plena campanha, mas sim de decisão do Governo.

Entretanto, com eleições à porta, anunciou agora este mesmo governo que já assim não seria, com a esfarrapada explicação que fazê-lo agora seria inconstitucional, por se encontrar em gestão, o que assim rezaria um parecer feito por ... ele próprio.

Ora, como todos bem sabemos, iniciar a cobrança das demais SCUT (centro e sul) em 15 de Abril, é medida de pura gestão, pois que se trata tão só de implementar uma decisão anterior, e não de uma nova medida política

Efectivamente, lê-se na Resolução do Conselho de Ministros 75/2010:

Nos termos da alínea g) do artigo 199.º da Constituição, o Conselho de Ministros resolve:
1 — Adoptar o princípio da universalidade na implementação do regime de cobrança de taxas de portagem em todas as auto-estradas sem custos para o utilizador (SCUT).
2 — Introduzir um regime efectivo de cobrança de taxas de portagens nas auto-estradas SCUT Norte Litoral, Grande Porto e Costa da Prata a partir de 15 de Outubro de 2010, em conformidade com o disposto no Decreto-Lei n.º 67-A/2010, de 14 de Junho
3 — Introduzir um regime efectivo de cobrança de taxas de portagem nas restantes auto-estradas SCUT, designadas por SCUT Interior Norte, Beiras Litoral e Alta, Beira Interior e Algarve, até 15 de Abril de 2011, nos termos de diploma legal a aprovar.

Esta é pois uma pura medida eleitoralista socratina. Porém, fere fundo o citado princípio da universalidade do dito regime de implementação de cobrança, abrindo (agora sim) a porta das providências cautelares aos nortenhos.

Aqui deixo, pois, o meu businão, na expectativa que outros se lhe juntem.

Prontos, eles aí vêm!

Pela 3.ª vez após o vintecincobarraquatro que o FMI nos visitará, com um saco de dinheiro numa mão e um lápis vermelho na outra.

Desta feita, porém, virá de braço dado com o FEEF, que trará um saco de dinheiro duas vezes maior que o seu, mas o lápis continuará a ser o dele.

Admito que FEEF traga ainda consigo um pouco de azeite para, por vezes, poder diluir algumas gotas no vinagre que sempre acompanha o FMI.
Naturalmente, desde que isso convenha ao credor huno...

Desta feita, ainda, encontrará por cá, já não o velho e$cudo, mas sim o novel €uro, pelo que, não podendo usar a sua também habitual receita da desvalorização da moeda, necessitará de mais riscos vermelhos.
E talvez mesmo de prolongar a sua estadia...

A grande questão será agora: E depois? Ou melhor quanto tempo ficarão estes fundos sem voltar a ver no visor dos seus telefones o indicativo 351?

É que, do que me é dado observar, ao primeiríssimo sinal de alívio, as insaciáveis clientelas partidárias não perderão tempo para se reposicionarem de boca bem aberta perante as novas lideranças.

Orgulho é coisa de luxo

Como todos nós, também tenho os meus pequenos orgulhos, mas desde cedo comecei a perceber que nem sempre estes são bons conselheiros e que podiam mesmo sair caros.
Continuo a tê-los. Acho mesmo que são parte de mim e que sempre me acompanharão. Aprendi, porém, a não deixar que se sobrepusessem à razão.

Sempre me fez uma enorme confusão todo este exacerbado orgulho socratino que, sobrepondo-se à lógica de qualquer razão, se transformou em verdadeira obsessão, impedindo-o de pedir a ajuda que múltiplas razões de há muito aconselhavam. Foi preciso todo este lamentável jogo, nacional e internacional, a que nos obrigaram a assistir impotentes, para que, encostando-o totalmente à parede mais ao fundo, ele sentisse que já não lhe restava qualquer outra escapatória senão a de pronunciar a mágica palavra.

Mas o orgulho é um luxo e toda esta obstinação socratina nos saiu bem cara. Aliás ainda estou para ver como conseguiremos pagar todas as altíssimas taxa de juro a que o seu orgulho doentio nos comprometeu.

Sócrates

Não se pode chamar de "valor" assassinar seus cidadãos, trair seus amigos, faltar a palavra dada, ser desapiedado, não ter religião. Essas atitudes podem levar à conquista de um império, mas não à glória
Maquiavel


Sócrates não morreu, e está bem longe disso. E a sucessão dos acontecimentos continua a respeitar um calendário que foi por ele desenhado. Senão vejamos:

Março
chumbo do PEC IV que ele tudo fez para que o PSD não o aprovasse
demite-se do governo
eleito em directas com 97% dos votos.
(consegue ser visto como um desgraçado que está a ser atacado. É impressionante a quantidade de gente que não sendo socialista assim o vê. dessa forma está explicado porque merecemos nós os governantes que vamos tendo)

Abril
anuncia o pedido de ajuda internacional explicando que não foi ele que o quis e chuta para Cavaco a responsabilidade de alcançar o consenso partidário
(aqui até a cena macaca de ver se fica bem virado mais à direita ou esquerda está a ser capitalizada a seu favor pois os jornalistas aparecem como os maus da fita que sabem que aquilo se passa sempre e desta vez mostraram)
congresso do partido este fim de semana no porto onde todos os seus camaradas irão louvar e cantar ode sair de lá em gloriosa campanha contra os maus
decorrerão as negociações e ele vai poder andar a dizer que está a fazer o seu melhor para minorar as draconianas condições e se mais não faz é porque é um governo de gestão e por culpa dos maus e traidores da pátria

Maio
sentiremos as primeiras medidas do FMI
Sócrates aparece como aquele que sempre quis evitar estas situações de aperto impostas pelo FMI


Junho
vamos a votos com um cheirinho das decisões do FMI
o povo sempre choraminga, vota no calimero


e eu fujo......

A primeira tranche


O amigo Vitor já conseguiu mandar a primeira tranche da ajuda: o aumento da taxa do juro de referência do Banco Central Europeu: porreiro pá!

...

Não chamem o FMI, chamem o FBI

Dar arejo ao cão


“Oh Luís, vê se eu fico melhor a olhar assim... ou assim”.
Alguém imagina o Churchill a fazer uma pergunta destas antes de discursar, por exemplo, no parlamento britânico a anunciar a declaração de guerra à Alemanha. Ou o Mandela ao dar a sua primeira entrevista depois de ser libertado. Ou o Kennedy antes de subir ao palanque junto ao muro de Berlim para dizer ‘ich bin ein Berliner’?

Aquele diálogo com o tal Luís marca a distância entre o seu autor e os outros: algo parecido com o infinito, algo que é muito comprido, pois, como dizia um outro, perto do fim ainda há um outro tanto.

Hoje nem queria falar destas coisas. Jejuar é saudável e levantei-me a pensar que ia dar arejo ao cão e olhar o mar. Li que os físicos de Chicago publicaram na Physical Review Letters uns trabalhos que demonstram estarem à beira de descobrirem uma nova força universal, a tal que faltava para compor o leque formado pelas nuclear forte e fraca, electromagnética e da gravidade. A confirmar-se, será um passo de gigante no conhecimento humano. O género de notícia que é tão importante que parece incrível que passe despercebida. A não ser que essa tal força seja a força da estupidez e da cretinice: chamem o Luís.